Eleição na Interpol põe credibilidade da organização em xeque

O candidato emiradense à presidência da organização internacional arrisca ser detido se for à sede, em Lyon.

De um lado, a diretora da cooperação internacional da polícia checa e vice-presidente da Interpol para a Europa; do outro, o inspetor-geral do Ministério do Interior dos Emirados Árabes Unidos. Até amanhã os representantes dos 195 países associados da Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol) vão escolher em Istambul um dos dois candidatos para suceder ao sul-coreano Kim Jong Nam na presidência da instituição. Uma eleição que volta a trazer a Interpol para as notícias pelos piores motivos.

O candidato dos Emirados, Ahmed Naser al-Raisi, apresenta-se como um defensor das melhores práticas policiais e da inovação, mas enfrenta várias ações na justiça no Reino Unido, França, Suécia e Noruega. Em França, a organização Gulf Center for Human Rights apresentou uma queixa contra al-Raisi por "atos de desumanidade e tortura" devido à prisão de Ahmed Mansoor, um ativista dos direitos humanos que se encontra em solitária há quatro anos.

A candidata checa diz ser "impossível ignorar as alegações de crimes muito graves" que enfrenta Ahmed Naser al-Raisi.

Em Londres, dois homens que estiveram presos nos Emirados queixa-se do tratamento que receberam. Ali Issa Ahmad, que foi preso por ter vestido a camisola de futebol do Qatar, país rival dos Emirados, afirma ter ficado com cicatrizes na cara da tortura que sofreu. Matthew Hedges, encarcerado durante sete meses por suspeitas de espionagem, acabou por ser "perdoado" após condenação a prisão perpétua, mas não perdoa o que aconteceu. "Ele é totalmente responsável pela tortura. A mensagem que a sua candidatura transmite é que não só pode fazer isto e safar-se, como também ser recompensado", disse ao Guardian Hedges, que se deslocara àquele país para uma investigação relacionada com o seu doutoramento.

O advogado Rodney Dixon alertou para uma situação curiosa, tendo em conta que a sede da Interpol é em Lyon: "Se pusesse os pés em território francês poderia ser preso e investigado por tortura ao abrigo do princípio da jurisdição universal."

Al-Raisi será o candidato que mais investiu na campanha pela presidência. Lançou um site em inglês e árabe, viajou à procura de apoios e viu o seu país conceder 50 milhões de euros à fundação da Interpol For a Safer World, em 2017. Segundo a Freedom House, os Emirados não são um país livre, obtendo 17 pontos em 100 na escala daquela organização, que avalia os direitos políticos e as liberdades civis. Já a República Checa, o país da candidata Sarka Havrankova, obtém 91 pontos. Para esta alta funcionária da polícia, com mais de 25 anos de experiência, a eleição do seu concorrente poderia "levar à perda de confiança na organização". Isto porque, enquanto polícia "é impossível ignorar as alegações de crimes muito graves enfrentados por um dos colegas", disse à Euronews.

A história recente da presidência da Interpol tem estado ligada ao crime. Em 2008, o sul-africano Jackie Selebi foi obrigado a demitir-se depois de acusado de corrupção enquanto comissário, tendo sido condenado a 15 anos de prisão. Em 2017, o chinês Meng Hongwei desapareceu no país natal. Três anos depois soube-se que fora condenado a 13 anos por corrupção. "A reputação e legitimidade da organização foram abaladas no passado e não podem dar-se ao luxo de serem novamente fraturadas", adverte Havrankova.

cesar.avo@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG