Democratas travam onda republicana e abrem debate sobre a força de Trump

Republicanos devem ter a maioria na Câmara, apesar de ficar aquém do previsto, e os democratas esperam manter o controlo do Senado. Candidatos apoiados pelo ex-presidente fizeram pior do que o esperado e o seu grande adversário para 2024 foi o vencedor da noite.

O Partido Republicano estava esta quarta-feira bem posicionado para recuperar a maioria da Câmara dos Representantes, mas a "onda vermelha" que muitos antecipavam acabou por não se registar. E no Senado o cenário parecia mais favorável aos democratas, apesar de a vitória não ser certa e ser provavelmente necessário esperar pelos resultados da segunda volta na Geórgia, a 6 de dezembro. Isso são boas notícias para o presidente Joe Biden e más notícias para o ex-presidente Donald Trump.

A noite eleitoral (transformada de novo em semana eleitoral já que ainda há votos por contar) acabou por sorrir a Biden, uma vez que os democratas fizeram melhor do que o esperado. "Foi um bom dia para a democracia e para a América", disse o presidente numa reação às eleições, lembrando que a "onda gigante vermelha" não aconteceu mas que os eleitores também deixaram claro que estão frustrados e que percebeu a mensagem. "Estamos apenas a começar", disse.

Trump foi entretanto apontado como o grande derrotado, mas isso não vai alterar os seus planos para 2024. O ex-presidente, que considerou os resultados "algo dececionantes", contava com uma grande vitória republicana para catapultar a sua terceira candidatura à Casa Branca, tendo prometido um "grande anúncio" para a próxima terça-feira. O problema é que não só não houve a "onda republicana", como muitos dos candidatos que apoiou tiveram números piores do que outros republicanos nos mesmos estados. Veja-se a Geórgia. O governador Brian Kemp (que recusou ajudar Trump a reverter a derrota eleitoral em 2020) venceu facilmente a adversária democrata, Stacey Adams, mas o candidato ao Senado Herschel Walker (apoiado pelo ex-presidente) ficou atrás do democrata Raphael Warnock - os dois vão à segunda volta.

Noutra má notícia para Trump, Ron DeSantis foi um dos grandes vencedores da noite. O governador da Florida conseguiu a reeleição e esmagou o adversário democrata (60% contra 40%), num estado que outrora era mais renhido e que podia acabar para um ou outro partido - há quatro anos foi preciso fazer a recontagem dos votos para encontrar o vencedor. Esta vitória pode catapultar DeSantis para o palco nacional, sendo há muito apontado como um eventual adversário de Trump - sendo visto por alguns como uma espécie de versão melhorada deste (e sem os seus problemas legais).

O ex-presidente, de 76 anos, já avisou o governador, de 44, que concorrer às eleições de 2024 pode ser prejudicial para o partido e o próprio DeSantis, ameaçando revelar informação comprometedora. "Sei mais coisas sobre ele do que qualquer pessoa, exceto, talvez, a sua mulher", disse. Trump tem os seus apoiantes leais, mas o resultado destas intercalares levará os republicanos a analisarem o seu poder e força para lá deste grupo.

Do outro lado, Biden é impopular (só tem 41,4% de aprovação, segundo o site FiveThirtyEight) e faz 80 anos este mês. O presidente já disse que tem intenção de concorrer a 2024, mas para já é só mesmo uma intenção. E assim que as intercalares estiverem resolvidas, estará aberta a porta entre os democratas - nomeadamente a ala mais à esquerda - para aumentarem as críticas ao presidente.

A onda que não foi

"Quando acordarem amanhã, estaremos na maioria e Nancy Pelosi [presidente da Câmara dos Representantes] estará na minoria", disse o líder dos republicanos nesta câmara, Kevin McCarthy, quando eram já duas da manhã - inicialmente estava previsto que falasse às 22.00. Um curto discurso de vitória quando os resultados já começavam a mostrar que os republicanos não estavam a ter o desempenho arrebatador previsto - no início do ano McCarthy tinha falado numa maioria de 60. "Definitivamente não há onda republicana, isso é certo", disse o senador Lindsey Graham, líder da minoria no Senado, na NBC News.

As eleições intercalares costumam resultar numa perda de lugares na Câmara dos Representantes (e no Senado) para o partido do presidente. À partida para as eleições, os democratas tinham 220 congressistas e os republicanos tinham 212 (três lugares estavam vagos), pelo que tinham uma maioria pela margem mínima. No Senado havia um empate a 50. Juntando a popularidade baixa de Biden à crise económica, os republicanos partiam para as urnas confiantes de que iriam recuperar facilmente o controlo da Câmara. Essa conquista pode ser contudo mais apertada e o Senado pode ficar igual.

Ao final do dia, segundo a agência AP, os republicanos tinham eleito 206 congressistas - e estavam a 12 dos 218 necessários para ter a maioria. Os democratas tinham 176. Os outros resultados podem demorar dias, por causa da contagem dos votos por correio, sendo que em muitos estados estes tendem a favorecer os democratas. As projeções do The New York Times previam uma vitória republicana de 224 contra 211, enquanto as da NBC falavam de 222 contra 213.

O facto de os republicanos recuperarem o controlo da Câmara irá travar a agenda governativa de Biden nos últimos dois anos de mandato - ou deixá-lo dependente das "ordens executivas" como os antecessores. O pior é que também abrirá a porta a uma série de investigações - aos negócios do filho Hunter, à retirada das tropas do Afeganistão e até às causas da inflação. Ou até a uma tentativa de impeachment. Qualquer legislação que os republicanos aprovem será travada no Senado (se os democratas mantiverem a maioria) ou pelo próprio veto do presidente.

À espera da Geórgia?

No caso do Senado, o cenário parecia mais favorável aos democratas - especialmente depois de John Fetterman ter ganho a Mehmet Oz na Pensilvânia, conquistando o lugar que era republicano (Pat Toomey não se recandidatou). Ainda assim, os republicanos estavam ao fim do dia à frente - já tinham 49 senadores face aos 48 democratas (incluindo dois independentes). Isto já dando como certa a vitória republicana no Alasca, onde a disputa era entre duas candidatas do partido (a senadora Lisa Murkowski, que votou a favor do impeachment de Trump, estava atrás da apoiante do ex-presidente Kelly Tshibaka).

A corrida irá contudo decidir-se em três estados: Nevada, Arizona e Geórgia. Os republicanos iam à frente no Nevada, os democratas no Arizona. Se não houver surpresas aqui, tudo irá depender da Geórgia, que irá a uma segunda volta a 6 de dezembro. Tudo porque apesar de o governador democrata Raphael Warnock ter ganho ao republicano Herschel Walker, não conseguiu chegar aos 50%. Isso significa que a maioria no Senado pode só ser decidida nessa altura. Em caso de empate a 50 para cada lado, a vice-presidente Kamala Harris tem o voto de desempate, pelo que a maioria será democrata.

susana.f.salvador@dn.pt

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