De Ramsés II à rainha Hatshepsut. Egito vai realizar um inédito desfile de múmias

O cortejo será liderado pelo faraó Sekenenré Taá (século XVI a.C.), da 17.ª dinastia, e será encerrada por Ramsés IX (século XII a.C.), da 20ª. O rei Ramsés II e a rainha Hatshepsut também farão parte deste grande desfile

As múmias de 22 reis e rainhas do Egito antigo vão protagonizar um "desfile de faraós" sem precedentes, no sábado (3), entre o Museu do Cairo, onde repousam há mais de um século, e o Museu Nacional da Civilização Egípcia (NMEC), ao sul da capital, que será inaugurado em 4 de abril e de cuja coleção passarão a fazer parte.

No sábado, dia 3 de abril, antes do cair da noite, 22 múmias reais - 18 reis e quatro rainhas -, todas datadas das 17.ª, 18.ª, 19.ª e 20.ª dinastias. Serão transportadas em ordem cronológica, cada uma a bordo de veículos com decorações típicas da época dos faraós, identificados com o nome do soberano.

O trajeto de cerca de sete quilómetros terá duração de 40 minutos e contará com importantes medidas de segurança.

O cortejo será liderado pelo faraó Sekenenré Taá (século XVI a.C.), da 17.ª dinastia, e será encerrada por Ramsés IX (século XII a.C.), da 20ª. Mais conhecidos do grande público, o rei Ramsés II e a rainha Hatshepsut - a mais poderosa das mulheres faraós - também farão parte deste grande "desfile dourado dos faraós".

As múmias de Ramsés VI, Ramsés V, Seti I, Seqenenre, Tuthmose III, Rainha Hatshepsut, Rainha Meritamen e Rainha Ahmose Nefertari também fazem parte da parada.

Assim que as múmias chegarem ao NMEC, serão submetidas a trabalhos de restauração em laboratório durante 15 dias, a fim de estarem preparadas e intactas para a instalação em suas novas vitrines.

O evento também contará com um espetáculo musical transmitido ao vivo pela televisão egípcia.

A maioria das 22 múmias, descobertas perto de Luxor, no sul do Egito, a partir de 1881, nunca saiu do museu no centro do Cairo, localizado na famosa Praça Tahrir, desde o início do século XX.

Desde a década de 1950 estão expostas, lado a lado, numa pequena sala do museu, sem muitas explicações para os visitantes.

No próximo sábado, para serem transportadas, serão colocadas numa espécie de embalagem que contém nitrogénio, em condições muito semelhantes às das urnas em que estão no museu. Os veículos que irão transportá-las também possuem um mecanismo para evitar impactos.

No NMEC, a partir de 18 de abril, serão exibidas em urnas mais modernas, "com controlo de temperatura e humidade mais avançado que o do antigo museu", explicou à AFP Salima Ikram, professora de egiptologia da Universidade Americana do Cairo e especialista em mumificação.

As múmias serão apresentadas individualmente, ao lado de seus sarcófagos, num ambiente que lembra as tumbas subterrâneas dos reis, e cada uma terá uma biografia. Em alguns casos, as tomografias que foram realizadas também serão exibidas.

"Pela primeira vez, as múmias serão apresentadas de uma maneira bonita, para fins educacionais", disse à AFP o egiptólogo Zahi Hawass.

Segundo o especialista, o ambiente macabro que cercava as múmias no Museu do Cairo assustava vários visitantes. "Jamais esquecerei quando levei (a princesa) Margaret, irmã da Rainha Isabel II, ao museu: ela fechou os olhos e fugiu a correr", lembrou.

Passados anos de instabilidade política após a revolta popular em 2011, que afetou gravemente o turismo no país, o Egito procura uma maneira de recuperar os visitantes estrangeiros. O NMEC e o Grande Museu Egípcio (GEM), próximo das pirâmides, que serão inaugurados nos próximos meses, fazem parte dessa estratégia.

"A maldição dos faraós"

O Grande Museu Egípcio abrigará as coleções faraónicas do museu do Cairo, incluindo o famoso tesouro do rei Tutancamon. Descoberto em 1922, o seu túmulo preservou a múmia do jovem rei e vários objetos de ouro, marfim e alabastro.

Mas por que não exibir as múmias neste museu? "O GEM já tem o rei Tutancamon, a estrela. Se as múmias não ficarem no NMEC, ninguém virá visitá-lo", argumenta Hawass.

Enquanto aguardam o desfile inédito de sábado, as redes sociais estão repletas de mensagens que falam da "maldição dos faraós". Vários internautas relacionaram as recentes catástrofes ocorridas no Egito a uma "maldição" causada pela transferência dos antigos reis.

No espaço de uma semana, o Egito vivenciou o bloqueio do Canal de Suez por um cargueiro gigantesco, um acidente de comboio que deixou 18 mortos e um incêndio num prédio no Cairo com 25 mortos.

A "maldição dos faraós" também foi mencionada pela imprensa por volta de 1920, após a descoberta da tumba de Tutancamon, quando membros da equipe de arqueólogos morreram em circunstâncias misteriosas.

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