Uma rua da cidade velha de Havana ainda com turistas, há uma semana. Mas sem voos, o cenário vai mudar em breve.
Uma rua da cidade velha de Havana ainda com turistas, há uma semana. Mas sem voos, o cenário vai mudar em breve.FOTO: EPA/Ernesto Mastrascusa

“Cuba sempre precisou de aliados externos para sobreviver. Hoje não tem mais nenhum"

Sem o petróleo venezuelano e com a pressão dos EUA, a ilha enfrenta um dos momentos mais difíceis desde o “período especial” dos anos 1990, após a queda da União Soviética. Será que o regime resiste?
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O líder cubano, Miguel Díaz-Canel, diz que “a rendição não é uma opção”, mas a crise económica agravou-se desde o início do ano com o corte do petróleo venezuelano (depois de os EUA terem derrubado Nicolás Maduro) e com a pressão acrescida do presidente norte-americano, Donald Trump, que quer forçar um acordo.

O turismo, que salvou a ilha após a queda da União Soviética, é um dos setores mais afetados, com hotéis a terem que fechar e companhias aéreas a cancelarem os voos devido à falta de combustível. Será este o fim do regime que nasceu da Revolução Cubana de 1959?

“Estamos a assistir ao fim do regime desde 1991”, disse ao DN o investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Andrés Malamud. No início da década de 1990, no rescaldo da queda da União Soviética, o então líder cubano, Fidel Castro, decretou o chamado “período especial”, marcado pelos racionamentos, para responder ao corte do apoio de Moscovo.

“É improvável o regime sobreviver a outro período especial. Cuba sempre precisou de aliados externos para a sua sobrevivência material: URSS, China, Venezuela. Hoje não tem mais nenhum”, resumiu Malamud.

A situação económica da ilha está complicada há vários anos, com o setor do turismo (Cuba apostou nele durante o “período especial”) a não conseguir recuperar do impacto da pandemia da covid-19 e das sanções introduzidas no primeiro mandato de Donald Trump. O presidente dos EUA revogou toda a abertura que tinha ocorrido com Barack Obama, que chegou a visitar a ilha em 2016. Em 2025, Cuba só atraiu 1,8 milhões de turistas, o valor mais baixo em duas décadas.

Por outro lado, as reformas económicas do governo, liderado desde 2018 por Miguel Díaz-Canel, não foram bem sucedidas, com problemas de abastecimento e cortes de energia constantes (os projetos de renováveis ainda não estão prontos). Em julho de 2021, Cuba voltou a ver protestos como não via há vários anos. Quatro anos depois, ainda havia 750 manifestantes detidos (representavam 65% dos presos políticos na ilha).

A queda de Nicolás Maduro na Venezuela, numa operação militar dos EUA no início de janeiro, agravou ainda mais a situação. O pouco petróleo venezuelano que chegava à ilha (cobria 30% das necessidades) foi totalmente cortado devido à pressão de Washington sobre a presidente interina, Delcy Rodríguez, e o bloqueio naval à Venezuela.

Os EUA ameaçam ainda outros países com sanções caso vendam petróleo a Havana - o México, por exemplo, suspendeu os seus fornecimentos, optando por enviar dois navios de comida e ajuda humanitária. Mas é caso raro numa América Latina a virar à direita - o presidente eleito chileno, José António Kast, já questionou a ajuda no valor de um milhão de dólares enviada pelo ainda líder Gabriel Boric.

A falta de petróleo está a afetar o dia a dia dos cubanos, com a previsão de uma espera de meses para poderem abastecer os carros e cortes de energia que chegam a mais de 24 horas. As escolas funcionam menos horas e as empresas estatais aderiram à semana de quatro dias.

O setor do turismo foi especialmente afetado, com vários hotéis a terem que fechar e a falta de combustível para os aviões a obrigar muitas companhias aéreas (incluindo do Canadá e Rússia, os principais “fornecedores” de turistas à ilha) a cancelar os seus voos, retirando uma importante fonte de rendimentos aos cubanos.

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Na busca de apoios, o chefe da diplomacia cubano, Bruno Rodríguez Parrilla, reuniu esta quarta-feira (18 de fevereiro) em Moscovo com o homólogo russo, Sergey Lavrov. Havia ainda a hipótese de uma reunião mais tarde com o próprio presidente Vladimir Putin.

Chefe da diplomacia russo, Sergey Lavrov, recebeu o homólogo cubano, Bruno Rodríguez Parrilla.
Chefe da diplomacia russo, Sergey Lavrov, recebeu o homólogo cubano, Bruno Rodríguez Parrilla.EPA/HECTOR RETAMAL / POOL

Apelidando a ilha de “nação irmã”, Lavrov disse que, como a maior parte da comunidade internacional, a Rússia defende que os EUA deviam mostrar “bom senso e responsabilidade” e abster-se dos planos de um bloqueio naval a Cuba.

Lavrov rejeitou ainda que a cooperação entre Moscovo e Havana represente uma ameaça aos interesses dos EUA - não sendo contudo claro se continuará a mandar petróleo. A dívida externa cubana ultrapassa os 46 mil milhões de dólares, estando a ilha em incumprimento com a maioria dos credores.

O chefe da diplomacia russa defendeu que os problemas deviam ser resolvidos através de um “diálogo de respeito mútuo”, com Rodríguez Parrilla a reiterar que Cuba “estará sempre pronta para um diálogo respeitoso e em igualdade de circunstâncias com qualquer país”.

Na segunda-feira (16 de fevereiro), a bordo do Air Force One, Trump - que em janeiro declarou a ilha uma “ameaça invulgar e extraordinária à segurança nacional dos EUA” - disse aos jornalistas que Cuba era uma “nação falida”.

Explicando que o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, estava a negociar com os cubanos, defendeu um acordo com Havana e rejeitou a ideia de uma operação de mudança de regime como na Venezuela. “Não acredito que isso seja necessário”, disse o presidente.

O economista cubano Emilio Morales, vice-presidente do laboratório de ideias Cuba Siglo 21, disse ao Periodico Cubano (sediado no México) que não acredita que o regime dure até ao verão. “Estamos na etapa final”, afirmou, dizendo que seria preciso um “milagre” para que isso não acontecesse e mostrando também incredulidade em relação a uma mudança de poder dentro do Partido Comunista.

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A queda de Maduro na Venezuela não significou a queda do regime, com a até então vice-presidente Delcy Rodrígues a assumir a presidência interina. A questão é saber quem poderia desempenhar esse papel em Cuba. “Há vários candidatos a Delcy Rodriguez em Cuba, só não sabemos quem vão eleger os EUA”, lembrou Carlos Malamud.

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Na semana passada, o jornal espanhol El País dizia que um sobrinho-neto de Fidel e de Raúl Castro (que esteve no poder depois do irmão, entre 2006 e 2018) podia ser o escolhido. Óscar Pérez-Oliva Fraga é um engenheiro eletrónico de 54 anos, com experiência em gestão de empresas, que ocupa o cargo de vice-primeiro-ministro e ministro para os Investimentos Estrangeiros.

Mas segundo outro jornal espanhol, o ABC, quem já estará a negociar com a CIA é o filho de Raúl Castro, o coronel Alejandro Castro Espín. Já o site norte-americano Axios alega que quem está envolvido nas negociações é o neto do antigo líder, Raúl Guillermo Rodríguez Castro, de 41 anos. Todos concordam que Raúl Castro, apesar dos seus 94 anos, ainda continua a ter muita influência e que é o facto de ainda estar vivo que segura o velho regime. O objetivo das negociações, cuja existência Havana nega, seria conseguir uma transição sem a queda do regime.

“O problema fundamental de Cuba é que não tem economia. E as pessoas que estão à frente daquele país não sabem como melhorar o dia a dia da sua população sem abdicar do poder nos setores que controlam”, disse o secretário de Estado norte-americano numa entrevista à Bloomberg durante a Conferência de Segurança de Munique do último fim de semana. “Querem controlar tudo”, acrescentou Rubio, alegando que “preferem estar à frente de um país moribundo do que permitir que prospere”.

Segundo o Axios, o interlocutor do neto de Raúl Castro em Washington é o próprio secretário de Estado. De origem cubana (os pais deixaram a ilha ainda antes da Revolução de 1959), Rubio há décadas que procura a queda do regime, com a imprensa oficial da ilha a alegar até que está a manipular Trump. O seu sucesso marcaria mais um ponto (depois da queda de Maduro) na luta silenciosa com o vice-presidente J.D. Vance pela possibilidade de conseguir a nomeação republicana para suceder a Donald Trump.

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