"Conflito na China seria catástrofe ainda maior para a América Latina do que a guerra na Ucrânia"

O diplomata e professor da República Dominicana Iván Gatón esteve em Lisboa para várias palestras sobre o impacto da guerra na América Latina. Falou ao DN desse tema, mas também da nova geopolítica virada para o Pacífico e da situação que se vive no Haiti.

Apesar de distante da Ucrânia, a América Latina também sente o impacto da guerra. De que forma?
A guerra tem um impacto muito contundente em economias já muito afetadas pela crise causada pela covid-19. Na maioria dos nossos países a informalidade no comércio obrigou a que muitas pessoas ficassem sem rendimentos. Além disso, a região é a mais endividada do planeta, e a pandemia implicou mais pedidos de empréstimos para podermos manter as nossas economias. A covid trouxe também a crise dos contentores. O processo de globalização gerou um nível de interdependência onde a América Latina beneficia de vender matérias primas, mas ao romper-se a logística de comércio mundial, isso tem um impacto inflacionário. A isso soma-se então o facto de a guerra ser na Ucrânia e envolver Rússia. Vou dar um exemplo, o Brasil é um grande produtor agrícola e 80% dos fertilizantes são comprados na Rússia, alvo de sanções. Depois, a guerra aumentou também o valor do dólar e as nossas negociações são em dólares. Além disso, a maior reserva energética está na Venezuela, mas a Venezuela está a receber, em média, menos de 20% do que recebia pela venda de petróleo, depois das sanções que se aplicaram.

Mas no caso da Venezuela, será que não beneficiou, no sentido em que até à guerra estava isolada e depois, pela necessidade de procurar uma alternativa ao petróleo russo, de repente os EUA abriram a porta ao diálogo?
Em termos políticos sim, esta nova era geopolítica beneficia a Venezuela. Os países da OPEP+ decidiram não aumentar a produção diária a pedido da Rússia, mesmo depois da visita do presidente [dos EUA, Joe] Biden a Riade. Mas apesar de a Venezuela ter a maior reserva energética do mundo, isso não implica que seja benéfico para todos os países da região. Porque o preço do barril de petróleo, que tem um efeito muito forte nas nossas economias, tem como referente o preço mundial. Vamos comprar o barril a 90 dólares, quando a maioria dos nossos países calcularam um orçamento para este ano a 62. A América Latina tem uma espécie de tempestade perfeita.

Como assim?
É a região mais desigual. Apesar de ser rica em recursos naturais, não fez um projeto de Estado que permita ter uma sociedade mais inclusiva, com exceções do Uruguai na América do Sul e da Costa Rica na América Central. É um desafio muito grande. Como podemos fazer uma democracia inclusiva em saúde, em qualidade de educação e com segurança? Há grandes problemas com o tráfico de droga, com grupos delinquentes como as maras, o MS13, o Bairro 18, o Comando Vermelho no Brasil... Tudo isto cria metástases a tal ponto que mais de 10% do PIB da América Latina vê-se afetado pela alta taxa de criminalidade. Encontramo-nos num panorama muito sombrio, numa mudança de era geopolítica onde vemos que o mundo deixa o Atlântico, o Eixo Transatlântico, que por 500 anos foi hegemónico, e agora move-se para o Pacífico.

A China é o principal parceiro comercial de muitos países da América Latina. Para a região será mais grave uma eventual guerra entre China e Taiwan?
Por vezes existe a tendência de ver apenas a árvore que está à frente, quando temos que ver o bosque. Quando olhamos para o Livro Branco da Defesa dos EUA de 2018, ele diz claramente que o problema é a China. A questão da Rússia e da Ucrânia é conjuntural. Aqui o que se está a discutir no mundo é a armadilha de Tucídides. Isto é, voltar ao referente das guerras do Peloponeso, onde Atenas e Esparta lutavam por saber quem mantinha a hegemonia. Aqui é também uma questão de ver quem terá a hegemonia. Os últimos séculos foram ocidentais, desde o processo de modernidade que se inicia com os pioneiros ibéricos há 500 anos, desde o início da globalização. Mas o que acontece agora na pós-modernidade? Estamos diante de um mundo onde a Índia, a Turquia, o Irão, a Indonésia, a China dizem que a ordem que está estabelecida é a ordem da II Guerra Mundial no Conselho de Segurança, que é quem realmente decide nas Nações Unidas. Mas tem a Índia representação no Conselho de Segurança? Um país tão importante para o mundo como o Brasil está representado adequadamente? Então agora está a falar-se de uma pós-modernidade onde evidentemente é preciso definir como é que o mundo vai poder governar-se.

E que papel tem a América Latina?
A América Latina tem um problema de uma elite política e económica que esteve sempre atrasada nos acontecimentos históricos que conformam o mundo e que permitem aos países obter um maior benefício ou não. É preciso ver se essa elite política e económica pode estar à altura das exigências, porque sob o panorama que referi, das crises económicas, da criminalidade, da falta de instituições sólidas, essa América Latina tem um desafio geopolítico. Como vai agir agora que a China é o principal sócio de quase todos os países da América Latina? Vamos continuar a ser fornecedores de matérias primas?

Daí ser mais perigoso para a América Latina um conflito na China?
A Ucrânia fica a dez mil quilómetros e veja onde chegam os efeitos que estamos a sofrer. Um eventual conflito no mar meridional da China seria uma catástrofe maior para a América Latina do que a atual guerra na Ucrânia. E repare que estamos a falar de assuntos muito graves, muito sérios. O próprio presidente Biden disse ter definido linhas vermelhas na cimeira do G20 em Bali, mas os chineses disseram que o Mar do Sul da China não é pátio traseiro de ninguém.

Ninguém imaginava a invasão da Ucrânia e ela aconteceu. Talvez as pessoas já tenham menos certezas em relação ao que pode suceder com a China...
Mas aconteceu algo, que a mim me chamou a atenção. Quando a líder da Câmara dos Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, visitou Taiwan, a China fez exercícios militares em redor da ilha. O que aconteceu? Nenhum barco com matérias primas entrou . Não puderam sair aviões. A ilha ficou isolada esses dias. E Taiwan é o principal produtor de microchips do planeta. Estamos a falar de microchips que temos nos computados, no carros, em tudo. Os EUA já disseram que vão investir em indústrias que permitam fazer esses microchips. Eu estudei em Taiwan, na Universidade Tamkang, e dizia-me um professor. "Quando estas empresas tiverem os microchips, porque isto demora algum tempo, será que os EUA se vão preocupar tanto com Taiwan?" E a China, que também depende desses microchips? A conceção que temos no Ocidente do tempo e da forma em que é preciso ser rival é muito diferente em China.

Na China os políticos não estão a pensar em termos de mandatos de quatro ou cinco anos.
Quando perguntaram a Zhou Enlai, que era o primeiro-ministro de Mao Zedong e chefe da diplomacia, ele referiu que a questão de Taiwan ia levar tempo. Mas quando lhe perguntaram qual era a sua opinião sobre a Revolução Francesa, ele que tinha vivido em França, disse "é um fenómeno muito recente, razão pela qual não tenho uma opinião formada sobre o mesmo". No Ocidente temos o grande inconveniente, e isso é um pouco de arrogância intelectual, de ver civilizações milenárias desde a nossa perspetiva. A China tem o seu projeto de longo prazo. Quando olhamos para a informação que o Ministério de Relações Externas dá ao público, eles apontam a data de 2049. Os cem anos da Revolução Chinesa. E o facto de os produtos chineses já não serem malvistos, já haver carros chineses na América Latina, telemóveis chineses. Isso foi o projeto 2030. A China tem feito uma espécie de invasão silenciosa, com os seus próprios canais de distribuição e uma diáspora chinesa que ultrapassa os 44 milhões de pessoas espalhadas por todo o planeta. Uma invasão que não é feita pelos políticos, que jogam à pornocracia, mas por pessoas que têm um projeto de longo prazo e vem aí a grande encruzilhada do mundo democrático. É importante que Europa esteja mais próxima tanto da América Latina como em África, para que tenham equilíbrio com o mundo asiático.

"É preocupante que não haja um Plano Marshall para o Haiti"

O secretário-geral da ONU defende o envio de uma força militar para o Haiti, que vive uma situação caótica em questões de segurança, economia, saúde. Como dominicano, como vê esta situação?
Com grande preocupação. O Haiti é um país que sofreu um terramoto devastador, em que morreram mais de 300 mil pessoas. É um país que tem uns 27 mil quilómetros quadrados e o único rio de água que pode abastecer nasce na República Dominicana. Que tem uma taxa de natalidade muito alta, cada mulher haitiana tem em média quatro filhos, são mais de 12 milhões de pessoas. Para mim é preocupante que não haja uma espécie de Plano Marshall para o Haiti.

Qual é o impacto para a República Dominicana?
Onde está o pão, está a pátria. Os EUA não querem os haitianos, os cubanos não os aceitam, ninguém os quer receber. E a República Dominicana, que faz fronteira terrestre, está cheia de haitianos ilegais. A República Dominicana é o país que mais cresceu nos últimos 40 anos, ininterruptamente, na América Latina, que se transformou e que todo o mundo quer visitar. Mas é um país que gasta grande parte do seu orçamento hospitalar nas haitianas que têm que ir dar à luz ao nosso país. O que acontece num cenário em que ainda não conseguimos satisfazer as aspirações de toda a população? Não se pode deixar que um país como o nosso carregue com o peso do Haiti.

Tem que ser um plano alargado?
Não é possível um país sobreviver e avançar só com militares. O fracasso da Minustah [Missão de Estabilização da ONU no Haiti] vem daí. Investiu dinheiro mas só em gastos militares. O Haiti precisa de um plano Marshall no qual os seus habitantes possam ter um emprego. Veja um exemplo. Há uma comunidade no Haiti chamada Ouanaminthe, mais conhecida em espanhol como Juana Méndez. Fica na fronteira a norte com a República Dominicana, separada da cidade de Dajabón pelo rio Massacre. Nessa comunidade instalou-se um projeto de uma zona franca industrial. Quando fui lá, no início do projeto, havia barracas. Depois regressei com um grupo de alunos e, para minha surpresa, Juana Méndez é diferente e não há grupos criminosos. Porque é diferente? Porque tem emprego, porque lhes foi dada uma oportunidade. Então porque é que ao povo haitiano não se pode desenhar um plano Marshall? É o que necessita o Haiti.

susana.f.salvador@dn.pt

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