Cimeira de Glasgow em tempo extra 

Sem surpresa, duas semanas não chegaram para que 197 países chegassem a um consenso quanto à forma e ao conteúdo de um acordo climático.

O ministro da Resiliência Climática de Granada, Simon Stiell, já sabia ao que ia e levou consigo o saco-cama. A COP26 deverá terminar neste sábado. Desde a 12.ª conferência das Nações Unidas sobre as alterações climáticas que os trabalhos prosseguem para lá da data limite - e as últimas duas já entradas no domingo. A mais recente, a COP25, em Madrid, ficou para a história como um fracasso. E agora? "Há uma velha regra destas conferências: nada está fechado até tudo estar fechado", comenta ao DN o ministro do Ambiente João Pedro Matos Fernandes.

Um falhanço irrefutável reside na pegada de carbono. Segundo um relatório de uma empresa citada pelo The Scotsman, a conferência deverá gerar mais de 100 mil toneladas de dióxido de carbono, cerca do dobro da conferência realizada há dois anos. Mas perante as metas globais essa é uma nota de rodapé. O esboço de acordo divulgado de manhã e no qual os negociadores se abalançaram pela noite apelava a uma duplicação nas verbas para ajudar os países em desenvolvimento a enfrentar os impactos das alterações climáticas, e apelava aos estados para reforçarem as metas de redução de emissões até ao próximo ano.

Mas encontrar consenso entre 197 estados é, como disse um negociador citado pela BBC, "jogar xadrez em quatro dimensões com esparguete". A Arábia Saudita, noticiava a Sky News, resistia a que o texto sequer mencionasse os combustíveis fósseis como a principal causa das alterações climáticas - e nem por acaso tal nunca foi mencionado num acordo climático global.

O documento em discussão "regista com profundo pesar" que os países mais ricos ainda não cumpriram o acordado - ajuda anual de 100 mil milhões de dólares aos países vulneráveis - e apela para uma duplicação de fundos até 2025 para ajudar os países em desenvolvimento a adaptarem-se aos efeitos das alterações climáticas, incluindo condições meteorológicas extremas e a subida do nível do mar.

Outra questão controversa em cima da mesa é a de um "mecanismo de assistência técnica" dos países do hemisfério norte, os que mais contribuíram para as emissões de CO2, numa compensação aos outros países pelos danos causados. Tudo somado, para o ministro do Ambiente português, "há boas condições para se chegar a um acordo. Esta última versão já encerra o mínimo de exigência".

Acordos firmados

Antes de chegar ao último dia oficial de trabalhos, a cimeira produziu alguns acordos, entre o corte nas emissões de metano, no fim da desflorestação, no acordo conjunto sino-americano e no inédito compromisso de Nova Deli. Os líderes de mais de cem países, incluindo Brasil, China, Rússia e Estados Unidos, prometeram acabar com a desflorestação até 2030. O acordo histórico abrange cerca de 85% das florestas do mundo, que são cruciais para absorver o dióxido de carbono e abrandar o ritmo do aquecimento global.

No entanto, como notam as associações ambientalistas, o acordo não é vinculativo e, por outro lado, mesmo que seja cumprido, ao ritmo atual do desmatamento os estragos serão tremendos - soube-se na sexta-feira que a desflorestação na Amazónia atingiu um assustador recorde mensal em outubro. O compromisso inclui ainda o investimento de 12 países e de empresas privadas em 16,6 mil milhões de euros para proteger e restaurar as florestas, incluindo 1,4 mil milhões de euros para os povos indígenas.

Outro pacto que juntou mais de cem países foi o Compromisso Global de Metano, no qual os signatários concordaram em reduzir as emissões de metano em 30% até ao final da década. A iniciativa deve-se à administração Biden, e foi o próprio presidente dos EUA quem a apresentou em Glasgow. O metano, que tem 86 vezes o poder de aquecimento do dióxido de carbono durante os primeiros 20 anos após a sua chegada à atmosfera, é emitido em grande parte nas fugas de plataformas petrolíferas e de gás, e na agricultura.

Metade dos 30 principais países emissores de metano do mundo assinaram o compromisso, mas três dos principais poluentes ficaram de fora: Rússia, China e Índia. Este último país, pela primeira vez, juntou-se aos estados que se comprometeram a atingir "zero emissões líquidas", estabelecendo o prazo de 2070 para deixar de emitir gases com efeito de estufa. A Índia é um dos maiores consumidores mundiais de carvão, e agora também anunciou que vai diversificar as fontes e energia que provém de fontes renováveis ao ponto de chegar a 2030 com metade de energias renováveis.

Por fim, a surpresa da cimeira: os Estados Unidos e a China, as duas potências que em todos os outros domínios têm assumido uma competição a roçar a inimizade, anunciaram um acordo conjunto para trabalharem em conjunto e redobrarem esforços para reduzirem mais as emissões nesta década. A China, que não assinou o compromisso de redução de 30% das emissões de metano proposta por Biden, comprometeu-se no entanto, e pela primeira vez, a desenvolver um plano para cortar aquele gás. "Os Estados Unidos e a China não têm falta de divergências. Mas em relação ao clima, a cooperação é a única forma de alcançar os objetivos", disse o enviado especial dos EUA, John Kerry.

O acordo, porém, sendo uma inegável vitória diplomática e política, cai facilmente no "blá-blá-blá" a que Boris Johnson tomou emprestado de Greta Thunberg no discurso do início da cimeira: é que não tem metas específicas. A China não se comprometeu com um novo calendário de redução de emissões, nem estabeleceu um limite máximo para o aumento das suas emissões antes de estas começarem a diminuir. E embora a China concordasse em "reduzir gradualmente" o carvão a partir de 2026, não especificou em que quantidade ou durante que período de tempo.

Protagonistas

António Guterres

O secretário-geral das Nações Unidas, bem como o primeiro-ministro britânico Boris Johnson, desempenhou o papel de anfitrião e de voz da consciência ao alertar para os riscos de não se tomarem decisões com significado em tempo útil. Depois de na intervenção inicial ter usado uma linguagem incomum - "chega de tratar a natureza como uma latrina" -, na véspera do encerramento o dirigente português criticou as "promessas ocas" dos países que continuam a subsidiar a indústria das energias fósseis ou a construir centrais a carvão.

Alok Sharma

O resultado da cimeira deve-se a todas as partes envolvidas, mas a uma em especial, o presidente da COP26. O ex-ministro dos Assuntos Económicos, até há pouco um perfeito desconhecido no palco global, foi uma escolha de recurso de Boris Johnson. Criticado por ter preparado a cimeira com uma grande pegada carbónica e por ter insistido numa cimeira presencial em tempo de pandemia, acabou por recolher elogios pela forma como conduziu os trabalhos, por exemplo do insuspeito governo francês.

John Kerry

O presidente brasileiro Jair Bolsonaro confundiu há dias o enviado especial para as alterações climáticas dos EUA com o ator Jim Carrey, mas Kerry não foi a Glasgow para protagonizar uma comédia. Se coube a Joe Biden anunciar a meta de redução das emissões de metano em 30% até 2030, a Kerry deve-se, do lado norte-americano, um acordo com a China para que ambos os países mostrem "mais ambição". E na tarde de sexta-feira o ex-secretário de Estado de Obama foi a voz da inquietação ao afirmar que as horas finais da cimeira "não eram para palavras" mas "para ações" - e ainda assim deixou palavras duras para os próprios norte-americanos e a sua política de subvenções: "Estamos a lutar por dinheiro [para os países vulneráveis], mas nos últimos cinco, seis anos, foram investidos 2,5 biliões de dólares em combustíveis fósseis. Esta é a definição de insanidade - estamos lá a alimentar o problema que aqui tentamos resolver."

Xie Zhenhua

Contam os meios de comunicação ocidentais que o experiente negociador chinês em matéria de clima se encontrava já reformado, mas que foi chamado de volta ao cargo no início do ano tendo em conta o seu relacionamento construtivo com John Kerry, em especial no Acordo de Paris de 2015. "Ambos consideramos que o desafio das alterações climáticas é existencial e grave", disse Xie ao anunciar o acordo, ainda que vago, com os EUA para o redobrar de esforços.

Mohammed Nasheed

O antigo presidente das Maldivas e atual líder do Fórum da Vulnerabilidade Climática, que agrupa 48 países, fez finca-pé para que as metas climáticas deixassem de ser atualizadas em quinquénios e passem a ser anuais.

Greta Thunberg

A jovem sueca não esperou pela segunda semana da COP para decretar o seu "fracasso". A líder do governo escocês Nicola Sturgeon disse no final de uma reunião com Thunberg que se sentiu "realmente desconfortável", mas que esse é o papel dos jovens ativistas.

Vanessa Nakate

A ativista ugandesa de 24 anos foi outra das vozes jovens que sobressaíram em Glasgow. O seu discurso foi um dos mais fortes. "Estamos a afogar-nos em promessas. Os compromissos não irão reduzir o CO2. Só uma ação imediata e drástica nos fará recuar do abismo", disse na quinta-feira, quando realçou que a indústria da energia fóssil tinha a maior delegação.

David Attenborough

No início dos trabalhos, o naturalista de 95 anos fez um apelo emotivo para que os delegados de todo o mundo trabalhassem em conjunto para "transformar esta tragédia em triunfo".

Painel Científico da Amazónia

A maior floresta tropical do mundo está em perigo. Se as taxas de desflorestação, degradação do solo e queimadas registadas nos últimos anos se mantiverem a Amazónia entrará num ponto de não retorno, e será transformada numa região quase deserta, alerta o Painel Científico da Amazónia, que engloba 200 especialistas.

Barack Obama

O ex-presidente dos Estados Unidos foi uma das estrelas de Glasgow. No discurso de segunda-feira, Barack Obama apelou para os jovens permanecerem "zangados" no que respeita à crise climática.

Leonardo Di Caprio

Um documentário sobre as alterações climáticas e baseado nos incêndios de Pedrógão Grande, produzido pelo ator norte-americano de 46 anos, foi exibido à margem da COP26. Di Caprio, que tem apoiado associações ambientalistas com generosas doações, não faltou à cimeira, na qual conseguiu assistir à sessão em que participou Joe Biden, ao contrário de muitos delegados.

Bill Gates

O fundador da Microsoft apelou para uma revolução industrial verde, ao mesmo tempo que mostrou algum pessimismo. Disse ter dúvidas de que se consiga limitar o aquecimento global em 1,5 º C. "A humanidade nunca fez algo tão difícil."

Vladimir Putin

O presidente dos Estados Unidos disse que foi um "grande erro" os líderes da Rússia e da China não terem viajado até à Escócia. Mas Vladimir Putin e Xi Jinping optaram pela ausência e não deram qualquer explicação, embora possa ser visto à luz das relações com o Ocidente.

Xi Jinping

O presidente chinês vive um momento de glória interna, com a aprovação de uma resolução histórica que o eleva a um estatuto ao nível de Mao Tsé-tung, pelo que se compreende a delegação no negociador Xie Zhenhua.

Jair Bolsonaro

O presidente do Brasil viajou para a Europa, mas ficou-se por Itália, onde participou no G20. No entanto, apesar da ausência do chefe de Estado, a delegação brasileira procurou ter um papel mais construtivo e o país foi um dos signatários do compromisso para pôr fim à desflorestação até 2030.

cesar.avo@dn.pt

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