Britânicos começam a pagar pelo duplo choque do Brexit e pandemia

Postos de combustível à míngua, supermercados com prateleiras vazias. O Reino Unido perdeu 200 mil europeus nos últimos meses e falta quem trabalhe na cadeia de abastecimento.

Os efeitos da pandemia na economia doméstica e à escala global, do Brexit e da subida de preços dos combustíveis, em especial do gás natural, contribuem para que os britânicos encarem prateleiras vazias nos supermercados, mas também a ausência pontual de produtos tão corriqueiros como cerveja em pubs, frango ou batidos em cadeias de fast food, postos de combustível fechados ou com filas de horas e contas de gás e de eletricidade crescentes. Para o porta-voz do Partido Trabalhista, Nick Thomas-Symonds, a explicação deve-se à "total incompetência" do governo conservador e da "gestão do Brexit".

Ao fim de cinco dias em que o Executivo repetiu que não havia falta de combustível e para as pessoas não entrarem em pânico, mais de metade dos postos de abastecimento ficaram sem nada para vender e nos restantes há longas filas. Sinal de crescente pressão, o governo liderado por Boris Johnson ouviu apelos para se dar prioridade nas bombas de gasolina a determinados trabalhadores essenciais, como profissionais de saúde, forças de segurança ou professores. O ministro dos Transportes, Grant Shapps, disse ver "sinais de estabilização", mas as associações profissionais de médicos e enfermeiros apelaram a "uma ação urgente".

100.000 A associação dos operadores rodoviários estima que existam 100 mil motoristas a menos no Reino Unido.

"Não podemos estar duas ou três horas em filas de espera por gasolina ou gasóleo quando temos doentes para ver", disse o vice-presidente do órgão dos médicos David Wrigley à Times Radio. Ao Daily Mail, a paramédica Jennifer Ward contou que teve de passar por cinco postos em Norfolk, no leste de Inglaterra, antes de conseguir atestar a ambulância. "Fazemos um trabalho stressante e não precisamos de qualquer ansiedade adicional."

Por sua vez, o maior sindicato de trabalhadores do setor público, o Unison, apelou ao governo para desencadear poderes de emergência, sendo que algumas autoridades locais se anteciparam ao Executivo e começaram a dar prioridade ao pessoal essencial.

"Com a situação a estabilizar e as coisas a melhorar nas previsões, o melhor é estabilizá-la da forma normal", respondeu Boris Johnson na terça-feira à tarde. A única medida do Executivo foi dar instruções ao Exército para ter 150 motoristas de prevenção caso seja necessário recorrer a esta força para aliviar a crise de abastecimento de combustível. O que levou a esta situação? Para o ministro Shapps, além do pânico dos consumidores, a crise deve-se ao facto de a pandemia ter atrasado a formação e exames de milhares de novos motoristas de veículos pesados.

Essa é uma resposta parcial. Por ser uma profissão pouco atrativa para os naturais das Ilhas Britânicas, mal paga e com duras condições de trabalho para os padrões de vida locais, milhares de europeus preenchiam o vazio (assim como nas explorações avícolas). Mas durante a pandemia, e com o Brexit a entrar em vigor, 200 mil europeus abandonaram o Reino Unido, ao que se juntou a tendência de os motoristas autóctones terem entrado na reforma ou mudado de profissão.

Engolindo a retórica de "retomar o controlo" com o Brexit, o que implicou acabar com a liberdade de movimento e de trabalho dos cidadãos da União Europeia, o Departamento de Transportes anunciou que iria conceder 5000 vistos de três meses para condutores de camiões-cisterna e de transporte de alimentos e 5500 vistos para trabalhadores avícolas, com o objetivo de reduzir as dificuldades da indústria alimentar e da cadeia de abastecimento. No entanto, a Associação Britânica de Retalho diz que, no mínimo, são necessários mais 15 mil motoristas para abastecer os supermercados.

Dormir ao volante

A base de apoio de Boris Johnson mostrou-se desagradada, com artigos de opinião em jornais conservadores a relembrar as crises energéticas na década de 70 e os tabloides, por norma apoiantes dos tories, a criticarem o governo. Por exemplo, um editorial do The Sun acusou o Executivo de estar "a dormir ao volante". E para breve há mais notícias desanimadoras para os britânicos. Termina no final deste mês o apoio do governo, que compensou até 80% dos salários perdidos devido à pandemia. Mais de cinco milhões de pessoas vão deixar de receber 100 libras (115 euros) por mês decorrente de cortes no programa Crédito Universal. E antes de os preços domésticos de gás e eletricidade subirem, no início de 2022, o limite máximo das contas , que protege cerca de 15 milhões de britânicos, será aumentado em 12%. Como diz o economista Karl Handscomb ao The New York Times, "as famílias vão sentir-se completamente espremidas".

Noutro ponto de tensão resultante do Brexit, os líderes de quatro partidos unionistas assinaram uma declaração conjunta contra o protocolo da Irlanda do Norte, o documento assinado entre Londres e Bruxelas e que prevê uma fronteira no mar da Irlanda. Na prática, para não voltar a estabelecer uma fronteira física entre a República da Irlanda e a província britânica, foram criados pontos de controlo nos portos norte-irlandeses. Para os líderes pró-britânicos, o protocolo deve ser substituído "por acordos que respeitem plenamente a posição da Irlanda do Norte como parte constituinte e integrante do Reino Unido". Para a União Europeia, o protocolo não é negociável.

cesar.avo@dn.pt

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