Brasil. Morador de favela, politólogo e coach são candidatos à presidência

Há vida além de Lula e Bolsonaro, os primeiros das sondagens, e de Ciro e Tebet, que ainda sonham com o Planalto, nas eleições presidenciais de outubro. Uma dúzia de concorrentes, veteranos e novatos, já se apresentaram.

Depois de nove horas a resgatar 32 turistas colhidos por uma violenta tempestade enquanto escalavam, sem equipamento de proteção, o Pico dos Marins, a 2500 metros de altitude, o capitão dos bombeiros Paulo Reis desabafou extenuado: "Foi a ação mais irresponsável de sempre aqui, evitámos uma tragédia". O responsável pela expedição, nos primeiros dias de 2022, foi o autoproclamado "mentor digital" Pablo Marçal, cujos cursos prometem uma vida de prosperidade. Quatro meses depois de liderar a escalada, Marçal foi lançado como candidato à presidência da República do Brasil pelo PROS. Além dele, há mais sete candidatos ainda meio desconhecidos da maioria dos eleitores brasileiros que dia 2 de outubro vão a votos.

Porque há vida eleitoral no Brasil além de Lula da Silva (PT), o presidente de 2003 a 2010 que lidera destacado em todas as sondagens, e do atual chefe do Estado, Jair Bolsonaro (PL), segundo mais citado nas intenções de voto. E além de Ciro Gomes (PDT), firme no terceiro lugar, e de Simone Tebet (MDB), a candidata de centro que ainda sonha desestabilizar o duopólio eleitoral entre o centro-esquerda, de Lula, e a extrema-direita, de Bolsonaro.

Marçal, 35 anos, natural de Goiânia, que a meio da subida ao Pico dos Marins orou a Deus para "desviar o vento" e após o resgate disse que "quem não quer correr riscos fica em casa vendo stories", tem 1% dos votos, segundo a sondagem Genial/Quaest divulgada quarta-feira, dia 8, ancorado na eleitoralmente rentável capa de "não político". "Sou empreendedor desde os nove anos, quando guardava carros na rua", afirmou ao Correio Braziliense o candidato para quem "a economia é uma teoria imaginativa".

Mais terra a terra é Léo Péricles, técnico de eletrónica de 40 anos, do estreante UP. Líder de movimentos contra a realização do Mundial de Futebol de 2014 no Brasil, ficou em quarto lugar na corrida em 2020 à vice-prefeitura de Belo Horizonte, onde mora, numa ocupação urbana organizada pelo Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas. "Vamos fazer história para o país deixar de ser dos milionários e ser do povo", declarou no congresso que o nomeou candidato.

Crítico, sobretudo, do governo "de fome e miséria" de Bolsonaro, o candidato também é cético em relação às alianças de Lula com "os ricos". "É perpetuar problemas históricos, eu, por ser morador de periferia e negro, sinto na pele essas políticas", disse ao UOL. Apesar de não chegar sequer a 1%, Péricles acredita na ida à segunda volta. "Viradas históricas podem e devem acontecer".

Ainda pela esquerda, Vera Lúcia, do PSTU, defende "estatizar as 100 maiores empresas do país" mas também "o acesso às armas". "Bolsonaro defende armas para proteção da grande propriedade, nós defendemos armas para a proteção do povo", afirma a socióloga.

Sofia Manzano, economista do PCB, acha que "armar a população é a mais equivocada maneira de se enfrentar a violência pública" e defende "uma reforma agrária urgente".

O candidato do Novo, partido comparável ao português Iniciativa Liberal, jamais concorreu a cargos públicos. Mas Luiz Felipe D"Ávila, politólogo, não é propriamente um outsider: é neto e trineto de políticos e irmão de Frederico D"Ávila, deputado estadual bolsonarista que propôs uma homenagem ao ditador chileno Augusto Pinochet.

O Ávila candidato presidencial, no entanto, é crítico de Bolsonaro - e de Lula. "Lula tentou corromper a política brasileira pelo dinheiro, Bolsonaro tenta corromper com arroubos totalitários, os dois são ameaças à democracia", afirmou ao Correio Braziliense.

José Maria Eymael, 82 anos, é dono de um dos mais identificáveis jingles da campanha brasileira - "ey, ey, Eymael, um democrata-cristão" - por se manter inalterado desde a primeira de seis candidaturas presidenciais, em 1998. Apesar de nesse ano ter obtido 0,25% dos votos e desde então ter vindo sempre a cair - foi 12.º em 2018, com 0,04% dos votos, isto é, 40 mil num universo de mais de 100 milhões - Eymael vê "sinais, fortes sinais" de que a disputa na segunda volta será entre ele e Lula. "Quem é que pode derrotar o Lula? Só a democracia cristã", disse ao UOL.

Os outros dois candidatos são deputados federais. André Janones, 38 anos, do Avante, vem surpreendendo nas sondagens (2% na última) graças ao hábil manejo das redes sociais - uma live sua na pandemia teve 3,3 milhões de visualizações. O sucesso relativo aumentou, entretanto, o escrutínio sobre ele e gerou a primeira gafe - confundiu Emmanuel Macron, presidente francês, com Alberto Fernández, presidente argentino.

Eleito deputado em 2018, depois de liderar uma greve de camionistas, critica os dois principais concorrentes mas indicia estar mais próximo de Lula. "Eu jamais estaria ao lado do presidente Bolsonaro", disse na CNN Brasil.

Luciano Bivar, 77 anos, vale poucos votos - não chega a 1% - mas é dono de generosos fundo eleitoral e tempo de antena, na qualidade de líder do maior partido do país, o União Brasil, fusão entre PSL, ex-formação de Bolsonaro, e DEM. O ex-ministro bolsonarista Sergio Moro aderiu ao partido, convencido de que poderia ser candidato ao Planalto, mas Bivar, um empresário, quer empunhar a bandeira.

dnot@dn.pt

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