"Brasil é o país onde o futuro nunca chega"

Quatro imigrantes brasileiros falam da "desesperança" que se vive no seu país, que esperam que mude com as eleições. Testemunhos no dia em que se comemoram os 200 anos de independência do Brasil.

Uma cientista, um escritor, uma socióloga e um cozinheiro empreendedor. Brasileiros que vivem em Portugal, seja há décadas ou há anos. Imigraram por amor, para estudar, por causa de Jair Bolsonaro, o presidente que nenhum vê com bons olhos. Esperam uma mudança nas eleições de outubro. Atividades e experiências de vida diferentes, mas com pontos comuns na forma como avaliam o seu país. Falam numa nação com potencial mas que nunca o consegue concretizar, com um lindo futuro que nunca chega. Elegem os brasileiros e a cultura como o melhor do seu país; as desigualdades sociais são o pior.

"Sempre ouvi dizer: "O Brasil é um país de futuro", mas parece que ainda não estamos lá, que nunca o conseguimos", entristece-se Deborah Penque, investigadora do Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge (INSA). A frase é repetida pelos restantes três brasileiros com quem o DN falou a propósito dos 200 anos da independência do Brasil, que hoje se celebram.

"Parece que não reconheço o meu Brasil. Na área profissional, houve um grande avanço mas é um país atrasado nas condições de vida, talvez esteja ligado à insegurança, que se agravou muito. As pessoas vivem muito fechadas, não se anda à vontade como aqui. É uma razão porque muitos brasileiros têm vindo", explica a cientista.

Imigrou em 1979, vivia em São Paulo. Encontrou um Portugal muito atrasado em relação ao que estava habituada e essa situação inverteu-se. A televisão era a preto e branco, a emissão começava às 18:00 e acabava às 02:00 com o hino nacional. "Foi um choque. Vinha de um país onde existia a Globo, filmes até às tantas, a televisão não desligava e era a cores".

Tem muitos outros exemplos: os bancos não estavam informatizados, o comboio de Lisboa para o Porto só circulava por uma linha e, por carro, demorava horas pela estrada nacional. Visitava os monumentos, como o Palácio da Pena e o Convento de Mafra, e interrogava-se porque não havia outros turistas. A música que se ouvia era estrangeira, quando no seu país era a brasileira. "Portugal teve um desenvolvimento fantástico, não só a nível das ligações como em outras áreas. É um desenvolvimento tal que, quando volto ao Brasil, sinto que está preso, não desenvolve".

Deborah Penque tinha 21 anos quando chegou a Portugal, há 43, acompanhando o marido que emigrara para o Brasil. Estava no 2. º ano de Medicina e mudou para Biologia porque os médicos em início de carreira tinham de ir para a periferia (Serviço Médico à Periferia). Doutorou-se no Instituto Calouste Gulbenkian em genética molecular, especializou-se em genética humana. Fundou o laboratório de proteómica e a Associação Portuguesa de Proteómica.

A cientista tem dupla nacionalidade, mantém ligações ao Brasil, que visita de dois em dois anos, para estar com a família, que está toda lá, à exceção do marido, das filhas e dois netos. E está em contacto com a comunidade científica, aliás, estão a pensar criar uma rede de cientistas brasileiros e portugueses. Também a política está mal. "O Brasil ainda está na fase de amadurecimento, que foi o que senti em Portugal no início, as discussões políticas mais pareciam discussões de futebol. O Brasil está passando por isso, agora é que se começa a discutir, tenho pena é da forma".

"Retrocesso político e social"

Lira Neto, 58 anos, escritor e jornalista, com formação em comunicação e semiótica, 12 livros publicados, veio para Portugal depois de Jair Bolsonaro ganhar as eleições, em 2018. "Houve momentos ao longo da nossa história que se tentou recuperar e direcionar para um caminho rumo ao desenvolvimento, mas nos últimos anos demos muitos passos atrás, espero que em breve tenha um fim. Foi isso que me fez vir, vim quando se anunciava todo este retrocesso político, social e económico do país".

Veio com a mulher, também escritora e jornalista, profissões que ambos perceberam poder desenvolver em qualquer sítio. Escolheram o Porto, queriam uma cidade que não fosse uma grande metrópole. Moravam em São Paulo, que tem 13 milhões de habitantes. Imigraram com as filhas adolescentes.

"O Brasil é talvez o que há de melhor e de pior. É um país criativo, com uma cultura riquíssima, um povo maravilhoso, mas ao mesmo tempo tem grandes exclusões. É um país de grandes diferenças sociais, abissais. Consegue conjugar essa criatividade e formação do povo brasileiro com esse histórico de exclusão, o que faz com que o Brasil seja esse país contraditório por natureza e as raízes dessas desigualdades nunca foram devidamente combatidas", argumenta Lira Neto.

O mesmo sentimento tem Thais França, socióloga, professora e investigadora nas áreas das migrações e de género, há 17 anos em Portugal. "O Brasil está numa situação delicada desde a eleição de Jair Bolsonaro: em relação à democracia, aos direitos e, mesmo, à qualidade de vida, à economia. A população tem sofrido muito. Em vésperas de eleições, tem-se expectativa muito grande que se possa tirar este governo de forma democrática e começar a reconstruir o país depois destes quatro anos que foram um massacre".

Mas o Brasil é a "minha casa", sublinha e poderia ser bem diferente. "Tem um potencial de crescimento, tem tudo para se tornar um grande país e estou a falar na questão dos direitos e do ambiente. Tem condições para ter uma economia sustentável e que não seja baseada na exploração do ecossistema. O Brasil é uma possibilidade de um futuro bonito, mas é um país de enormes contradições".

Thais tem 41 anos e a dupla nacionalidade desde 2014. Veio para Portugal para fazer o doutoramento na Universidade de Coimbra, esteve em várias instituições académicas, atualmente trabalha no Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE, Instituto Universitário de Lisboa. Costuma ir pelo menos uma vez por ano ao Brasil.

Vítor Mortara, 35 anos, licenciado em letras, enveredou por uma carreira na restauração. Tem o mesmo sentimento, por outras palavras. "É o país do que pode ser, do potencial, do devir, não sei se existe apenas um Brasil. Há o sonho de milhões de pessoas e muitas das aceções são divergentes, mas acredito que muita gente sonha com um Brasil melhor, mais justo, mais igualitário, mais acolhedor".

Veio em 2016, concretizando o desejo da mulher, filha de português que gostava muito de Lisboa. "Morava em São Paulo, uma cidade muito boa mas também desgastante, os transportes, a condução, existe uma cultura de trabalho muito intensa. Viemos com a certeza que teríamos o Brasil se não desse certo, piorou muito. Viemos numa época em que havia esperança das coisas estarem melhorando, depois fomos perdendo todas essas garantias, virou desesperança, e ainda bem que viemos. A mudança de rumo foi um grande incentivo para ficarmos". Voltou duas vezes ao Brasil.


Vítor é cozinheiro, um empreendedor da restauração. É um dos sete membros do coletivo Valsa, na Graça, outro dos quais é a mulher. Cada um dos elementos tinha negócios, com a pandemia resolveram formar um espaço de convívio e cultural. Juntam os petiscos e a cerveja artesanal aos livros, discos, cursos, música e outros espetáculos.

O pior e o melhor

O povo e a cultura do Brasil são os principais destaques positivos. "O melhor é o brasileiro e é bom porque não precisa de estar no Brasil, está em todo o lugar, em Lisboa", acredita Vítor Mortara. São "milhares de talentos, de pessoas que se movimentam e que fazem coisas incríveis, seja na cultura, na comida - chefes de cozinha que usam produtos autóctones, com formas diferentes de pensar a produção e distribuição. Também acompanho a produção audiovisual que é excelente, a minha esposa é jornalista e trabalhava com cinema".

Lira Neto acrescenta: "A música brasileira é inexcedível, a mais bonita do mundo; a literatura, as artes de uma forma geral. E é justamente esse ponto forte que vem sendo vilipendiado, atacado nos últimos anos. Qualquer profissional que hoje trabalhe com a cultura, com a inteligência, como o conhecimento, sofre as consequências".

Vale-lhes a "resistência", caráter destacado por Thais França. "São quatro anos do governo de Bolsonaro, quatro anos que as pessoas estão na rua a lutar, os movimentos sociais são muito fortes". Acrescenta: "Essa forma de inventar, por exemplo, na política. Nestas eleições, temos o que se chamam de candidaturas coletivas, uma grande inovação. Juntam-se três/quatro pessoas que representam um coletivo, por exemplo, o de Matos Negros ou de mulheres trans, e fazem uma candidatura. Temos uma trajetória muito rica em processos de decisões políticas participativas. A criatividade cultural é genial, a forma como consegue congregar as diferentes tradições, por exemplo, a música afro, música indígena, como foi fundido, como é que a influência do jazz entrou no Brasil junto com o samba e a bossa nova".

Deborah Penque concorda e sublinha: "A forma de ser, de estar, do brasileiro é única. É muito alegre, muito família, aqui também mas é um pouco diferente, o brasileiro é mais aberto, não tem tantos complexos. Vim numa época em que as coisas do Brasil eram boas, as músicas eram melhores, os artistas eram empreendedores. Aqui, as pessoas queriam um emprego estável, o que mudou. O brasileiro tinha que se virar, era criativo, foi essa criatividade que eu trouxe."

Mas como o Brasil é país de contraste, também é em algumas pessoas que está o pior. Para Vítor Mortara é a elite brasileira. "Não superou coisas do século passado, não consegue abrir mão do privilégio, o que vem desde as colónias. Famílias que continuam com grande concentração de renda, de terra, que não veem que o mundo mudou muito. É uma mentalidade um pouco tacanha de não aceitar direitos para as outras pessoas".

Explica a socióloga. "Tem o histórico de uma ditadura, também é extremamente conservador. Não parecia, mas a eleição de Bolsonaro descortinou tudo isso: o racismo, a transfobia, o país das hierarquias. Existe um racismo estrutural no Brasil que se vai juntar com a pobreza e promove a discriminações, exclusões, marginalizações, muitas desigualdades. A pobreza, a raça e género estão interligadas".

É o que destaca Lira Neto: "A desigualdade social, a insensibilidade das nossas elites em relação a essa desigualdade histórica".

Déborah Penque gostava de ver um país com maior sentido de cidadania. "Não tem a responsabilidade de cidadania. E precisamos uma sociedade mais justa. No Brasil há pessoas que ganham muito bem, os políticos, e os outros que ganham muito mal. O país ainda não se desenvolveu e isso tem a ver com a política, que tem a ver com a mentalidade das pessoas, que tem de mudar".

Relações com Portugal

A diplomacia é uma coisa; a prática e a forma como os brasileiros são vistos em Portugal é outra, embora nenhum dos quatro imigrantes se tenha sentido discriminado. Mas salientam que pertencem a um extrato social diferenciado. "Existe ainda visão de hierarquia de Portugal em relação ao Brasil, o que se manifesta na forma como a comunidade brasileira é recebida, cada vez aparecem mais casos de discriminação, de racismo, as dificuldades que têm, por exemplo para alugar uma casa", diz Thais França.

Lira Neto começa a compreender melhor o convívio entre as duas comunidades. "Depois de quatro anos, percebo que a relação entre os dois países é forte, são países irmãos, não tenho dúvidas. Parece-me que de uma certa forma os portugueses amam o Brasil, a cultura brasileira, mas existem focos isolados especialmente para as pessoas que chegam em circunstâncias não tão privilegiadas, sem uma qualificação profissional ou económica minimamente estáveis. Essas pessoas são vulneráveis a todo o tipo de preconceito, xenofobia. Mas é uma relação que tende a evoluir com o tempo. Há cada vez mais brasileiros a viver em Portugal, de todas as circunstâncias, é uma relação de aprendizagem mútua". E entende que Portugal deveria olhar com mais atenção para a realidade brasileira, até para não repetir os mesmos erros.

Vítor Mortara concorda que Portugal precisa de entender melhor o Brasil, "principalmente com a chegada de muitos imigrantes brasileiros que contribuem para a sociedade portuguesa". Sublinha: "Portugal precisa de entender o que foi o processo de colonização, o tráfico de escravos, o que tem reflexos muito grandes na sociedade brasileira, ter um olhar mais empático, essa troca é muito importante. A minha relação com Portugal vem muito antes de morar aqui, pela história, literatura. Os portugueses têm acesso a muita coisa do Brasil, música, cinema, mas são produções mais culturais, mais industriais, há uma parte mais profunda que ainda não é olhada.

Déborah Penque concentra-se na sua experiência enquanto cientista. "Tem havido relações, por exemplo, a nível da Fundação da Ciência & Tecnologia, com projetos de investigação bilateral. Há muitos brasileiros nas universidades portuguesas e portugueses que vão para o Brasil, a mesma língua facilita imenso. Há uma boa relação, poderia haver mais e pode ser que com as comemorações dos 200 anos da independência se fortaleçam".
ceuneves@dn.pt

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