Biden Ano 1. Com a popularidade em baixa, de olho nas eleições e com a Rússia na mira

Numa rara e longa - 1 hora e 52 - conferência de imprensa na Casa Branca, o presidente dos EUA admitiu não ter antecipado a ferocidade da oposição republicana à sua agenda e prometeu manter Kamala como vice em 2024.

Há um ano Joe Biden descia a escadaria do Capitólio para tomar posse como 46.º presidente dos EUA. E diante de uma plateia de máscara e a respeitar o distanciamento social imposto pela covid-19 jurava acabar com a "guerra incivil entre vermelhos e azuis, entre rurais e urbanos, entre conservadores e liberais". Mas passados 12 meses, o presidente democrata bem pode ter perguntado, numa rara conferência de imprensa na Casa Branca - que durou uns ainda mais raros 112 minutos - "Conseguem pensar noutro presidente que tenha feito mais num ano?" A verdade é que Biden entra no seu segundo ano de mandato com a popularidade em queda, ameaçado de perder a maioria em ambas as Câmaras do Congresso e com a perspetiva de uma guerra que envolva a Rússia na Ucrânia cada vez mais perto de se tornar realidade.

Acusado muitas vezes de fugir ao contacto com a imprensa, Biden não se esquivou desta vez a responder às perguntas dos jornalistas durante quase duas horas. Questionado sobre a sua baixa popularidade - segundo a Gallup o presidente só consegue 40% de aprovação, um número ao nível do de Donald Trump, o antecessor republicano, na mesma altura do mandato - Biden afirmou: "Não acredito em sondagens".

Apesar de sublinhar que já fez muito desde que chegou à Casa Branca - e é um facto que 63% dos americanos estão totalmente vacinados contra a covid, o desemprego caiu para abaixo dos 4% e o governo conseguiu aprovar um pacote de estímulo económico e um projeto de investimento em infra-estruturas essenciais. Mas o presidente reconheceu que nem tudo foi fácil. E que, por exemplo, não antecipou a ferocidade da oposição republicana à agenda da sua Administração. No combate à covid, admitiu que deviam ter "agido mais depressa". E quanto à inflação, lutar contra ela vai ser "duro e exigir muito trabalho". Com a subida dos preços a fazer-se sentir "na bomba de gasolina, nas lojas e em todo o lado", Biden teme que os próximos tempos vão ser "duros para muita gente".

Depois de quatro anos em que Trump retirou a América de vários tratados e organizações internacional, com Biden voltou a aposta no multilateralismo. Mas se muitos apostavam na China para se manter como o grande inimigo da América, a verdade é que as maiores tensões nos últimos tempos têm sido com a Rússia. Depois de recordar um dos episódios mais traumáticos deste primeiro ano de mandato em termos de política externa - a retirada norte-americana no Afeganistão que abriu a porta ao regresso dos talibãs ao poder - e de ter recusado pedir desculpas uma vez que "não havia uma maneira fácil de sair após 20 anos", Biden centrou a sua intervenção sobre na crise na Ucrânia. Com os EUA a liderarem os esforços ocidentais para encontrar uma solução diplomática para a escalada militar da Rússia junto à fronteira ucraniana. O presidente americano voltou a mostrar-se disponível para um encontro cara-a-cara com o homólogo russo, Vladimir Putin. E deixou o aviso: qualquer ataque russo à Ucrânia seria "um desastre".

Depois de Biden ter parecido dizer que um ataque em pequena escala por parte da Rússia levaria a uma resposta moderada do Ocidente, a Casa Branca veio esclarecer que o que o presidente queria dizer era que qualquer invasão da Ucrânia levaria a uma resposta "severa", enquanto uma agressão não militar - por exemplo ataques de paramilitares - levaria a uma resposta "recíproca".

Intercalares de risco

Com o discurso do Estado da União marcado para 1 de março, Biden deverá concentrar-se nos próximos meses em evitar uma derrota do seu Partido Democrata nas eleições intercalares de 8 de novembro. Com um terço do Senado e a totalidade da Câmara dos Representantes a votos, os republicanos parecem estar em boas condições de recuperar a maioria em ambas as câmaras do Congresso. Na Câmara dos Representantes, os democratas têm apenas nove lugares de vantagem em relação aos republicanos, enquanto no Senado a margem é ainda mais curta: na câmara alta a maioria democrata está dependente do voto da vice-presidente Kamala Harris - que em caso de empate é decisiva. Ora o partido do presidente tende a ser castigado nas intercalares. E uma maioria republicana mesmo que só numa das câmaras resultaria em dois anos de bloqueio político da Administração, ameaças de impeachment do presidente e comissões de inquérito agressivas.

E claro que depois das intercalares, as presidenciais estão "logo aí". Trump, que continua a rejeitar os resultados de 2020, promete voltar a candidatar-se em 2024. Biden quanto a ele - que estará perto dos 82 anos quando se disputarem as próximas presidenciais - garantiu na quarta-feira que pretende manter Kamala Harris como sua vice.

Mais apagada do que muitos imaginavam há um ano quando apostavam que Biden não tentaria um segundo mandato, deixando o lugar para a vice avançar, Kamala, a primeira mulher, primeira negra e primeira asiática no cargo, tem uma taxa de aprovação pouco acima da de Biden - 44% segundo a última sondagem da CBS.

Para já, Biden deixou um desejo imediato: poder sair mais da Casa Branca nos próximos tempos: "Quero contactar com as pessoas para que possam avaliar a minha sinceridade."

helena.r.tecedeiro@dn.pt

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