Armas, sanções e palavras. Borrell defende "mais do mesmo" contra Putin

Na resposta aos referendos "inválidos" e à anexação de território ucraniano por parte da Rússia, alto comissário defende que é preciso "insistir e manter com paciência e perseverança estratégica" o que a União Europeia tem feito até agora.

O chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, defendeu este sábado que a resposta da União Europeia aos "referendos inválidos" e à anexação de quatro regiões ucranianas por parte da Rússia deve ser "mais do mesmo" que tem sido feito até aqui. "Há que insistir e manter com paciêcia e perseverança estratégica o que temos vindo a fazer desde o início", disse, sendo que isso passa por enviar mais armas à Ucrânia, manter e aumentar as sanções económicas à Rússia e manter a batalha das palavras e ideias.

Borrell, que falava aos jornalistas à margem do Fórum La Toja - Vínculo Atlãntico, que terminou hoje na ilha galega de A Toxa, lembrou que "não podemos inventar a roda todos os dias".

Em relação à necessidade de continuar a enviar armas para a Ucrânia, o alto representante da União Europeia para a Política Externa e a Política de Segurança lembrou que sem a ajuda militar a Ucrânia não teria podido defender-se como até agora. "É vital", referiu, reiterando que os equipamentos militares mostraram eficácia.

"Não temos querido fornecer armamento como aviões de caça, porque queremos mantermo-nos não beligerantes", explicou, dizendo que "sem beligerância há que continuar a fornecer armas à Ucrânia".

Da mesma forma é preciso "manter e aumentar as sanções económicas à Rússia", rejeitando a ideia de que estas não são eficazes. "É como uma dieta de emagrecimento", comentou, dando como exemplo o facto de 95% das fábricas russas de automóveis estarem paradas por falta de peças, ou que 70% dos aviões civis também não possam voar pelo mesmo motivo.

"As sanções estão a minar a eficácia produtiva da economia russa e vão ter efeitos muito importantes a médio prazo", afirmou.

Finalmente o terceiro foco é na "batalha de ideias" e "palavras", dizendo que esse é o campo de batalha dos diplomáticos. "É uma luta que também é importante. Convencer o mundo de quais são as causas e porque sofrem as consequências desta guerra", referiu.

Questionado sobre as ameaças do presidente russo, Vladimir Putin, de recorrer ao nuclear, Borrell é direto: "Da ameaça nuclear prefiro não falar, porque quanto mais fale, mais estarei a fazer o jogo de Putin."

Sobre o anúncio da anexação, Borrell lembrou que a União Europeia considera "inválidos" os referendos que a Rússia fez. "Ninguém poderia considerá-los válidos. Referendos celebrados da noite para o dia, no meio de um país em guerra, sem nenhum tipo de garantias, sem censos, nem debates, referente a regiões de um país sobre as quais não tem sequer controlo militar", explicou.

"Uma guerra que Putin já perdeu"

Na sua intervenção na sessão de encerramento do fórum, Borrell defendeu que esta "é uma guerra que Putin já perdeu, mas que a Ucrânia ainda não ganhou". E que é preciso que a Europa "desperte".

O chefe da diplomacia europeia lembrou que a Europa se construiu como um objeto de paz, mas quis esquecer o conceito de poder, substituindo-o pelo do comércio e do direito. "A UE substituiu o poder pela relação pacífica que o comércio constrói o direito sustenta. E hoje damo-nos conta que a interdependência, sozinha, não garante a paz".

"Para as relações comerciais fazem falta dois, mas para fazer a guerra basta um. E este 'um' está disposto a fazê-la, fez e vai continuar a fazê-la", afirmou.

Borrell defende que é altura de pensar uma nova relação com a ideia de poder, já não baseado apenas no "soft power", no poder suave, sendo preciso também elementos de poder coercivo. "Dispor de instrumentos militares não é um capricho, é necessário e imprescindível para a sobrevivência", indicou, falando da necessidade de mais poder defensivo para a União Europeia.

O também vice-presidente da Comissão Europeia lembrou que os países europeus, em separado, gastam quatro vezes mais em defesa do que a Rússia e tanto quanto gasta a China. Contudo, somados não somos um só, porque existem muitas duplicações nas nossas capacidades e outras que não temos. Defende por isso que "o rearmamento não pode ser feito de forma descoordenada", mas tem que ser feito de forma comunitária.

Borrell lembrou que Putin achava que a guerra seria rápida e não esperava em sete meses estar a recuar, ao mesmo tempo que decretava a mobilização e ameaçava com a arma nuclear. E Putin também não esperava a reação europeia. "Estava demasiado confiante de que a nossa dependência energética nos iria impedir de atuar. E que não iríamos superar as nossas divisões", indicou. "Mas a guerra não nos impediu de fazer frente à Rússia, serviu para romper essa dependência", explicou.

Explicando que Putin construiu o seu império graças ao petróleo e ao gás, Borrell lembrou contudo que ao contrário da China - que tem as armas da economia e da tecnologia de ponta contra o Ocidente, a Rússia é um "anão económico". A economia russa, disse, é hoje do tamanho da italiana, mas em questões de PIB per capita é três vezes menor. E resumiu: "A Rússia é uma grande gasolineira onde o proprietário tem a bomba nuclear".

Borrell defendeu que "esta guerra tem de acabar bem para se poder construir a paz". Mas deixou as condições: a Ucrânia "recuperar a sua integridade territorial, e a Rússia "pagar pelos efeitos da destruição e reconhecer, em termos políticos, a sua culpa moral"

A jornalista viajou a convite da organização do fórum.

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