O acordo climático "imperfeito" que recuou no fim do carvão

O Pacto Climático de Glasgow foi assinado este sábado. Documento mantém a ambição do Acordo de Paris. Gueterres considera que "ainda não chega" para evitar "catástrofe", ministro do Ambiente fala de "expectativas razoavelmente cumpridas" e Greta resumiu a cimeira com um blá, blá, blá...

A Cimeira do clima das Nações Unidas (COP26) adotou formalmente este sábado a declaração final da COP26, com uma alteração de última hora proposta pela Índia, que suaviza o apelo ao fim do uso de carvão. Alok Sharma admitiu que o acordo é "imperfeito", mas considera que mostra "consenso e apoio" sobre "algo significativo para as pessoas e o planeta". Segundo o britânico "é vital que protejamos este pacote" de decisões

O Pacto Climático de Glasgow tem dez páginas e foi assinado por todos os 197 países das Nações Unidas que participaram, apesar das fortes reservas e deceções expressas por muitos quanto à versão final. A minutos da aprovação do documento, a palavra phase-out (eliminação progressiva) foi substituída por phase-down (redução progressiva) a pedido da Índia e com acordo da China.

A situação levou mesmo o presidente da conferência climática COP26, Alok Sharma, a pedir desculpa de forma emocionada pela forma como as negociações de última hora decorreram. "Peço desculpa pela forma como este processo foi desenvolvido. Peço imensa desculpa. Também percebo a profunda desilusão. Mas também é crucial que protejamos este acordo", afirmou, na sessão final, parando por momentos a intervenção para se recompor e bater o martelo que dava a cimeira como encerrada, 26 horas depois do previsto.

Várias delegações, como a Suíça, e a União Europeia manifestaram o desagrado pelas alterações. O vice-presidente da Comissão Europeia, Frans Timmermans, interveio para dizer que "o carvão não tem futuro", frisando que "a União Europeia queria ir ainda mais longe em relação ao carvão, consequência da sua própria experiência dolorosa". Expressando "desilusão" com a proposta indiana e salientando que continuar a apostar no carvão como fonte de energia não é economicamente viável.

Já a ministra do Ambiente suíça, Simonetta Sommaruga, salientou que o texto adotado sai "ainda mais enfraquecido" e que "não é preciso reduzir, mas acabar" com o uso de carvão e justificou o acordo por não querer sair de Glasgow sem uma decisão.

Guterres: "A catástrofe climática continua a bater à porta"

Para o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, o acordo assinado em Glasgow ainda não chega". E alertou que "a catástrofe climática continua a bater à porta", apesar da aprovação de uma declaração final na cimeira do clima (COP26), que considerou cheia de contradições. Em comunicado, António Guterres considerou que a 26.ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas "deu passos em frente que são bem vindos", mas ressalvou que se trata de "um compromisso" cheio de "contradições".

O ministro do Ambiente e Ação Climática, João Pedro Matos Fernandes, considerou, que as expectativas da cimeira do clima em Glasgow (COP26) foram "razoavelmente cumpridas" e que, ainda que se pudesse ter ido mais longe, há um acordo. "Foram razoavelmente cumpridas as expectativas da COP, que era anunciada como a COP mais importante depois de Paris. Estamos a falar de um exercício multilateral, e, ainda que haja algumas partes deste acordo em que manifestamente devíamos ter ido mais longe, eu começo por dizer uma coisa: há acordo, coisa que não tivemos em Madrid, não tivemos em Katovice [as duas anteriores reuniões da ONU]", disse o ministro.

Já a ativista sueca Greta Thunberg lamentou as conclusões alcançadas na cimeira da Nações Unidas sobre o clima (COP26), resumindo-as a "blá, blá, blá". "O verdadeiro trabalho continua fora dessas salas. E nunca, jamais, desistiremos", disse a fundadora do movimento greve climática estudantil, numa mensagem divulgada no Twitter.

Documento histórico mantém ambição do Acordo de Paris

Ainda assim o documento é histórico, embora menos ambicioso, e prevê apoio aos países em desenvolvimento a adaptarem-se aos novos desafios climáticos. E mantém a ambição do Acordo de Paris de manter o aumento da temperatura a 1,5ºC (graus celsius).

O documento reafirma o objetivo de limitar o aumento da temperatura a 1,5ºC (graus celsius), decidido há seis anos no Acordo de Paris, e diz ser necessário reduzir as emissões de dióxido de carbono em 45% até 2030, em relação a 2010. O texto reconhece ainda que limitar o aquecimento global a 1,5ºC exige "reduções rápidas, profundas e sustentadas das emissões globais de gases com efeito de estufa, incluindo a redução das emissões globais de dióxido de carbono em 45% até 2030 em relação ao nível de 2010 e para zero por volta de meados do século, bem como reduções profundas de outros gases com efeito de estufa".

Os presentes em Glasgow desafiaram ainda os países desenvolvidos a "pelo menos duplicarem" o financiamento climático para a adaptação às alterações climáticas dos países mais pobres.

A 26.ª conferência do clima das Nações Unidas (COP26) decorre seis anos após o Acordo de Paris, que estabeleceu como meta limitar o aumento da temperatura média global do planeta entre 1,5 e 2 graus celsius acima dos valores da época pré-industrial. Apesar dos compromissos assumidos, as concentrações de gases com efeito de estufa atingiram níveis recorde em 2020, mesmo com a desaceleração económica provocada pela pandemia de covid-19, segundo a ONU, que estima que ao atual ritmo de emissões, as temperaturas serão no final do século superiores em 2,7 ºC.

Ambientalistas lamenta adenda e esperam prolongamento em 2022

As organizações ZERO, Oikos e a Fundação Fé e Cooperação (FEC) consideraram "lamentável" a emenda proposta pela Índia de considerar a redução do uso de carvão, ao contrário da sua eliminação e consideraram que a emenda "mostra a enorme dependência de muitos países deste combustível fóssil em particular, que é um elemento fundamental da descarbonização global".

As três organizações, que estiveram presentes na 26.ª Cimeira do Clima, consideram que "a confirmação da ausência na cimeira do presidente Chinês, Xi Jinping, e a falta de novos compromissos significativos da parte da China na redução das emissões, nomeadamente já a partir de 2025, como a ciência indica ser imprescindível, foi uma desilusão".

"A Índia apresentou um conjunto de metas, as quais, sem serem particularmente ambiciosas, tal como a da neutralidade climática apenas em 2070 ou a da incorporação de mais energias renováveis até 2030, representaram um sinal importante em termos de comprometimento futuro daquele que é o terceiro maior país em termos de emissões no mundo".

Também o acordo alcançado de redução até 2030 das emissões de metano, o segundo gás mais importante em termos de emissões e responsável por cerca de 30% do aquecimento global, foi "um passo muito significativo, pois este gás é uma peça chave para reduzir as emissões até 2030".

As organizações acreditam que a COP26 vai "a prolongamento" na Cimeira do Clima no Egito, em 2022.

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