Presidente ucraniano e antecessor em conflito aberto

Petro Poroshenko é acusado de alta traição por ter ajudado grupos pró-russos. O ex-presidente diz-se vítima de vingança e um "presente" para Putin.

César Avó
Poroshenko fala aos apoiantes à chegada a Kiev.© EPA/SERGEY DOLZHENKO

A ameaça de uma invasão russa à Ucrânia deixou de ser, por horas, o tema mais candente, com o regresso ao país do anterior presidente Petro Poroshenko. Suspeito de alta traição, o deputado foi ouvido por um tribunal que horas depois determinou uma caução de cerca de 30 milhões de euros e o uso de pulseira eletrónica.

No exato dia em que o oposicionista russo Alexei Navalny cumpre um ano de prisão após ter regressado a Moscovo, Poroshenko voltou a Kiev um mês depois de ter viajado para a Europa - segundo alega em afazeres políticos e diplomáticos enquanto deputado - numa altura em que já sabia que a justiça o ia intimar.

Um dos homens mais ricos do país, Poroshenko é acusado de ter facilitado a aquisição de carvão a empresas mineiras nas duas regiões mais a leste do país, Lugansk e Donetsk, em 2014 e 2015, quando estas estavam já tomadas por grupos pró-russos. Segundo os investigadores, o dinheiro financiou os referidos grupos, consideradas organizações terroristas ao abrigo da legislação ucraniana. A investigação implica ainda o deputado Viktor Medvedchuk, em prisão domiciliária, cuja filha mais velha tem como padrinho Vladimir Putin.

Ao chegar a Kiev, Poroshenko fez um discurso a apelar para a unidade nacional, rejeitou as acusações e devolveu-as ao presidente Volodymyr Zelensky e seus aliados. "Vamos provar que eles estão a cometer traição ao Estado no momento em que a Ucrânia precisar de unidade para resistir em força às ações de Putin", disse.

Numa entrevista ao Politico, Poroshenko disse que as acusações resultam de uma tentativa de Zelensky - cuja chama de popularidade se extinguiu chegado a meio do mandato - em pô-lo fora de circulação, mas também uma vingança do oligarca Ihor Kolomoisky, um apoiante do presidente que viu o seu banco ser nacionalizado por irregularidades durante a presidência de Poroshenko. O "rei do chocolate", como também é conhecido por ter feito fortuna no negócio da doçaria, menorizou a rivalidade com Zelensky, o antigo comediante que lhe venceu as eleições de 2019 com 73%: "Ele é só o meu adversário. Putin é o meu inimigo, um inimigo do meu país, e agora compreendo que é inimigo da Europa, inimigo do mundo livre."

A chegada a Kiev do ex-presidente coincidiu com a visita da ministra dos Negócios Estrangeiros da Alemanha. Annalena Baerbock prometeu que Berlim "tudo fará para garantir a segurança da Ucrânia", o que passa por reintegrar as discussões com Moscovo e Kiev, ao lado de Paris, o chamado formato da Normandia. Segundo o The New York Times, a Ucrânia tem proposto um encontro entre Zelensky e Putin. "Talvez com este presente [Zelensky] tenha querido iniciar negociações com Putin como condição prévia", especulou Poroshenko.