Nove países ex-comunistas apoiam adesão da Ucrânia à NATO

Na ressaca do anúncio de anexação de Putin, presidentes da antiga Cortina de Ferro pedem mais apoio militar a Kiev. Papa rogou ao líder russo para deter "espiral de violência".

César Avó
Soldado ucraniano sentado num blindado de desenho soviético em Kramatorsk, na região de Donetsk.© Juan BARRETO / AFP

Os presidentes de nove países da Europa central e de leste demonstraram o seu apoio à Ucrânia, ao defenderem a sua adesão à Aliança Atlântica, ao instarem os restantes aliados a "aumentar substancialmente a ajuda militar" ao país invadido e ao rejeitarem a tentativa russa de anexar território. No terreno, aos avanços do Exército ucraniano no leste juntou-se outro, na região de Kherson. Enquanto isso, o Papa Francisco rogou a Vladimir Putin para parar a guerra e a Volodymyr Zelensky para estar recetivo a uma proposta de paz.

Os chefes de Estado de nove países pertencentes à NATO - Eslováquia, Estónia, Letónia, Lituânia, Macedónia do Norte, Montenegro, Polónia, República Checa e Roménia - declararam que não podiam "ficar calados perante a flagrante violação do Direito Internacional pela Federação Russa", tendo por isso assinado um texto em que começaram por reiterar o apoio à soberania e integridade territorial ucraniana e apoiaram a pretensão manifestada na sexta-feira pelo presidente ucraniano de o seu país aceder à aliança que, neste momento, tem 30 estados-membros. "Não reconhecemos e nunca reconheceremos as tentativas russas de anexar qualquer território ucraniano. Apoiamos firmemente a decisão da Cimeira da NATO em Bucareste, em 2008, relativa à futura adesão da Ucrânia."

Naquela cimeira, os membros da NATO saudaram as aspirações da Ucrânia e da Geórgia, mas não ofereceram um calendário claro para a adesão dos dois países. Na sexta-feira, o secretário-geral da organização, Jens Stoltenberg, preferiu sublinhar a importância do continuado apoio à Ucrânia do que comentar a iniciativa de Zelensky em pedir uma adesão urgente do seu país à NATO. Os chefes da diplomacia dos Estados Unidos e do Canadá expressaram apoio à pretensão de Kiev, mas pelas vias normais, tal como a Suécia e Finlândia (aguardam a ratificação pelos parlamentos da Hungria e da Turquia).

O curto texto termina com um apelo para que a ajuda militar a Kiev progrida e lembra que os responsáveis pelos "crimes de agressão" devem ser levados à justiça. Esta demonstração de força diplomática não atingiu o objetivo na totalidade, uma vez que os chefes de Estado da Albânia, Bulgária, Croácia, Eslovénia e Hungria não se juntaram ao grupo de países da antiga cortina de ferro.

Em relação à ajuda militar, um dia depois de a ministra da Defesa da Alemanha ter estado em Odessa e prometido a entrega para breve do mais avançado sistema de defesa antiaérea, IRIS-T, Berlim, Copenhaga e Oslo anunciaram a aquisição conjunta de obuses produzidos na Eslováquia, no valor de 92 milhões de euros. As peças de artilharia móveis Zuzana-2, cujos projéteis têm um alcance de 40 quilómetros, vão começar a ser entregues em 2023.

A Alemanha tem apoiado a Ucrânia, mas o chanceler social-democrata Olaf Scholz recusa-se a enviar o que é mais pedido por Kiev, os tanques Leopard 2 e os blindados Marder. Um tema que divide a coligação governamental: verdes e liberais são favoráveis a um maior apoio. E nas fileiras militares alemãs há também quem se mostre cético ao sucesso ucraniano. Em entrevista à Focus, o inspetor-geral das Forças Armadas Eberhard Zorn recusou subscrever a ideia de que há uma contraofensiva com êxito no nordeste da Ucrânia.

O pontífice vê no anúncio de Putin o aumento do "risco de uma escalada nuclear" de "consequências catastróficas a nível mundial".

Volodymyr Zelensky anunciou que Lyman, vila de Donetsk que é um importante eixo ferroviário, foi "libertada" das tropas de Moscovo. A recaptura de Lyman, arrasada durante semanas pelas tropas russas antes de tomarem o seu controlo, marca a primeira significativa vitória militar ucraniana num território que o Kremlin reivindicou como seu e assegurou vir a defender por todos os meios.

No terreno, porém, a ofensiva continua e é de esperar um avanço que pode levar as tropas de Kiev a passar Kreminna e nos próximos dias regressar até às cidades vizinhas de Lysychansk e Severodonetsk, em Lugansk. O mais surpreendente, porém, foi o avanço registado a sul, numa linha de vários quilómetros ao longo do rio Dniepre, e que tem Beryslav como objetivo. O exército russo tem dado prioridade ao reforço de posições em Kherson e Zaporíjia, segundo o norte-americano Instituto de Estudos da Guerra.

O Papa Francisco criticou o anúncio de anexação de territórios por parte da Rússia.© Laurent EMMANUEL / AFP

Enquanto o Tribunal Constitucional russo aprovou, sem surpresas, a anexação das quatro regiões, ficando agora a formalidade burocrática a cargo dos deputados, elevando o confronto para um nível sem precedentes, o Papa Francisco suplicou ao presidente russo Vladimir Putin para acabar com a "espiral de violência" na Ucrânia, ao mesmo tempo que criticou as anexações de territórios. Na praça de São Pedro, o pontífice dirigiu-se diretamente ao presidente russo e viu nas anexações o aumento do "risco de uma escalada nuclear" de "consequências incontroláveis e catastróficas a nível mundial". Ao presidente ucraniano, Francisco pediu para se mostrar "aberto a propostas de paz sérias".

cesar.avo@dn.pt