Nobel da Paz para bielorrusso Ales Bialiatski, russa Memorial e ucraniano Centro para as Liberdades Civis

Este ano houve 343 candidaturas, das quais 251 pessoas e 92 organizações. A cerimónia de entrega do prémio é a 10 de dezembro, dia de aniversário de Alfred Nobel, em Oslo.

Susana Salvador

O bielorrusso Ales Bialiatski, que está atualmente detido, a organização russa Memorial e o ucraniano Centro para as Liberdades Civis são os galardoados deste ano com o Nobel da Paz. Em plena guerra da Ucrânia, o Comité Nobel Norueguês quis chamar a atenção para a "importância da sociedade civil para a paz e a democracia", oferecendo um presente envenenado ao presidente russo, Vladimir Putin, que faz hoje 70 anos.

"Os laureados do Nobel da Paz representam a sociedade civil nos seus países. Há muitos anos que promovem o direito a criticar o poder e proteger os direitos fundamentais dos cidadãos. Fizeram um esforço excecional em documentar os crimes de guerra, abusos de direitos humanos e o abuso do poder. Juntos demonstraram a importância da sociedade civil para a paz e a democracia", indicou a presidente do comité, Berit Reiss-Andersen.

O Comité Nobel diz querer, com a entrega do prémio Bialiatski, à Memorial e ao Centro para as Liberdades Civis "honrar três campeões dos direitos humanos, da democracia e da coexistência pacífica nos países vizinhos da Bielorrússia, Rússia e Ucrânia". E considera que "por meio dos seus esforços consistentes a favor dos valores humanistas, do antimilitarismo e dos príncipios do Direito, os laureados deste ano revitalizaram e honraram a visão de Alfred Nobel de paz e fraternidade entre as nações", considerando que esta é "uma visão mais necessária no mundo de hoje".

Apesar de o Nobel ser conhecido no dia de anos de Putin, Reiss-Andersen nega que com a sua escolha o Comité se esteja a dirigir ao presidente russo, alegando que o prémio "não é contra alguém", mas distingue ações positivas. "A atenção que o presidente Putin atraiu para si mesmo, que é relevante neste contexto, está na repressão da sociedade civil e dos defensores dos direitos humanos", afirmou, dizendo que era isso que queriam chamar a atenção com o prémio.

Quem são os galardoados?

Andersen apelou às autoridades bielorrussas para que libertem Ales Bialiatski, um dos responsáveis pelo movimento de democracia que emergiu na Bielorrússia em meados da década de 1980 e fundador da organização Viasna (Primavera) em 1996, em resposta à alteração constitucional que deu poderes ditatoriais ao presidente Alexander Lukashenko.

Bialiatski foi detido entre 2011 e 2014 e está detido desde 2020, sem julgamento, após novas demonstrações contra o regime. "Apesar das tremendas dificuldades pessoais, Bialiatski não cedeu um centímetro na sua luta pelos direitos humanos e democracia na Bielorrússia", indicou o Comité Nobel.

O Nobel da Paz distingue ainda duas organizações, a russa Memorial e o ucraniano Centro para as Liberdades Civis. A Memorial foi fundada em 1987, ainda nos tempos da União Soviética, por um outro laureado com o Nobel, Andrei Sakharov, centrada na ideia de que "confrontar os crimes do passado é essencial para prevenir que novos ocorram".

Após a queda da União Soviética, a Memorial tornou-se na maior organização de defesa dos Direitos Humanos da Rússia e a mais fiável fonte de informação sobre presos políticos nos centros de detenção russos. "Como parte do assédio do governo à Memorial, a organização foi carimbada desde cedo como 'agente estrangeiro'", refere o Nobel, sendo que em dezembro do ano passado as autoridades russas decretaram o fecho do centro de documentação, mas os responsáveis recusam fechar.

Finalmente o Centro para as Liberdades Civis nasceu em Kiev em 2007, com o objetivo de "fazer avançar os direitos humanos e a democracia na Ucrânia", fazendo campanha, entre outros, para que o país se filiasse no Tribunal Penal Internacional.

"Depois da invasão da Rússia, em fevereiro de 2022, o Centro para as Liberdades Civis desenvolveu esforços para identificar e documentar os crimes de guerra russos contra a população civil ucraniana", lembra o Comité Nobel. "Em colaboração com parceiros internacionais, o centro está a desempenhar um papel pioneiro com vista a tornar os culpados responsáveis pelos seus crimes", acrescenta.

Este ano havia 343 candidatos (251 dos quais são pessoas e 92 organizações). Um número superior aos 329 candidatos do ano passado e o segundo mais elevado de sempre, sendo o recorde ainda o de 2019, com 376 candidatos.

O ano passado o Nobel da Paz foi entregue à jornalista filipina Maria Ressa e ao russo Dmitry Muratov, pela defesa da liberdade de expressão.