Moscovo não sabe o que anexou e Kiev faz avanços

Kremlin quer fazer consultas com os habitantes locais para definir fronteiras das regiões anexadas de Kherson e Zaporíjia.

Susana Salvador
Um lançador múltiplo de rockets BM-21 Grad dispara contra alvos russos na região de Donetsk.© ANATOLII STEPANOV / AFP

A Rússia anunciou a anexação de quatro regiões ucranianas na sexta-feira (numa ação condenada e não reconhecida pela comunidade internacional), mas a cada dia que passa tem perdido mais controlo nessas áreas face ao avanços dos ucranianos e, na realidade, não sabe bem o que anexou. "Vamos continuar a consultar as pessoas que vivem nessas áreas", disse o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, referindo-se especificamente às regiões de Kherson e Zaporíjia. Mas não deu pormenores.

As regiões de Donetsk e Lugansk, cuja autoproclamada independência foi reconhecida pelo presidente russo, Vladimir Putin, dias antes da invasão, foram anexadas na sua totalidade. Mas o Kremlin já tinha dito na semana passada que as fronteiras de Kherson e Zaporíjia precisavam de ser "esclarecidas". Segundo o norte-americano Instituto para o Estudo da Guerra, Moscovo só controla 88% do primeiro e 72% do segundo. Ontem, as forças ucranianas terão avançado "dezenas de quilómetros" ao longo da margem ocidental do rio Dnipro, recapturando várias localidades na região de Kherson.

Apesar desta incerteza, o Parlamento russo votou por unanimidade a aprovação da legislação que anexou os quatro territórios. "Não estamos a responder a ameaças imaginárias, estamos a defender as nossas fronteiras, a nossa pátria-mãe e o nosso povo", disse o chefe da diplomacia russo, Sergei Lavrov, aos deputados. Alegou ainda que "os EUA subjugaram quase todo o Ocidente, mobilizando-o para transformar Kiev num instrumento de guerra contra a Rússia".

Kadyrov envia filhos

Enquanto continuam os problemas na mobilização militar na Rússia - um responsável pelo recrutamento em Khabarovk foi suspenso após chamar, por engano, milhares de pessoas que não cumpriam os requisitos - o líder checheno disse que vai enviar os filhos adolescentes para a frente.

Ramzan Kadyrov, aliado de Putin, explicou que "é tempo de eles darem provas numa luta real", dizendo saudar o desejo que terá sido expresso por Akhmat (16 anos), Eli (15) e Adam (14), que revelou terem sido treinados para combater desde crianças. Partilhando no Telegram um vídeo dos três a disparar rockets e metralhadoras, afirmou: "Em breve eles vão para a linha da frente e estarão nas secções mais difíceis da linha de contacto."

Tanque Tomás

Uma campanha de crowdfunding (financiamento coletivo) angariou 33 milhões de coroas checas (cerca de 1,4 milhões de euros) para comprar um tanque T-72 Avenger modernizado para entregar à Ucrânia. No total, 11 288 pessoas doaram dinheiro para comprar o tanque "Tomás" através da campanha "uma prenda para Putin", apoiada pelo Ministério da Defesa Checo e pela embaixada da Ucrânia em Praga.

"A República Checa tornou-se no primeiro país onde cidadãos comuns compraram um tanque para as tropas ucranianas", escreveu no Twitter o n.º 2 da diplomacia ucraniana, Yevhen Perebyinis. Em curso está já uma segunda campanha, que visa angariar dinheiro para comprar "munições para o Tomás e os seus amigos".

susana.f.salvador@dn.pt