Macron "surpreendido com métodos" de Boris Johnson

A tensão aumenta entre Reino Unido e França por causa da crise dos migrantes no Canal de Mancha. O governo francês cancelou o convite à ministra do Interior britânica, Priti Patel, para uma reunião e até Macron criticou publicamente o primeiro-ministro britânico

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O presidente francês manifestou-se esta sexta-feira surpreendido com a atitude do primeiro-ministro britânico nos esforços para resolver a crise migrantes no canal da Mancha. Em causa, o facto de Boris Johnson ter partilhado no Twitter o conteúdo de uma carta que escrevera a Macron.

"Fico surpreendido com os métodos quando estes não são sérios. Um líder não comunica com outro líder sobre estes temas no Twitter, por carta pública", afirmou esta sexta-feira Emmanuel Macron.

França ficou furiosa com a publicação de Boris Johnson no Twitter, na qual sugeria que a França deveria receber de volta os migrantes que chegaram ao Reino Unido, no seguimento da morte de 27 pessoas na travessia do Canal da Mancha esta semana.

Antes desta censura pública a Boris Johnson, na quinta-feira França já havia tomado medidas e cancelado o convite feito à ministra do Interior britânica, Priti Patel, para uma reunião agendada para domingo sobre migrantes ilegais com vários países europeus.

Já esta sexta-feira, o governo do Reino Unido pediu à França para reverter a decisão de cancelar o convite.

"Nenhuma nação pode resolver isto sozinha. Espero que os franceses reconsiderem [a decisão]", afirmou o ministro dos Transportes, Grant Shapps, à BBC.

"É do nosso interesse. É do interesse deles. É certamente do interesse das pessoas que estão a ser traficadas para o Reino Unido, resultando nestas cenas trágicas que estamos a assistir - pessoas a perder as suas vidas", acrescentou.

"Amigos e vizinhos devem trabalhar juntos, não há outra maneira de resolver o problema", insistiu Grant Shapps.

A carta

Na carta ao presidente francês, Emmanuel Macron, Boris Johnson expôs em cinco pontos um plano para combater as travessias de migrantes ilegais, nomeadamente patrulhas conjuntas para evitar que mais barcos saiam das praias francesas, o uso de tecnologia como sensores e radares, patrulhas marítimas recíprocas nas águas territoriais de cada país, vigilância aérea e partilha de informações.

"Um acordo com França para receber de volta os migrantes que atravessam o Canal da Mancha (...) teria um impacto imediato e significativo", defendeu Johnson no documento, aquele que expôs no Twitter.

"Propomos que coloquemos em prática um acordo bilateral de readmissão para permitir o retorno de todos os migrantes ilegais que atravessam o Canal da Macha", salientou Boris Johnson, referindo-se a um acordo semelhante aos que existem entre a União Europeia (UE) e a Bielorrússia ou Rússia.

Para o primeiro-ministro britânico, esta medida "teria um efeito imediato e reduziria consideravelmente, ou interromperia mesmo, as travessias [ilegais]".

Numa mensagem a Priti Patel à qual a agência France-Presse teve acesso, o ministro do Interior francês, Gerald Darmanin, considerou que, se a carta do primeiro-ministro britânico é uma "desilusão", o facto de ter sido tornada pública é "pior" ainda.

Como resultado, cancelou o convite a Patel para a reunião em Calais, no norte de França, com os ministros belgas, alemães e holandeses responsáveis pela Imigração, bem como com a Comissão Europeia.