Gaguez e automutilação. O passado sombrio do jovem que matou 21 pessoas no Texas

Salvador Ramos foi vítima de bullying em criança e chegou a cortar o próprio rosto "só por diversão". Agora, foi a vez de protagonizar um massacre dentro de uma sala de aula de uma escola primária.

DN/AFP

Identificado como Salvador Ramos, o jovem de apenas 18 anos que matou a tiro 19 crianças e dois professores numa escola primária em Uvalde, uma pequena cidade com uma grande comunidade latina no estado norte-americano do Texas, tinha um passado profundamente problemático.

Vítima de bullying devido um problema de fala que incluía gaguez e ceceio - fenómeno linguístico da língua espanhola em que os fonemas representados pelas grafias "c", "z" e "s" se tornam equivalentes -, chegou a cortar o próprio rosto "só por diversão", contou um ex-amigo de Ramos, Santos Valdez, ao Washington Post.

Mais recentemente, dias depois de comemorar o 18º aniversário já este mês, o jovem comprou legalmente duas espingardas e 375 cartuchos de munição, revelou a CNN, que citou o senador estadual do Texas John Whitmore.

Esta terça-feira, antes de entrar na Robb Elementary School com um colete à prova de bala e uma espingarda por volta do meio-dia (hora local), disparou sobre a própria avó, de acordo com as autoridades texanas.

© EPA/AARON M. SPRECHER

Apesar de tiros disparados na sua direção por parte da polícia da escola, Ramos conseguiu entrar numa sala de aula e trancá-la para se proteger, tendo depois disparado sobre as crianças e os dois professores, disse Chris Olivarez, do Departamento de Segurança Pública do Texas. Todas as mortes aconteceram numa sala de aula, onde a polícia acabou por conseguir entrar e abater Ramos. "Apenas mostra o mal completo deste atirador", disse Olivarez à CNN.

Além dos 21 mortos, também mais de uma dezena de crianças ficaram feridas no ataque à escola, frequentada por mais de 500 alunos entre os sete e os dez anos, a maioria deles economicamente desfavorecidos.

A comunidade latina no Texas ficou devastada pelo incidente. "Esta cidade está com o coração partido, devastada", disse Adolfo Hernandez, cujo sobrinho estava na escola primária em que decorreu o tiroteio, em Uvalde, uma pequena cidade a cerca de uma hora da fronteira mexicana. "Sentimos que há uma nuvem negra sobre esta cidade", afirmou à AFP. "Só nos queremos beliscar e acordar daquele pesadelo horrível", acrescentou.

Esta quarta-feira, a zona em torno da escola continuava bloqueada, notando-se pouco trânsito.

Uma das vítimas, a professora Eva Mireles, foi baleada enquanto tentava proteger os alunos, disse a sua tia, Lydia Martinez Delgado, ao New York Times. Uma prima dela, Amber Ybarra, apelidou-a de heroína. "A sua comida era incrível. O seu riso era contagiante e a sua ausência será sentida", afirmou ao programa Today, da NBC.

O tiroteio em Uvalde foi o mais mortal desde que 20 crianças e seis funcionários foram mortos em 2012 em Sandy Hook, no estado do Connecticut.

"Não acontece noutro lugar"

O senador Chris Murphy, um democrata de Connecticut, onde ocorreu o tiroteio em Sandy Hook, fez um apelo apaixonado por ações concretas para evitar mais violência. "Não é inevitável, estas crianças não tiveram azar. Isto só acontece neste país, em mais nenhum outro lugar", disse Murphy no plenário do Senado em Washington.

O ataque mortal no Texas é apenas mais um tiroteio em massa nos Estados Unidos, sendo que já este mês, no dia 14, um autoproclamado supremacista branco de 18 anos matou 10 pessoas em uma loja em Buffalo, Nova Iorque.

Apesar dos recorrentes tiroteios, as várias iniciativas para reformar as leis de armas falharam no Congresso dos EUA.