Debate barulhento na Globo comparado a briga de boteco 

Lula, com 50% na última sondagem, e Bolsonaro, com 36%, trocaram acusações pessoais e geraram memes em encontro tão vazio de ideias que fez de um padre com 0% um protagonista.

João Almeida Moreira, São Paulo
Debate acabou por não ter clima para se discutirem propostas dos candidatos.

E o grande vencedor do debate foi... o telespectador que se foi deitar mais cedo", sentenciou Josias de Souza, colunista do portal UOL, a propósito do encontro entre os sete candidatos dos maiores partidos, na madrugada de sexta-feira, na TV Globo. Sem clima para se discutirem propostas, Lula da Silva (PT), com 50% na sondagem Datafolha revelada horas antes do debate, e Jair Bolsonaro (PL), com 36%, não venceram o rival por knock out mas o antigo presidente terá batido o atual por pontos.

"Lula, apesar de bater boca com um candidato anão, venceu Bolsonaro por pontos no debate", opinou Igor Gielow, do jornal Folha de S. Paulo.

O "candidato anão" era o padre Kelmon (PTB), surpresa nos últimos dias da campanha ao surgir no lugar de Roberto Jefferson, cuja candidatura foi retirada por razões penais. Com 0% nas sondagens e apoiante declarado de Bolsonaro, o padre interferiu nas regras, foi mandado "para o inferno" por Soraya Thronicke (União Brasil) e tirou Lula do sério.

"Engrossei mas não perdi as estribeiras", justificou-se Lula, no final. "Era preciso alguém dizer alguma coisa a esse cidadão. Esse desconhecido aparece e faz o papel de candidato laranja [testa de ferro] de forma vergonhosa".

A entourage de Bolsonaro, por sua vez, festejou o nervosismo de Lula. "[Lula] foi humilhado e rebateu com o fígado. Foi o grande derrotado da noite", escreveu nas redes sociais o ministro Luiz Eduardo Ramos.

Pesquisas qualitativas feitas pela campanha do PT, entretanto, mostraram que Bolsonaro se saiu mal entre eleitores indecisos, soou agressivo e falou para a própria bolha.

Bolsonaro e Lula, com ataques pessoais logo a abrir o debate, geraram uma chuva de direitos de resposta para desespero de William Bonner, o moderador da Globo. "O debate final foi uma briga de boteco de quinta categoria. Estava previsto que Bonner mediaria um debate presidencial mas comandou uma briga de boteco de quinta categoria, com a diferença de que nas mesas de um bar convencional, os bêbados pagam do próprio bolso a bebida que entorta a língua", prosseguiu Josias de Souza.

Para o colunista Alberto Bombig, a candidata Simone Tebet (MDB), com 5% nas sondagens, a um ponto de Ciro Gomes (PDT), "ficou acima da média". "Para Lula, desde o início, foi um desafio de contenção de danos, porque ele sabia que seria o mais atacado. No caso de Bolsonaro, foi o melhor desempenho dele até por ter tido o candidato padre Kelmon como linha auxiliar para desestabilizar Lula".

José Roberto de Toledo, outro colunista do UOL, também achou "Tebet a melhor". "Lula teve bom desempenho mas depois bateu boca com o laranja [testa de ferro] Kelmon, o que nunca é bom". "Já Ciro demorou muito a engrenar e Bolsonaro falou só para convertidos".