Boris Johnson recua. "Não haverá uma amnistia geral"

A questão esteve no centro das comemorações do cinquentenário do Domingo Sangrento (Bloody Sunday), quando 13 manifestantes católicos foram mortos por soldados britânicos, em 30 de janeiro de 1972.

DN/Lusa
O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson© EPA/ANDY RAIN

O Governo britânico desistiu do plano de fechar todos os processos judiciais relacionados com o conflito da Irlanda do Norte, oferecendo "imunidade" apenas àqueles que cooperarem, anunciou esta segunda-feira o primeiro-ministro, Boris Johnson.

Em julho passado, Londres apresentou um plano controverso, denunciado por ambos os lados como uma "amnistia", que se aplicaria tanto às Forças Armadas britânicas quanto aos paramilitares unionistas (protestantes) e republicanos (católicos) acusados de crimes registados antes do acordo de paz de 1998.

"Ouvimos muitas pessoas nos últimos meses e refletimos sobre o que ouvimos", explica Johnson num texto de opinião publicado hoje pelo jornal Belfast Telegraph, antes de uma visita à província numa tentativa de desbloquear o impasse político criado pelo 'Brexit' (processo de saída do Reino Unido da União Europeia).

"Lidar com o passado exigirá sempre decisões difíceis, mas não haverá uma amnistia geral", garantiu o governante, acrescentando: "A imunidade só será possível para aqueles que cooperarem e os processos poderão ser avançados contra aqueles que não cooperarem".

A proposta de lei deve ser apresentada esta semana ao parlamento.

O acordo de paz concluído em 1998, também conhecido como Acordo de Sexta-Feira Santa, pôs fim ao conflito entre unionistas, principalmente protestantes e partidários da manutenção da província sob a coroa britânica, e republicanos, principalmente católicos e militantes pela reunificação da ilha, que fez 3.500 mortos.

Quando anunciou o plano inicial, o ministro britânico da Irlanda do Norte, Brandon Lewis, reconheceu as dificuldades, mas argumentou que era "a melhor solução para ajudar a Irlanda do Norte a avançar no caminho da reconciliação".

A questão esteve no centro das comemorações do cinquentenário do Domingo Sangrento (Bloody Sunday), quando 13 manifestantes católicos foram mortos por soldados britânicos, em 30 de janeiro de 1972.

Após um diálogo com as famílias das vítimas, o primeiro-ministro irlandês, Michéal Martin, o primeiro líder da República da Irlanda a assistir à cerimónia anual, defendeu a continuação dos processos nos tribunais.

Em 2019, o Ministério Público da Irlanda do Norte formalizou as acusações contra o soldado F, assim designado para preservar o seu anonimato, por duas das mortes registadas durante o Domingo Sangrento.

Entretanto, em julho passado, as autoridades judiciais anunciaram o abandono das acusações, mas o Supremo Tribunal de Belfast anulou essa decisão.