Boris Johnson ordena investigação a alegada demissão de deputada por ser muçulmana

A decisão do primeiro-ministro britânico surge um dia depois de ter vindo a público que Nusrat Ghani deixou o Governo em 2020 por causa da sua religião.

DN/Lusa
O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson© Tolga Akmen / AFP

O primeiro-ministro britânico Boris Johnson ordenou esta segunda-feira uma investigação após uma deputada muçulmana do Partido Conservador alegar que foi demitida do Governo em parte por causa da sua religião.

A decisão acontece um dia depois de a ex-subssecretária de Estado dos Transportes, Nusrat Ghani, ter revelado que, quando saiu do Governo em 2020, lhe foi dito que o facto de ser muçulmana estava a "deixar os colegas desconfortáveis".

Numa entrevista publicada no domingo no jornal Sunday Times, contou também que "havia preocupações" de que não era leal ao partido, pois não teria feito "'o suficiente para defender o partido contra as alegações de islamofobia'".

O deputado Mark Spencer identificou-se como a pessoa que falou com Ghani em 2020, mas garantiu que a alegação é "completamente falsa".

O gabinete de Boris Johnson disse que o primeiro-ministro "leva estas alegações muito a sério", pelo que pediu a funcionários do Governo "para estabelecer os factos sobre o que aconteceu".

Ghani foi a primeira deputada muçulmana eleita pelo Partido Conservador, em 2015, tendo subido a subssecretária de Estado em 2018.

Na época, o então ministro de Transportes Chris Grayling considerou que a nomeação era a prova de que os conservadores eram "um partido de oportunidades", procurando rebater acusações de discriminação contra muçulmanos que assombram o Partido há vários anos.

Em 2018, Boris Johnson comparou, num artigo para um jornal, as mulheres que usam véus que cobrem o rosto a "caixas de correio".

Os ministros da Saúde, Sajid Javid, e da Educação, Nadhim Zahawi, manifestaram solidariedade com Ghani e defenderam que as suas alegações devem ser investigadas.

"É preciso muita coragem para alguém se levantar e dizer: 'A minha religião foi levada em consideração quando fui avaliado pelo que faço como trabalho'. Isso nunca deveria acontecer e não há espaço para isso", disse Zahawi.

A alegação de Ghani chega numa altura de instabilidade no partido do Governo, que foi abalado por revelações de festas em Downing Street, a residência do primeiro-ministro, que violaram as restrições para travar a pandemia covid-19.

O chamado "partygate" está a ser investigado por uma funcionária pública superior, Sue Gray, cujo relatório, esperado esta semana, poderá pôr em causa a sobrevivência do primeiro-ministro em funções.

A alegação de Ghani junta-se à denúncia de outro deputado Conservador, William Wragg, que disse ter recebido queixas de intimidação e chantagem a colegas para que apoiassem o governo, estando previsto que se encontre com a polícia esta semana para discutir a questão.

Boris Johnson tem estado sob pressão para se demitir por parte da oposição e de um grupo de deputados Conservadores. Se o relatório de Sue Gray for muito crítico, mais podem ser encorajados a pedir uma moção de censura que pode resultar na destituição de Johnson.