Agricultura sob fogo na linha da frente no leste da Ucrânia

Os campos agrícolas na Ucrânia estão sob o efeito devastador da guerra e os agricultores à beira do desespero.

Cercada por uma área enegrecida de terras agrícolas, num campo do Leste da Ucrânia, vê-se uma ceifeira avariada num campo no leste da Ucrânia. A máquina estava a atravessar um pasto nos arredores da vila de Maidan - cerca de 20 quilómetros da linha de frente com as forças russas - quando foi atingida por uma mina, segundo o agricultor Pavlo Kudimov.

Uma roda dianteira foi arrancada e o carretel giratório gigante foi empurrado para o lado, enquanto a cabine era devorada pelas chamas.

Na manhã seguinte, o condutor ainda permanecia no hospital depois de ter sofrido queimaduras graves. Os destroços no campo também ainda fumegam, a demonstrar os riscos de trabalhar a terra numa zona de guerra brutal. "A agricultura sempre foi difícil, mas agora é ainda mais difícil", disse Kudimov à AFP.

No início de agosto, o primeiro carregamento de grãos deixou a Ucrânia desde que a Rússia lançou sua invasão em larga escala e bloqueou os portos de Kiev no sul do Mar Negro.

A Ucrânia responde por 10% do mercado mundial de trigo e o barco partiu ao abrigo de um acordo intermediado pela Turquia e as Nações Unidas, ansiosos para amenizar uma crise global de preços de alimentos que atinge nações pobres. Dentro da Ucrânia, o embargo às exportações de grãos criou uma crise para os agricultores.

Sem acesso aos mercados internacionais, os silos estão cheios, os preços caíram e o impasse na cadeia de alimentos ainda não diminuiu.

Os agricultores em Donbas - a região oriental para onde a guerra com a Rússia mudou depois do Kremlin ter tentado conquistar Kiev - estão a enfrentar ameaças em duas frentes.

As regiões de Donetsk e Lugansk, Donbas são o coração industrial e agrícola da Ucrânia, mas todos os dias as sirenes de ataque aéreo soam nas duas cidades. Morteiros caem, jatos militares atacam alvos terrestres e bombas de fragmentação pontilham os campos. Infinitas pastagens de girassóis estão agora cheias de trincheiras defensivas.

No ano passado, o agricultor Sergey Lubarskyi recebeu até 8 hryvnia (0,22 cêntimos) por cada quilo de trigo. Desde o bloqueio, ele agora consegue apenas 3 hryvnia (cerca de dez)- se puder transportá-lo para o centro regional de Kramatorsk. Na vila de Rai-Aleksandrovka, na linha de frente, ele só pode obter 1,80 hyrvnia. "Os motoristas têm medo de vir aqui", diz.

Eduard Stukalo, de 46 anos, cultiva 150 hectares nos arredores da cidade de Sloviansk. Cerca de 30 hectares de trigo foram "completamente queimados". É uma luta para convencer os trabalhadores a recolher a colheita que fica perto da linha de frente. "Agricultores como nós vão falir este ano", diz ele. "Ninguém quer ir lá para colher, porque toda a gente tem medo dos mísseis que chegam." "Arriscámos as nossas vidas também quando semeamos os campos em abril e maio deste ano", acrescentou. "Bombas atingiram nossos campos, explodiram a 100 ou 200 metros de nós."

Mas alguns são levados pela austeridade da guerra a trabalhar a terra, apesar dos riscos. "Vamos trabalhar nos campos, porque não há outro emprego aqui", disse Svitlana Gaponova, de 57 anos, colhendo beringelas num campo de Soledar. "É assustador, mas é uma distração", disse enquanto o som de explosões de munição se fazia ouvir no horizonte.

Nesta parte empobrecida da Ucrânia, há também uma forte tradição de agricultura de subsistência. No mercado de domingo, os feirantes vendem os escassos produtos que podem cultivar nas suas parcelas.

"As pessoas plantam nos seus jardins e trabalham lá constantemente", disse Volodymyr Rybalkin, chefe da administração militar do distrito de Sviatohirsk, na linha de frente, falando da "relutância dos moradores em sair".

"Explicamos constantemente às pessoas o que está acontecer ao seu redor e tentamos motivá-las a evacuar para cidades mais seguras".

Nas primeiras horas da manhã de segunda-feira, um incêndio atingiu o espaço atrás da modesta casa de campo de Lyubov Kanisheva, de 57 anos, nos arredores de Kramatorsk. Ao lado, mais de uma dúzia de colmeias foram destruídas. Agora o zumbido das abelhas funde-se com a sirene de ataque aéreo.

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