Literatura: Campos Matos demonstra no seu novo livro que Ramalho Ortigão foi um "falso amigo" de Eça de Queiroz

Lisboa, 22 Mar (Lusa) - O investigador A. Campos Matos demonstra no seu livro, "Retrato da 'ramalhal figura'", que Ramalho Ortigão foi um "falso amigo" que levado pela "grande prosápia" esqueceu a "profunda amizade" que Eça de Queiroz lhe devotou.

"Evitei os juízos de valor, e apenas apresentei factos, tudo que se afirma está documentado, mas o Ramalho foi completamente um falso amigo", disse à Lusa Campos Matos.

A atitude do autor de "As farpas" é justificada pelo investigador, segundo o qual, Ramalho Ortigão, "tinha uma certa inveja e a consciência perfeita que como criador de prosa e escritor, Eça está muito acima dele, mas por isso é que também não se percebe, sendo ele autor de páginas de um português de lei, as intervenções que fez em textos do Eça".

Campos Matos refere-se às intervenções feitas no romance "O mistério da estrada de Sintra" em que "num disparate total Ramalho substituiu a palavra máscara do original pela francesa loup".

Sobre este romance, a obra agora editada pelos Livros Horizonte traz a lume uma carta que Ramalho Ortigão escreveu ao director e fundador do Diário Notícias, Eduardo Coelho, reivindicando para si a ideia e a maioria da autoria de "O mistério da estrada de Sintra".

"Nós tínhamos conhecimento de uma outra carta de Ramalho escrita no mesmo sentido a Alfredo da Cunha, sucessor de Eduardo Coelho, 15 anos mais tarde, mas esta é uma carta que tive acesso através de um bibliófilo", explicou Campos Matos.

A carta tem a data da primeira publicação de "O mistério da estrada de Sintra", Eduardo Coelho não lhe dera dado qualquer importância "pois já conhecia o Ramalho e como se tratou de uma carta privada não ligou".

Campos Matos reconhece a "escrita exemplar" de Ramalho e até uma "certa osmose perfeita com o Eça em algumas páginas d'As Farpas", mas considera que Ramalho agiu com "perfídia" relativamente ao amigo, não se tendo importado com os manuscritos que este deixou, e não apoiou a viúva e os filhos.

"Quando Eça morreu em Paris e a família estava cheia de dívidas, Ramalho quando soube continuou a passear-se de gôndola em Veneza e nada fez", referiu.

Para Campos Matos nem a viúva nem os filhos estavam completamente cientes relativamente à perfídia de Ramalho, "e se algum deles se apercebeu dela foi o filho mais velho".

Campos Matos refere que António Eça de Queiroz "terá tido contacto com a tal perfídia" quando recebeu um pacote do Rio de Janeiro com papéis do pai.

Após a morte de Ramalho todo o seu espólio foi enviado para o Rio de Janeiro onde se encontrava o seu herdeiro que devolveu à família do autor de "Os Maias" os seus papéis.

Entre esses papéis encontravam-se várias cartas de Fradique Mendes, "A tragédia da rua das flores" e "A capital", que tinha 80 páginas já impressas".

Ramalho negligenciou a revisão de provas desculpando-se com a "escrita hieróglifica" de Eça.

"Um mentira colossal - atesta Campos Matos -, a letra hieroglífica, o que de facto é nos manuscritos de criatividade, de primeiro jacto, mas nas cartas é muito regular e no caso d'A Capital, não tinha problema nenhum, podia ter perfeitamente publicado".

"Ele [Ramalho] queria era passear e estava-se nas tintas para o que o amigo tinha deixado", desabafou.

Segundo o ensaísta, a preocupação de Ramalho "era ficar para a história" e exercia grande influência em Eça, "talvez pelos tempos do Colégio da Lapa, onde Eça foi aluno e Ramalho professor".

"Vaidoso" e "pedante" são dois adjectivos que utiliza para se referir a Ramalho, tendo contado à Lusa a história em que este cgegou a "pedir uma comenda para a levar na lapela quando chegasse a Paris".

Ramalho corresponde, assinalou o investigador, a uma das muitas personagens que eram zurzidas pelo Eça, "ele é um personagem queirosiano", rematou,

NL.

Lusa/Fim

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