Tiago Pereira: "É impossível recuperarmos o nosso país se não recuperarmos as pessoas"

O coordenador do Gabinete de Crise Covid-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses, lembra que a pandemia resultou em graves prejuízos para a saúde mental dos portugueses. E deixa alguns alertas para o novo ano

Ano findado e contas feitas à saúde mental dos portugueses, há uma garantia: os desafios a enfrentar são hoje maiores do que há um ano. E Portugal já representava um peso significativo nas estatísticas internacionais: é o segundo país da Europa com maior prevalência de doenças psiquiátricas. Mas porque o ano anterior abandonou os calendários com a certeza de que a sua marca vingaria no seguinte, intensificou-se a dúvida: como enfrentar 2021? Tiago Pereira, psicólogo coordenador do Gabinete de Crise Covid-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses, lança um conselho às autoridades do país: a recuperação da economia começa quando começamos também a pensar no bem-estar dos cidadãos.

Assim que se fez meia-noite no dia 31 de dezembro e a rolha de champanhe bateu nas paredes, muitos suspiraram de alívio por se verem livres de um ano que tirou milhares de vidas em Portugal, confinou todos em casa, destruiu parte da economia que muitos lutavam por erguer há anos e roubou saúde mental a tantos também. "Não houve outro momento, particularmente desde que a ciência está constituída como está constituída, em que tantas pessoas durante tanto tempo estivessem em situação de isolamento físico. E nunca houve um tempo em que existisse tanta incerteza sobre o que é que seriam os passos seguintes." Até que 2020 chegou. "Sabíamos, essencialmente, que pessoas que já tinham vulnerabilidades prévias relativamente a esta situação iriam ter uma tendência para que essas vulnerabilidades pudessem ser acrescidas e, portanto, desenvolver uma perturbação", conta o também membro da direção da ordem.

Por isso, ainda antes do primeiro caso confirmado em Portugal, já se abria espaço para responder à crise esperada. A Ordem dos Psicólogos Portugueses começou imediatamente por avaliar os riscos do que aí poderia vir, com o avançar do vírus para diversos países. "Num contacto direto com a Direção-Geral de Saúde, fez-se um primeiro trabalho em torno de um conceito que é muito importante e é chave naquilo que são as questões das crises: a perceção do risco." Uma avaliação feita com base na experiência de situações de catástrofe e no exemplo do que se estava a passar noutros países.

Foi então que nasceu o Gabinete de Crise Covid-19, que já conta com nove meses de vida e "quase duas centenas de materiais produzidos". Entre os quais, lembra Tiago Pereira, o serviço de aconselhamento psicológico da linha SNS24 [808 24 24 24], criado numa parceria entre os serviços partilhados do Ministério da Saúde e da Fundação Calouste Gulbenkian.

Mas, alerta, o trabalho deve ir muito além da ala de ação dos psicólogos. "Se nós quisermos ser, de alguma forma, provedores do país, temos de ser provedores das pessoas", pois "é impossível nós recuperarmos o nosso país, recuperarmos a economia, recuperarmos o bem-estar, se não recuperarmos as pessoas". O investimento deve ser feito também na saúde mental dos cidadãos, fornecendo-lhes "os recursos para conseguirem lidar melhor com as suas situações" de vulnerabilidade.

Tiago Pereira reconhece que, "de facto, houve alguns passos que foram dados", como a linha de aconselhamento psicológico e um reforço de psicólogos nas escolas, "mas ainda há uma grande inacessibilidade a serviços de psicologia que tem de ser rapidamente ultrapassada". "Há dois psicólogos e meio por cada cem mil habitantes nos nossos centros de saúde. É impossível que aí haja uma resposta, quando estamos a falar destes números. E essa resposta tem de existir."

Memória e propósito: a chave

O ano que agora começa não se avizinha melhor do que o anterior. Ainda que arranque com a esperança dos efeitos da vacinação mais presente do que há uns meses, quando ainda nem se sabia ser possível adquirir uma vacina. Tiago Pereira recorda que "vai ser um ano ainda com muita incerteza e para o qual nós entramos já muito fatigados". E não há fórmula secreta sobre como levar este ano de forma mais leve e sem preocupações. Mas o membro da ordem dá exemplos de ações que podem garantir o nosso bem-estar.

"Talvez uma das primeiras coisas [a fazer] é nós não esquecermos que este ano existiu. Este pode ser um princípio importante". Para que saibamos que resistimos, frisa. A par com esta tese, o sentido de cuidado próprio deve ser alimentado, mais do que nunca. "Devemos, de facto, olhar para nós e para aquilo de que precisamos. E aqui, às vezes, são coisas muito simples: encontrar espaço para manter rotinas, para manter hábitos, [estar em] situações de que gostemos, manter um contacto - ainda que à distância - com as pessoas de quem nós gostamos, reencontrar pessoas que se calhar já não vemos há algum tempo e tentar recuperá-las usando os meios que agora maioritariamente usamos para contacto."

Cuidar mais de si é importante, mas esta missão também passa por não esquecer os outros e de fomentar a empatia pelo que se passa em redor. Segundo Tiago Pereira, devemos "também perceber como é que podemos contribuir para a outra pessoa estar melhor". O que resulta num "duplo efeito": "tem o efeito de nós, objetivamente, podermos ajudar a outra pessoa, mas tem também um efeito de uma criação de um propósito". "O propósito é absolutamente chave na vivência daquilo que estamos a passar. Se encontrarmos um significado para aquilo que estamos a fazer, será sempre mais simples deste ponto de vista", remata.

Este é o último trabalho da série de reportagens Por Quem Precisa, uma parceria entre a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, o DN, o JN e a TSF. Para ver outros trabalhos desta série, vá a www.dn.pt/especiais/por-quem-precisa.html

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