Um acidente afastou-o do mar. Mas Nuno voltou para conquistar medalhas dentro de água

Um amigo disparou uma arma, que não sabia estar carregada, e Nuno ficou tetraplégico, aos 18 anos. A recuperação não foi fácil, mas depois de dois anos de luto, Nuno decidiu que a sua vida "seria sempre a crescer".


"Éramos dois jovens muito inocentes, que estavam a ver uma arma e eu disse ao meu amigo: "queres dar um tiro, nunca deste, só para ouvires o barulho". Ele não sabia que a arma estava carregada e, quando apontou a arma, disparou e acertou-me no pescoço. E a única coisa que ele queria fazer era com que a arma desse um clique. São coisas que acontecem." É assim que Nuno Vitorino, hoje com 42 anos, conta como foi o acidente que sofreu com 18 anos e que o deixou tetraplégico.

A recuperação foi difícil, Nuno não o esconde, mas também faz questão de sublinhar o facto de nunca ter desistido. Recuperou movimentos dos braços, porque a sua lesão foi incompleta e porque nunca deixou de praticar desporto. Aliás, essa prática transformou-se em competição. Primeiro como nadador paralímpico e nos últimos anos como atleta de surf adaptado, estando neste momento a representar Portugal no primeiro campeonato da Europa da modalidade, que termina este fim de semana, em Viana do Castelo.

Um acidente que não foi um casamento para a vida

Hoje Nuno encara a vida a sorrir, mas explica que nem sempre foi assim. Logo no início, disse ao amigo que "o acidente não ia ser um casamento para o resto da vida". Os dois acabaram por perder o contacto, também porque Nuno precisava de se reabilitar. Até porque os momentos que se seguiram ao acidente são recordados como "de conflito", quando "as expectativas vão contra a realidade". "A minha expectativa era andar. Disse muitas vezes que ia tomar um comprimido e ia andar a seguir." Até que chegou um dia em que a médica lhe disse: "Esquece, não voltas a andar mais." E foi aí, com esse choque, que Nuno admite que voltou "a sorrir para a vida".

Só que nessa altura estava na hora de sair do Centro de Reabilitação de Alcoitão e Nuno confronta-se com outro choque com a realidade: o de chegar a casa e perceber que esta não estava adaptada, que a rua não estava adaptada. "Posso dizer que só havia uma escola de condução com carros adaptados e tinha fila de espera. Tinha de se marcar. Hoje a realidade já é diferente, mas em 1995 era assim."

Toda uma nova fase, que Nuno admite ter ultrapassado muito graças ao apoio dos pais. "Se calhar a minha família sofreu ainda mais, mas acho que as mães e os pais, no geral, vão buscar forças e choram as amarguras nas costas do filho ou da filha que tem uma patologia para não o fazer sofrer. Portanto, só senti força da minha mãe e do meu pai, de maneira a que a minha vida tivesse sido reconstruída de raiz."

Nuno regressou aos estudos - na época do acidente tinha apenas o 9.º ano - e tornou-se atleta. Depois de anos na natação, tinha começado o bodyboard aos 12 anos, numa altura em que o material custava muito dinheiro. Depois do acidente vendeu o material todo - "pensava que nunca mais ia voltar à água".

O regresso acontece como forma de reabilitação, "na tentativa ainda de voltar a andar".

Da reabilitação à alta competição

Foi quando Nuno voltou à piscina que um treinador lhe perguntou se não gostava de ser atleta paralímpico. O desafio foi aceite, embora Nuno diga a brincar que se arrepende até hoje da decisão. "A vida de atleta não é fácil, a nível de apoios." Mas como sentia paixão pelo desporto, Nuno decidiu arriscar. "Um atleta tem de ser atleta pela paixão. Por isso é que Portugal é tão vencedor nos paralímpicos e no desporto adaptado. Todos nós temos muita paixão pelo que fazemos", elogia.

A seu favor, Nuno tem "a fome de ganhar". E conta como vitórias as conquistas em cada treino. "Sair do treino e sair bem, sentir-me a progredir, com vontade de voltar." E essa vontade de treinar mais é a bússola de Nuno. Foi assim na natação. "Depois de oito anos de alta competição disse ao meu treinador, após ganhar uma medalha de bronze no campeonato da Europa na República Checa, que aquela ia ser a minha última medalha. Já não quero competir mais na vida." Uma decisão que o treinador respeitou e que o próprio achou que era definitiva.

Na mente tinha o sacrifício que era preciso para ser atleta: "Levantar às cinco da manhã para ir treinar, voltar à noite para o treino. Pensei, 'não, não quero mais'." Todos os dias Nuno treinava quatro quilómetros na piscina. Sentia-se esgotado, queria descansar e até "engordar".

Só que um dia esse desejo mudou. "Estava na praia de Carcavelos e comecei a sentir um grande incómodo na minha barriga ao ver os outros a surfar. E disse "pronto, não tenho maneira de deixar de competir". Liguei aos meus amigos e disse-lhes "não sei como, mas a gente vai ter de voltar à água". É que não havia nada disto no mundo e a resposta deles foi "Olha Nuno, vamos"." Estávamos em 2009 e Nuno começava uma carreira no surf adaptado: "Nunca mais parámos."

Nuno é atleta e fundou a Associação Portuguesa de Surf Adaptado, que ajuda pessoas com dificuldades de mobilidade por todo o país a entrar na água. "Não é a situação física que vai limitar as pessoas", defende.

A par com esta parte mais social, Nuno foi desafiado pela Federação Portuguesa de Surf a competir. Foi o primeiro atleta a representar Portugal no campeonato do mundo na Califórnia, há dois anos, onde ficou em último lugar. E o que Nuno pensou foi: "Nunca mais vou ficar em último." Um ano depois conseguiu o último lugar da final - foi o melhor atleta da Europa e o quarto melhor do mundo. Para este campeonato, em Viana do Castelo, Nuno sabe que não vai acabar em quarto lugar.

É este foco de vencer que leva também o presidente da Federação, João Jardim Aranha, a identificar Nuno como um dos impulsionadores da modalidade. "Graças ao Nuno fomos ao primeiro campeonato do mundo e desde então temos vindo a desenvolver a equipa e já temos seis atletas e quatro participam agora no primeiro campeonato da Europa", explica o responsável - o que não sendo um número muito significativo também não é considerado pequeno, dada a dimensão da modalidade.

Um dos principais desafios é sempre o financiamento, tendo a federação conseguido o apoio dos Jogos Santa Casa, no ano passado. "É um nome essencial, de relevo em Portugal, que não só nos apoia bastante no dia a dia, como por outro lado traz outros nomes atrás, porque dá credibilidade ter um patrocinador como a Santa Casa", sublinha.

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