A democracia dentro do telemóvel

Bernardo e Francisco, dois jovens empreendedores, juntaram-se para desenvolver uma aplicação que ajuda os estudantes a serem cidadãos mais participativos

Ensinar e incentivar os adolescentes a participar no jogo democrático. Como? Transformando literalmente o processo num jogo. É isso que propõe a Academia MyPolis, criada por Bernardo e Francisco, dois jovens empreendedores que se juntaram no programa de aceleração de startups da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (o PAES, Programa de Apoio a Empreendedores Sociais). Cada um tinha a sua ideia, mas depressa acharam que "havia sinergias a explorar", explica Bernardo Gonçalves, fundador da MyPolis - um interesse impulsionado também "pelo espírito colaborativo do PAES que foi propício" a isso, acrescenta Francisco Pires de Miranda, criador da Spot Games.

As duas empresas foram convidadas a ficar alojadas na Casa do Impacto, a incubadora de startups que a Santa Casa inaugurou recentemente, e os dois vão levar o projeto, que se destina a ajudar os alunos a serem mais participativos como cidadãos, à Web Summit, que vai decorrer de 4 a 8 de novembro, em Lisboa.

Bernardo queria criar uma plataforma em que políticos e cidadãos pudessem comunicar diretamente. Enquanto isso, Francisco já tinha lançado em algumas escolas um projeto que incentiva à cidadania através dos jogos - a "gamificação" da aprendizagem. Os dois estão agora prontos para lançar o que resultou da combinação dessas duas ideias, símbolo de uma colaboração que a Santa Casa incentiva na sua casa de startups. "Acreditamos que as sinergias com os parceiros e entre as startups vão potenciar e muito as soluções e projetos inovadores que possam sair daqui", sublinha Inês Sequeira, diretora da Casa do Impacto.

Desafiar os jovens a serem cidadãos

O desafio inicial foi lançado por Francisco a Bernardo. O engenheiro de 32 anos queria a ajuda do consultor na área digital, de 25, para integrar e promover a cidadania ativa dos jovens na sua aplicação. "Se queremos formar os jovens para que tenham índices de participação cívica mais elevados e para participarem mais ativamente nas suas comunidades, acreditamos que o espaço ideal para o fazer é a sala de aula", defende Bernardo Gonçalves. A Academia MyPolis pretende, através dos jogos, "tornar a cidadania algo divertido" e daí aumentar o interesse dos jovens pela política e o debate público. Tudo para que "possam ser alunos 4.0", definem.

O projeto tem por base as diretrizes da Direção-Geral da Educação e quer mostrar como se organizam os organismos democráticos. "Os jovens têm ideias, absorvem conteúdos sobre temas, são expostos a conteúdos de maneira atrativa. São votadas ideias e depois postas em prática, como numa democracia", acrescenta o fundador da Spot Games. "Os alunos são desafiados a apreender o conteúdo e ao mesmo tempo ter um impacto tangível nas comunidades em que estão envolvidos. Ou seja, vão ter ideias para transformar a sua escola num espaço mais inclusivo, por exemplo."

Neste momento, o projeto da Spot Games já está em algumas escolas de contextos mais vulneráveis, e com bons resultados: o nível de absorção dos conteúdos foi superior à média, com impacto também na descida de participações disciplinares, descreve Francisco Pires de Miranda. Mas a Academia MyPolis só vai arrancar em força em novembro, numa parceria com o Governo, e o objetivo é que várias escolas usem a aplicação, ainda neste ano letivo. Também em novembro, os dois vão estar a apresentar esta ideia na Web Summit, quatro meses depois de terem começado esta "joint venture".

Antes disso, Francisco já tinha lançado a Spot Games em algumas escolas - uma ideia que surgiu do trabalho comunitário que o engenheiro de gestão industrial, regressado do Canadá, realizou ao longo dos anos. "Acreditamos que os jogos criam o ambiente ideal para aprender, porque os jovens sentem-se confiantes, estão sempre motivados, há um feedback contínuo, portanto é o ambiente ideal e muitas vezes antagónico em relação ao que é feito nas escolas", explica. Sem arrependimentos por ter deixado para trás a experiência de trabalhar numa grande multinacional, Francisco acredita também que este é o projeto de "com maior potencial" em que já esteve envolvido. "Vamos estar em cinco agrupamentos de escolas, já tínhamos uma base de 400 jogadores semanais e vamos passar para os milhares." Ao todo, a Spot Games já oferece sete jogos virados para o sucesso escolar e para a cidadania.

Tal como Francisco, Bernardo confiou apenas no seu espírito empreendedor como ferramenta para se lançar no mundo das startups. O objectivo inicial era pôr políticos e cidadãos a comunicar de forma mais intuitiva, através de uma aplicação. "Um político faz um programa, mas nenhum "millennial' vai ler 200 páginas. Um político comunica pela televisão e rádio, mas os "millennials' também não usam estes meios tradicionais. Portanto, é necessário um canal digital de informação que seja mais apropriado para esta geração", defende. Nesta aplicação, os cidadãos podem fazer-se ouvir e votar. Tanto podem analisar as propostas aí colocadas pelos políticos, como também pôr a votação as suas próprias ideias. "É um espaço para a cidadania digital e para a democracia 4.0", descreve o consultor.

O grande desafio: a educação

Estas três ideias nasceram com o apoio da Casa do Impacto, a incubadora de startups que a Santa Casa inaugurou em Lisboa e que já alberga a Academia de Código, o SPEAK (escola de línguas), o IES (a escola de negócios sociais), a MAZE (antigo Laboratório de Investimento Social), além dos quatro finalistas do PAES (Spot Games, MyPolis, Rádio Miúdos e 55 Mais). E em breve vão crescer, com capacidade para albergar mais 35 pessoas, que farão parte dos projetos vencedores da segunda chamada para os empreendedores se candidatarem a financiamento.

Com apenas um mês de funcionamento, a Casa do Impacto estreia-se também na Web Summit, onde vai lançar a "call" (chamada para candidaturas) e a nova edição do Santa Casa Challenge. A única condição é que todos os projetos têm de estar alinhados com os objetivos estratégicos da agenda 2030 da ONU. "E agora no Challenge queremos lançar em cada ano um dos objetivos. Este ano será a educação", antecipa Inês Sequeira. A Santa Casa lança-se assim num caminho de financiamento de negócios que ajudarão a resolver problemas sociais que a instituição tem apoiado ao longo dos anos.