Descobriu o desporto adaptado aos 62 anos e tornou-se um campeão

Teodoro Cândido ficou sem uma perna aos 32 anos e só três décadas depois descobriu o desporto adaptado. Ainda foi a tempo de ser campeão nacional de ténis de mesa adaptado e hoje lamenta apenas que lhe reste pouco tempo para continuar a competir.

Ténis de mesa, andebol, basquetebol e vela, Teodoro Cândido é um homem do desporto e adora competir. E consegue tudo isto sem uma perna e em cadeira de rodas. O antigo serralheiro só descobriu o desporto adaptado aos 62 anos, quando estava "na vida de reformado", sentado no sofá a ver as notícias, mas hoje, três anos depois, já acumula medalhas e taças, incluindo a de campeão europeu de andebol em cadeira de rodas e o título de campeão nacional de ténis de mesa.

"Reparei que tinha chegado da Bélgica a seleção de andebol - e nem sabia que havia andebol adaptado -, depois comecei a ver uns vídeos em que uma grande parte dos jogadores que praticava a modalidade tinha cabelos brancos já. E pensei que também tinha hipóteses, porque quando era moço joguei andebol." É assim que Teodoro recorda o momento em que percebeu que podia voltar a ser atleta e competir, mesmo em cadeira de rodas. Começou pelo andebol e ainda não parou de descobrir desportos adaptados aos quais se rendeu.

"Foi a melhor coisa que me aconteceu, nos últimos anos. Gosto muito de competir e quando me sento em cima desta cadeira [de rodas] não penso em mais nada, só penso naquilo. E eu, com essa sensação de só pensar nisso, pensei em ocupar o tempo todo. Para mim isto é a melhor coisa que há", conta o atleta.

Desconhecimento: o principal obstáculo

Difícil mesmo é conciliar todos os desportos que descobriu, porque competir está no seu ADN. Teodoro jogou andebol nos juvenis do Parede, depois no Sporting e terminou a carreira no Costa do Sol e só parou por causa do problema de saúde que lhe levou uma perna. Tinha apenas 28 anos quando descobriu que tinha uma condição rara chamada doença de Buerger, que estrangula as veias e impede o sangue de circular. O diagnóstico chegou depois de nove meses com uma ferida no pé que não sarava. "Depois desse tempo levei veias plásticas, andei ainda cinco anos com as veias plásticas, mas depois isto voltou tudo a entupir, voltei a ser operado, mas 48 horas depois as veias plásticas voltaram a entupir e já não dava para meter mais e tive de amputar a perna."

Um obstáculo que não impediu Teodoro Cândido, então com 32 anos, de continuar a sua vida. Recorda que só teve dificuldade no primeiro ano: "Depois de começar a andar com a prótese adaptei-me muito bem." Serralheiro na construção civil, "subia e descia andaimes" sem dificuldade e sem que muitos colegas percebessem sequer que tinha uma prótese. Mas teve de desistir do desporto, ou pelo menos achou que sim. Agora, o único lamento é ter passado tantos anos afastado da competição, por desconhecimento.

"Desconhecia e até lamento que tenha estado em Alcoitão, por exemplo, e que ninguém me tenha dito que havia vários desportos que eu pudesse praticar. E só fiquei tantos anos sem praticar porque não sabia mesmo que havia estes desportos adaptados, principalmente o andebol que eu já jogava antes."

Aprender a jogar em cadeira de rodas

Depois de descobrir o andebol adaptado, o primeiro passo foi falar com os responsáveis da Associação Portuguesa de Deficientes (APD) em Lisboa, onde conseguiu uma cadeira de rodas emprestada para jogar (já que mesmo em segunda mão uma cadeira preparada para a prática desportiva pode custar 1700 euros). Logo nesse primeiro contacto pediram a Teodoro para jogar também basquetebol. Apaixonado pelo desporto, o atleta concordou sem hesitar.

Mas Teodoro pensava que jogar em cadeira de rodas era até mais fácil do que a versão não adaptada do desporto. Enganou-se: "É precisamente o contrário, o difícil é andar na cadeira de rodas." Uma vez superada essa dificuldade, o espírito de competição manteve-se o mesmo. "O que me entusiasma é o ganhar. Posso não ganhar, mas tenho que batalhar e dar luta para chegar lá."

"Posso não ganhar, mas tenho que batalhar e dar luta para chegar lá"

O ténis de mesa veio a seguir. "Fui com um colega meu, que também joga basquetebol e ainda mais velho do que eu, a Setúbal a um torneio de ténis de mesa subsidiado pela Santa Casa, e gostámos daquilo, e pensei "a gente também tinha hipóteses". Eu nunca tinha praticado, mas ele tinha jogado em Alcoitão. E começámos a competir." Atualmente treina no Desportivo Monte Real, em Tires, onde o encontrámos para mais um treino da modalidade em que se sagrou campeão e que existe apenas há uns anos na Federação Portuguesa de Ténis de Mesa, um esforço apoiado pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

Teodoro adianta que gostaria que esta modalidade fosse mais competitiva, uma vez que não tem uma seleção nacional que possa competir a outros níveis. Francisco Teófilo, diretor do departamento de ténis de mesa adaptado da Federação, explica que o caminho na versão adaptada da modalidade começou na época de 2015/16 e que atualmente têm cerca de 70 atletas. Por isso, acrescenta, o objetivo inicial não é a competição, mas sim dar a conhecer o desporto adaptado, nomeadamente nas escolas, no trabalho com o ensino especial, e em vários eventos, para atrair praticantes.

A grande aposta no futuro, com a parceria dos Jogos Santa Casa, é conseguir uma seleção nacional para entrar em campeonatos internacionais e estar nos Jogos Paralímpicos de 2024. O desporto é "fundamental para a integração das pessoas e, sobretudo, dos jovens com deficiência", salienta Francisco Teófilo. O que quero dizer aos pais é "não deixem os vossos filhos em casa, acreditem neles, que eles são capazes.""

Conciliar horários

O último desporto a entrar na vida de Teodoro Cândido foi a vela. Mas já conquistou este atleta multifacetado. Aos passeios que faz com outras pessoas com deficiência durante a semana, junta-se a adrenalina da competição aos sábados.

A maior dificuldade atualmente mesmo é conjugar todos os horários. "Não há dias suficientes para tudo e tenho pena", admite. Isto porque quase todas as competições são ao sábado, o que já o levou a falhar alguns torneios, nomeadamente de ténis de mesa, tornando mais difícil manter o título de campeão nacional, reconhece.

"Não há dias suficientes para tudo e tenho pena"

"Este ano está mais difícil porque fui à seleção nacional de andebol disputar o campeonato da Europa e tive de faltar a alguns torneios de ténis de mesa." Ora é através da pontuação dos torneios que se decide quem é campeão, uma desvantagem que Teodoro quer tentar compensar e, embora seja difícil, promete "lutar para ser campeão outra vez". No entanto, não deu o tempo como perdido porque a seleção de andebol sagrou-se campeã europeia em Leiria, na véspera do Dia Internacional das Pessoas com Deficiência.

"É uma felicidade enorme e quase todas as pessoas que praticam desporto adaptado, daqueles que conheço, todos se sentem muitíssimo bem." Por isso, espera que a aposta das federações seja para continuar e que também se invista na divulgação para superar a dificuldade em conseguir atletas suficientes para fazer equipas. E espera também ter ainda mais alguns anos de competição pela frente.