António canta a sorte da lotaria há 29 anos

António Carloto é pregoeiro da Lotaria desde 1989. Tem como função cantar os números ou os prémios sorteados.

No imaginário coletivo está bem presente a cadência com que são cantados os números e os prémios sorteados na Lotaria. Uma tarefa que é desempenhada por funcionários das mais diversas áreas da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML). Entre essas vozes está a de António Carloto, que trabalha há 34 anos na instituição e que há 29 canta a sorte. "A Lotaria abriu concurso por altura da Lotaria europeia, em 1989, e eu concorri. Conhecia a extração, mas não sabia como funcionava. Em garoto já tinha ido ver as extrações, e eles olhavam todos para a direita ao mesmo tempo, olham para a esquerda, tiravam as bolas. Havia ali uma organização quase militar, e eu tinha curiosidade de saber como funcionava, como é que era. Depois quando surgiu a possibilidade, em 1989, já estava na Misericórdia há cinco anos e pensei: "Porque não, vou arriscar, vou saber." Concorri e consegui."

A par de anunciar os números da sorte, António Carloto trabalha no departamento de património da Santa Casa como assistente administrativo. Mas o seu primeiro posto de trabalho na instituição foi no antigo Hospital de São Roque, corria o ano de 1984 - mais concretamente, "3 de janeiro de 1984". Depois de ter concorrido a essa vaga de trabalho, António já passou pelo departamento de segurança e agora está na gestão imobiliária e património. O balanço não podia ser mais positivo: "Gosto muito de cá estar. É uma casa engraçada, é diferente trabalhar na Santa Casa. É sempre um desafio, não há um dia igual ao outro."

Menos iguais serão os dias em que lhe calha ser um dos pregoeiros necessários à extração de uma lotaria. Ao todo, a equipa tem 12 pessoas e nas lotarias principais (Natal e Ano Novo) são precisos oito, já para os sorteios semanais, transmitidos pela televisão, apenas está presente um pregoeiro.

A dança do sorteio

Na sala de extrações - um espaço centenário nos serviços centrais da SCML e que neste momento está em obras - há todo um ritual, em que luzes vão dando as indicações aos pregoeiros de quando e que bolas devem retirar das esferas, "com uma sequência encadeada das dezenas de milhar, milhar, centena e dezena até chegar depois a quem está no pregão total. Tudo aquilo tem um encadeamento certo".

Para chegar a essa dança sincronizada é "preciso alguma prática e altura para chegar às esferas", resume o pregoeiro. Mas também é preciso treino de dicção e projeção de voz. É fundamental dizer claramente os números sorteados e os prémios correspondentes. E além disso, juntar-lhe alguma emoção.

"É quase uma dança. Temos de conseguir coordenar toda aquela informação e tudo aquilo que temos de fazer de uma forma acertada para que quem esteja a ver tenha noção de que vamos tirar uma grande coisa. Vamos criar expectativa também." Para António, é para criar essa expectativa e dar ênfase ao prémio que os pregoeiros têm aquela cadência na voz: "É quase uma questão de marketing: se estou a atribuir uma coisa que é tão boa, então deixa-me dar ênfase àquilo que é bom."

Como as extrações são atos em que pode estar sempre público presente, António Carloto já teve ocasião de presenciar essa sensação de estar a dar algo bom às pessoas. "Há coisa de dois ou três anos, numa Lotaria de Natal, uma senhora gritou "tenho aqui". Foram ver o bilhete e era um dos premiados. A senhora já era daquelas que lá iam assistir muitas vezes. E distraiu-nos porque nós achámos um piadão àquilo."

Todos os sorteios são um ato público, como tal podem assistir até ao sorteio do M1lhão, que "começa às 20.00 e acaba às 20.01", sublinha João Bela, diretor do núcleo de extrações e concursos da Santa Casa.

A presença de público agrada a António Carloto. "Antes de a sala de extrações entrar em obras [que devem acabar no final do primeiro trimestre de 2019 e que obriga a que os sorteios sejam feitos numa sala no departamento de Jogos na Avenida da Liberdade] havia muitas pessoas que iam todas as quintas-feiras às extrações", descreve. Um ritual que cria familiaridade - "a gente já os conhece, eles conhecem-nos". "Ainda bem que vão, a gente gosta muito que eles venham."

Mesmo nos dias em que as coisas não correm segundo o guião. "A todos já aconteceu qualquer coisa", admite. O percalço de António é "recente". "Na RTP, caiu-me a bola em direto e acontece. É uma bola pequenina, levezinha e caiu." O remédio: "Tive de ir apanhá-la, em direto." Adiando assim o anúncio de um dos prémios.

Máquinas a dobrar e bolas calibradas

Para todos os seus sorteios, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa tem mais de mil bolas. E este é apenas um dos detalhes que foge ao olhar dos espectadores. Para que se garanta que a sorte funciona há vários pormenores que têm de ser assegurados.

A começar pela equipa envolvida nas extrações: "Cerca de 90 pessoas, no total", explica João Bela, diretor do núcleo de extrações e concursos. Todas elas têm variadas funções na Santa Casa, mas acabam por colaborar nas extrações, para integrarem júris, serem pregoeiros, secretários do júri ou operadores de esferas.

Depois é preciso assegurar que o material também está em condições de garantir um sorteio aleatório. "Temos de garantir todas as condições legais de um sorteio, como certificar as máquinas, o que acontece anualmente, ou calibrar as bolas, o que é feito periodicamente para verificar se as bolas estão com um peso dentro dos parâmetros", descreve o responsável.

Para garantir que nada falha, é ainda assegurado que existem máquinas suplentes no local do sorteio e até uma localização de retaguarda, no caso de ser necessário fazer o sorteio noutro qualquer local.

Pormenores técnicos para garantir que a sorte sorri de forma completamente aleatória a alguns dos milhares de apostadores. Por isso, não adianta pedir ao pregoeiro para cantar os seus números, como faziam, a brincar, os amigos de António. "No início, os amigos brincavam e diziam-me "então quando é que tiras para mim?", ou, na terra dos meus pais, diziam-me "os meus números são estes, tira lá para mim", mas sempre na brincadeira, sem maldade".

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