Um "bombardeamento cirúrgico" ao lupus é a esperança para o futuro

Os tratamentos tradicionais para esta doença crónica são, muitas vezes, demasiado duros com um organismo já fragilizado. A alternativa pode estar nos imunossupressores biológicos.

O lupus afeta cerca de cinco milhões de pessoas em todo o mundo. Estima-se que em Portugal existam cerca de 10 mil doentes, sendo que são as mulheres, cá e por todo o mundo, as mais afetadas por esta doença autoimune que se pode resumir, em poucas palavras, como uma desregulação, no sistema imunitário, uma falha na tolerância às estruturas do próprio organismo, que faz com que este, em vez de o proteger, o ataque, provocando inflamações.

Por ter vários problemas associados e em diferentes partes do corpo, o lupus tem impacto na vida social e familiar dos doentes. Desde logo por envolver, na maior parte dos casos, a pele: é o que leva muitas pessoas a olhar e a fazer perguntas, sendo que as próprias perguntas repetidas sobre essas alterações cutâneas incomodam o doente. Depois, podem envolver a parte articular, que é a inflamação das articulações, o que causa dores incapacitantes semelhantes às provocadas pela Artrite Reumatoide. Por fim, pode também afetar outros órgãos como os do sistema renal e neurológico, por exemplo, e em relação a isso basta dizer que, em 50% dos casos, os rins são afetados e podem levar à insuficiência renal crónica, diálise e transplante

Apesar dos imensos avanços científicos, ainda não se conhece uma causa para esta doença e os sintomas variam de caso para caso, tornando difícil o estabelecimento de um doente-padrão. A maior parte dos casos começa com queixas cutâneas ou articulares, sendo que a queixa mais frequente associada à pele é a fotossensibilidade. Outras vezes pode surgir queda de cabelo muito forte, febres sem causa explícita, feridas no nariz, na boca, ou uma baixa dos glóbulos brancos registada nas análises de rotina, por exemplo.

A doença limita a qualidade e a esperança de vida dos doentes e, por isso, tem terapêuticas muito próprias. A cortisona, por exemplo, é utilizada nestes tratamentos e salva muitas vidas, mas é imperativo que as doses não ultrapassem o recomendado devido aos efeitos secundários como a osteoporose, problemas cardiovasculares, infeções e outros. Outra terapêutica utilizada com frequência são os chamados imunossupressores, que existem em dois tipos: os tradicionais e os biológicos de nova geração.

Como o próprio nome indica, um imunossupressor serve para suprimir um pouco o nosso sistema imune - que não se pode suprimir completamente porque senão ficámos sujeitos a infeções. Numa metáfora relacionada com a guerra, os imunossupressores tradicionais são uma espécie de bomba nuclear que atua em muitos pontos do sistema imune, enquanto a terapêutica biológica é quase como se fosse um bombardeamento cirúrgico que vai tentar atingir apenas a célula específica, diminuindo os riscos associados a uma imunossupressão mais alargada. Felizmente no lupus, tal como já vem acontecendo há anos, e com excelentes resultados, na artrite reumatoide, começamos a dispor destas terapêuticas.

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