Legislativas antecipadas depois de uma derrota do partido do governo numas eleições locais? Sim, assim o decidiu o primeiro-ministro socialista Pedro Sánchez, poucas horas depois de conhecer os resultados que viram no domingo o conservador PP ganhar várias regiões e cidades e afirmar-se como o maior partido de Espanha. Mas cuidado com a tentação de ver aqui uma repetição daquilo que aconteceu em 2001 em Portugal, quando depois de uma derrota do PS nas autárquicas, António Guterres decidiu também que era a hora de o país voltar às urnas para se pronunciar sobre quem devia governar. É que se Guterres saiu de cena e entregou a liderança socialista a Ferro Rodrigues (que veio a perder nas legislativas de 2002 por muito pouco com o PSD de Durão Barroso), Sánchez não atirou a toalha ao chão, longe disso. Em vez de deixar correr os meses até à data que seria previsível para as legislativas (dezembro), optou por escolher já julho para o duelo anunciado com Alberto Núñez Feijóo, o homem que ambiciona levar a direita de novo ao poder em Espanha..Numa primeira leitura dos resultados, tudo parece muito arriscado para Sánchez. Sete das dez maiores cidades espanholas poderão ser governadas pelo PP (depende das alianças à direita) e das regiões a votos o PSOE só obteve maioria absoluta em Castela-Mancha, devendo ser afastado do poder até no seu bastião da Extremadura..Contudo, a quebra de votos do PSOE foi mais pequena do que parece e sobretudo para a abstenção. Os bons resultados do PP devem-se a ter ficado praticamente com os votos do Ciudadanos (partido a caminho da irrelevância, já anunciou que não irá participar nas próximas eleições) e a beneficiar no jogo de eventuais aliança de governo da queda do Unidas-Podemos, que não está em condições de vir em apoio do PSOE em várias cidades e regiões. É o caso da já referida Extremadura, em que os socialistas até foram os mais votados, mas serão impotentes perante uma união da direita..Uma extrapolação dos resultados caso se tivesse tratado de legislativas feita pelo El País vem também dar alguma esperança de reviravolta a Sánchez: os 31,5% dos votos do PP dariam 143 deputados (maioria absoluta são 176), enquanto os 28,1% do PSOE significariam 122..Com fama de apostar no tudo ou nada, o chefe do governo espanhol assumiu-se como um travão ao avanço conservador não só em Espanha, como na Europa. E irá certamente dramatizar o embate esquerda-direita durante a campanha para as legislativas de 23 de julho. Por um lado, além de procurar uma mobilização dos socialistas que ficaram em casa no domingo, tentará ir buscar votos à sua esquerda, numa estratégia de voto útil que faz sentido em muitas províncias espanholas, em que nem a Unidas-Podemos nem o novo Sumar estão em condições de impor-se; por outro lado, Sánchez tentará tirar proveitos do dilema do PP de tentar ganhar sozinho ou com o Vox, o partido de extrema-direita. Mesmo a política de alianças nas regiões decidida agora por Feijóo poderá marcar o tom da campanha para as legislativas, facilitando ou não a estratégia socialista. A região de Madrid, em que Isabel Díaz Ayuso conseguiu maioria absoluta para o PP, poderá ser uma inspiração para Feijóo, caso o antigo presidente do governo da Galiza, que veio dar nova credibilidade à direita, aposte também num tudo ou nada..Depois de quase uma década revolucionária no sistema partidário espanhol, com quebras eleitorais enormes do PSOE e do PP e fenómenos como Podemos, Ciudadanos e Vox, as próximas eleições podem ser de certo modo um regresso à tradicional disputa PSOE-PP, embora nunca se podendo ignorar os partidos nacionalistas, tanto no País Basco como na Catalunha, como potenciais fazedores de reis - aqui de primeiros-ministros. Certo é que em vez de se falar só da derrota do PSOE, se fala agora também muito da audácia de Sánchez. Sinal de que arriscar pode trazer vantagens.