A mesquita de Kruszyniany.

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Tártaros: estes muçulmanos são polacos há 600 anos

Kruszyniany, já bem perto da fronteira com a Bielorrússia, é uma aldeia tártara. Ali, Dzemil abre as portas da mais antiga mesquita da Polónia, um edifício em madeira, do século XVIII, Bronislaw faz uma visita guiada ao museu do Centro Educativo da Cultura Tártara e, claro, podemos provar os pratos preparado por Dzenneta, cujas receitas passaram de geração em geração numa comunidade que chegou no século XIV e hoje só quer viver em paz num país onde 90% da população é católica.

Verde. Um verde tão verde que é impossível não reparar nele no meio da paisagem branca, coberta de neve. Estamos em Kruszyniany e aquele edifício verde é a mais antiga mesquita existente na Polónia. Para chegar à aldeia tártara, ali já muito perto da fronteira com a Bielorrússia, são três horas de carro desde Varsóvia. Primeiro por uma autoestrada ultramoderna, daquelas construídas com os fundos europeus, e que liga a capital a Bialystok. Depois, mais uma hora de viagem por estradas em que o preto do asfalto gradualmente vai dando lugar ao branco, até a estrada e a floresta nevada em volta se fundirem num único tom.

Dzemil Gembicki chega de casaco apertado, mãos nos bolsos e gorro na cabeça. Vem apressado para abrir a porta da mesquita. É ele o responsável por mostrar aos turistas que até ali vêm os segredos que se escondem por detrás das paredes de madeira verde-esmeralda do edifício do século XVIII. Mas isso é sobretudo no verão. Em pleno inverno, a aldeia surge agora meio adormecida. Nas ruas não se vê vivalma. Talvez a fugirem de uma temperatura que não andará longe dos dez graus negativos.

Ao todo estamos a falar de uns cem habitantes, muitos deles tártaros, os descendentes desses muçulmanos que no século 14 se instalaram na Polónia, então unida num único país com o grão-ducado da Lituânia - a República das Duas Nações. De língua turquica, ao longo dos séculos seguintes os tártaros destacaram-se pela bravura ao serviço do Exército polaco.

Hoje são dois mil os polacos que afirmam ter origem tártara, mas quando a pergunta é sobre a nacionalidade só 500 se identificaram como tártaros nos últimos censos. Aqui em Kruszyniany vivem oito famílias tártaras, no meio de católicos e ortodoxos. Uma pequena amostra da diversidade religiosa que antes da II Guerra Mundial, e do Holocausto, chegou a caracterizar um país que tinha então mais de três milhões de judeus e onde atualmente perto de 90% dos 39 milhões de habitantes se afirmam católicos.

Mas em Kruszyniany "nem sequer há uma igreja católica", explica Dzemil, já no interior da mesquita. Em 1999 chegaram a viver na aldeia apenas duas famílias tártaras, mas nos últimos anos alguns regressaram ou decidiram mudar-se para ali vindos de outras zonas do país. A mãe dele é daqui, mas a família paterna é da Bielorrússia. "A minha avó casou-se com um tártaro que vivia em Varsóvia. Ele era soldado e morreu na guerra", conta Dzemil. A outra avó viveu toda a vida em Kruszyniany. E ainda vive: "Tem 104 anos!", diz orgulhoso.

As orações na mesquita de Kruszyniany estão a cargo de um imã que vive em Bialystok. Às sextas-feiras chegam a juntar-se cem pessoas na mesquita. Um número que impressiona, sobretudo quando se olha para o espaço exíguo. O interior, como o exterior, é composto por painéis de madeira, mas aqui já de cor castanha, a decoração é simples, com os crescentes do islão a serem os protagonistas e o chão coberto de tapetes que protegem os pés descalços do frio.

Com uma gargalhada, Dzemil explica que Kruszyniany e Bohoniki, uma aldeia tártara vizinha, são muitas vezes chamadas "a Meca e a Medina da Polónia". E aproveita para explicar que se de fora a mesquita se assemelha mais a uma igreja do que a uma mesquita, isso é porque "os tártaros eram soldados, por isso quando foi preciso construir a mesquita tiveram de pedir ajuda à comunidade local, que se inspirou nas igrejas". Entregue aos tártaros em 1679 pelo rei Jan III Sobieski, Kruszyniany tem também um cemitério muçulmano, onde o túmulo mais antigo tem a data de 1699. Visitá-lo é que terá de ficar para outro dia. A neve não só impede o acesso como cobriu totalmente as lages.

Acabar com os medos

Todos os anos, são cerca de 50 mil os turistas que se deslocam a Kruszyniany. Escolas, grupos de idosos, peregrinos. E são muitos os que se surpreendem com o que encontram na aldeia tártara. "Aqui tentamos conviver em paz", explica Dzemil. E até agora têm conseguido. A prova disso é que a tia dele, uma tártara, foi escolhida com o votos dos católicos para ser a líder da aldeia. Mais, ele próprio é casado com uma católica. E isso é comum? Bastante, garante, afirmando que cerca de 30% dos tártaros acabam por se casar fora da comunidade. E se isso é visto com maus olhos pelos mais conservadores, tem vindo a tornar-se uma prática cada vez mais aceitável. No caso dele, até os filhos puderam escolher a religião e um é católico, o outro muçulmano. "Somos pragmáticos. Basta olhar para os tártaros que vieram da Lituânia para perceber que também não eram tártaros puros, todos tinham avós ou bisavós que não eram tártaros", explica. Ele próprio está convencido de que terá sangue não tártaro. Pelo menos é nisso que vê a explicação para a sua altura, invulgar entre os tártaros, geralmente mais baixos.

Nas últimas décadas tem também havido casamentos entre tártaros e outros muçulmanos - da Turquia ou dos países árabes. Desde os anos 1970, mas sobretudo desde o fim do comunismo em 1989, tem havido uma pequena imigração de muçulmanos para a Polónia. O convívio com os tártaros nem sempre foi fácil, admite Dzemil. "No início, quando apareceram os primeiros imigrantes muçulmanos e conheceram a cultura tártara, quiseram transformar as nossas tradições para encaixarem no islão deles. Mas depois perceberam que não vão fazer isso", garante. O governo polaco tem sido criticado em Bruxelas por rejeitar as quotas de refugiados sírios que a União Europeia estabelecer para todos os seus Estados-membros.

A verdade é que a mesquita de Kruszyniany é também usada por outras comunidades muçulmanas. "Há xiitas a rezar aqui", conta Dzemil, antes de relatar um episódio caricato sobre o dia em que, estando ele doente, foi a mulher, católica portanto, a vir abrir a mesquita a um grupo de paquistaneses muito ortodoxos. "Eles ficaram espantados", confessa. E conta também como os visitantes, católicos e muçulmanos, os vão tentando convencer a converter o outro à sua religião.

Manter as tradições

"Para nós ser tártaro tem que ver com três coisas: cultura, religião e gastronomia." São estes valores que tentam passar às novas gerações. A língua tártara há muito deixou de ser falada pela maioria dos tártaros da Polónia, apesar de "há algum tempo recebermos apoio financeiro, e chegou a haver uma aulas para 60 pessoas", explica Dzemil, referindo ainda a existência de um grupo folclórico que junta crianças e adultos.

Fundamental para manter essas tradições e essa memória é o Centro Educativo da Cultura Tártara na Polónia. Para lá chegar basta atravessar a rua e andar uns metros. O enorme edifício de madeira está à espera dos visitantes. Agora no inverno está deserto, mas o diretor da comunidade, Bronislaw Talkowski, faz questão de ligar as luzes e fazer uma visita guiada ao pequeno museu que ali foi criado.

A ideia do centro surgiu durante uma visita do príncipe Carlos de Inglaterra a Kruszyniany e, em 2010, ganhou forma com apoio da sua fundação, do governo local e da União Europeia. O objetivo foi "construir algo que não só funcione para a sociedade local mas também seja uma atração turística", explica o diretor. Mas não só: ali organizam-se conferências e o centro até serve como assembleia de voto durante as eleições.

No verão organizam o festival da cultura tártara, fazem reconstituições de batalhas históricas. Segundo a lenda, explica Bronislaw, o rei Jan III Sobieski (que salvou Viena em 1683 do cerco otomano) terá escapado à morte no campo de batalha graças à bravura de um soldado tártaro.

Como organização religiosa, funcionam em regime de voluntariado, mas em volta do centro são muitos os negócios que têm vindo a desenvolver-se. Hoje várias casas da aldeia oferecem aos visitantes a possibilidade de ali ficarem alojados. E ao lado do centro existia um restaurante de comida tártara, mas um incêndio destruiu tudo em abril. Por isso a cozinha agora está instalada no centro e continua a ser possível provar as iguarias da comunidade.

Mas o desenvolvimento económico não traz só coisas boas. E neste momento os habitantes de Kruszyniany declararam guerra a uma empresa que pretende construir nos arredores da cidade um aviário com capacidade para 500 mil galinhas.

Trajes tradicionais, exemplares do Alcorão e muitas fotografias

No museu encontra-se de tudo. A começar por muitas fotografias da tal visita do príncipe Carlos e de outras personalidades a Kruszyniany. João Paulo II, o papa polaco, não podia faltar, claro.

Nas paredes há imagens e uniformes de tropas tártaras, homens que combateram na guerra contra os bolcheviques em 1918-21, estantes cheias de exemplares do Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos. Um dos exemplares, explica Bronislaw, foi escrito à mão e tem mais de 300 anos. Em exposição estão também trajes tradicionais tártaros, alguns da Crimeia, a península da Ucrânia anexada pela Rússia em 2014, bem como a roupa do imã.

E, de novo, fotografias. Muitas fotografias. Numa delas, Bronilaw aponta para uma mulher vestida de preto: a sua bisavó. E é com orgulho que o diretor do centro garante ter documentos que provam que descende diretamente do general tártaro ao qual Jan III Sobieski entregou as primeiras terras para a construção da aldeia no século XVII.

Conquistar pelo estômago

Mas uma visita a uma aldeia tártara não fica completa sem provar os pratos que a comunidade vai passando de geração em geração. Enquanto ao lado decorrem as obras no seu restaurante, Dzenneta Bogdanowicz instalou a cozinha no Centro Educativo e da Cultura Tártara. Numa tarde de inverno, a sala está vazia, exceção feita para uma dupla canina improvável constituída por um bulldog e um yorkshire terrier deitados a um canto. Depois de alguns latidos, os dois acabaram por se aproximar para reclamar algumas festas.

Em cima da mesa, espera o visitante um chá fumegante, mas depressa os pratos começam a chegar. E cada um cheira e sabe melhor do que o outro. Os tradicionais pierogi acompanhados por um caldo quentinho - chamados kalduny -, seguidos de uma espécie de folar com carne e abóbora, acompanhado por um molho tártaro fresco - bielusz -, uns pastéis de batata chamados kartoflaniki e katlama, uma versão tártara de lasanha. A rematar, listkowiec, um bolo com queijo dentro e um café tártaro.

Sentados à mesa, Dzemil, Bronislaw e Dzenneta sorriem perante o desespero de que quem já não consegue meter nem mais uma garfada na boca. Afinal nada como conquistar o visitante pelo estômago. "Só queremos conviver em paz e com respeito de ambos os lados", resume Bronislaw. Afinal "durante seis séculos os tártaros conseguiram mostrar que na Polónia o islão é uma coisa normal".

O DN viajou a convite da Embaixada da Polónia em Lisboa

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