Saúde

Emigração de médicos triplica nos primeiros seis meses deste ano

Pedidos de certificados para exercer medicina no estrangeiro já são mais de metade do total de 2018. Salários, condições de trabalho, desmotivação enorme, são razões apontadas. Duas médicas, de duas gerações, contam a sua história.

De Luísa Gonçalves a Luísa Pereira vão 32 anos de distância, muitas diferenças marcadas por duas gerações, mas não há distância no mesmo gosto pela medicina, no mesmo sentir desde crianças de que era médicas que queriam ser. Entre Luísa e Luísa há a distância de uma ter trabalhado 25 anos no Serviço Nacional de Saúde (SNS), ali ter feito a sua formação, curso e especialidade de anestesia, de ter chegado a médica graduada e a diretora interina de um serviço e de ter de deixar tudo para trás, e de outra nem sequer ter colocado a hipótese de ficar em Portugal para fazer especialidade ou sequer saber o que é trabalhar no SNS.

Luísa e Luísa emigraram numa fase ainda muito marcada pela crise. Uma há mais de seis anos, a outra há três. Mas os pedidos de certificados para exercer no estrangeiro voltaram a disparar em 2018 e 2019. Neste ano, os presidentes das secções regionais do norte, do centro e do sul assinaram até agora 386 certificados, o triplo de 2018, quando passaram 130 sensivelmente no mesmo período. Uma tendência, acreditam, que continuará, com histórias idênticas às de Luísa e Luísa.

Luísa Gonçalves, de 59 anos, formou-se na Faculdade de Ciências Médicas, em Lisboa, em 1986. Passou dois anos pela indústria farmacêutica, viveu em Paris, mas regressou a Lisboa para ingressar na especialidade de anestesia, nos antigos Hospitais Civis de Lisboa, agora Centro Hospitalar de Lisboa Central. Escolheu o Hospital de D. Estefânia, onde ficou quase 20 anos. Em 2010, concorreu à Maternidade Alfredo da Costa (MAC), como médica graduada, conseguiu o lugar. Pouco depois assumia a direção interina do serviço de anestesia da MAC, onde esteve três anos. Apanhou o início da era troika, os cortes nos salários, de pessoal e a ausência de projetos. A profissão começava a ficar marcada por um sabor amargo, "por uma desmotivação tremenda, e comecei a achar que não era assim que queria ser médica. Achava que ainda era válida e que tinha algo para dar à medicina. E decidi dar o salto".

Foi das primeiras a fazê-lo. Saiu em abril de 2013, e com noção dos riscos que poderia correr ao começar tudo de novo, "era um país diferente, um sistema e um hospital diferentes, uma língua também diferente, embora não tivesse problemas porque fiz o Liceu Francês". Mas era um começar tudo de novo, desde o alugar casa, a mobilá-la, deixar a família em Lisboa. Mas confiava. Na bagagem levava o curso de Medicina tirado em Portugal - "os médicos portugueses são muito bem vistos em França" -, a especialidade de anestesia, onde há falta de profissionais em toda a Europa, incluindo Portugal, e já uma carreira com longa experiência. Hoje, Luísa Gonçalves vive entre França e Lisboa, está a uma distância de quatro horas e meia de avião. Aliás, escolheu precisamente um hospital entre Bordéus e Toulouse, porque lhe dava maior mobilidade para escolher os voos e chegar mais depressa a casa, em Lisboa. Está perfeitamente integrada no hospital em França, mas continua a dizer que mora em Lisboa e trabalha em França.

Quando partiu, havia muito poucos como ela a darem o salto, sobretudo já com a vida estabilizada, mas "agora já somos muitos e penso que iremos ser cada vez mais. Eu ainda vim sozinha, deixei a família em Portugal, por isso digo que não emigrei, mas que me globalizei, mas as novas gerações já vêm com a família toda ou já constituem família nos países onde estão. São gerações que estão a sair do país e que vai ser muito difícil que regressem".

Luísa Gonçalves integra os quadros de um hospital público - Pôle du Santé Villeneuvois - recente, pensado de raiz, o que lhe permitiu participar na definição de protocolos para o exercício da prática médica. "Isto é importante para um médico", argumenta.

Em pouco tempo, tornou-se responsável pela maternidade do hospital. Agora, já é presidente da comissão de bloco operatório, "um dos cargos mais altos em França a seguir à direção do hospital". Ali, volta a atingir o topo da carreira, com o triplo do ordenado que aufere um assistente graduado em Portugal e a trabalhar a 75%, três semanas por mês. "Estou num hospital bem equipado, organizado, com uma equipa ótima e onde há mais médicos e enfermeiros portugueses. Há dias na urgência de cuidados continuados em que estou eu, outros médicos e enfermeiros portugueses e uma assistente operacional também lusodescendente. Chego a dizer que só falta o P - de Portugal - à porta."

Quanto ao regresso? "Só depois da reforma." Não tem dúvidas. "Aqui há hipótese de trabalhar a 100%, 75% ou 50%, daqui a um ano ou dois posso escolher ficar a 50%, trabalho duas semanas e estou outras duas com a família." Agora, não sofre do stress, do desgaste e da desilusão que a levaram a sair do país. Sobretudo "a desilusão de ver um sistema de saúde a desmoronar-se". Mas isso porque teve a coragem de, aos 53 anos, ter ido ter com uma agência de recrutamento para saber se havia hipótese de encontrar algo para o seu perfil. Disseram-lhe logo que sim e propuseram-lhe a unidade onde está. "Vim fazer uma visita no início de 2013, fiquei uma semana e quando cheguei a Portugal pedi licença sem vencimento na MAC, mas não me deram com o argumento de que era insubstituível, na mesma hora me demiti."

Conta que ainda negociou a entrada numa unidade privada em Portugal, mas nada se comparava às condições que lhe ofereciam em França. Partiu, na altura em que o marido se tinha reformado e a filha entrava na faculdade em Arquitetura. "Não foi fácil", assume. A vida passou a ser feita de viagens e por Skype. Foi ficando. A filha acabou o curso e já escolheu Barcelona para viver. As reuniões de família são agora entre os três países.

À distância, diz que vai acompanhando a degradação cada vez maior das condições dos médicos em Portugal. "O que custa. Sou de uma família de médicos. O meu irmão também é, a minha cunhada também e já tenho um sobrinho que também escolheu Medicina, mas já saiu do país."

Em 2018, foram pedidos 555 certificados para sair. Em 2019, já vão em 386

Desde 2014 que o número de médicos a sair do país tem vindo a aumentar, tendo-se registado uma pequena redução em 2016 e 2017. Em 2018, o alarme voltou a soar: os pedidos de certificados ultrapassaram os de 2015, quando tinha havido um recorde com 475.

Segundo a Ordem dos Médicos, nos primeiros seis meses de 2018 tinham sido passados 130 certificados em todo o país. Mas a contabilidade agora dada ao DN pelas três secções regionais, norte, centro e sul, dá conta de um total em todo o ano de 2018 de 555 certificados. O norte assinou 269 pedidos, o centro 31 e o sul 256. Neste ano, nos primeiros seis meses, o norte já registou 133 pedidos, o centro 23, quando no período homólogo de 2018 tinha recebido 12, e o sul já vai nos 230, quase tantos como os do ano passado. No total, recebeu 386 pedidos.

Para Alexandre Valentim Lourenço, presidente da secção do sul da Ordem, os números refletem a tendência que é própria de um mercado de trabalho aberto. "Vivemos a era da circulação aberta. Há médicos a sair, mas há médicos de outros países que estão a chegar. A grande questão é que os médicos que estão a sair tiveram uma formação excelente e os que estão a entrar, vindos do leste da Europa, do Brasil ou de outros países, não têm as mesmas qualidades."

2152 é o número de médicos que apresentaram, desde 2014 até agora, pedidos de certificados para exercer no estrangeiro, de acordo com dados da Ordem dos Médicos revelados pelo DN já há um ano. Em 2014, foram assinados 366 pedidos, em 2015, 475, em 2016, 198, em 2017, 182. Em 2018, volta a subir para os 555 e, neste ano, já vai nos 386.

Carlos Cortes, presidente da secção do centro, diz que esta realidade não o surpreende, mas preocupa-o, reforçando que estes números devem servir como alerta para o ministério e para o governo. "Refletem o desânimo e a desmotivação dos jovens médicos que nem sequer colocam a hipótese de fazer a sua formação pós-graduada no SNS ou trabalhar em Portugal." Sublinhando: "Há um dado novo que deve constituir um alerta para as autoridades. Antes, qualquer médico que se formava em Portugal queria trabalhar no SNS, hoje não é assim. Os que cá ficam, mesmo antes de fazerem o exame da especialidade já dizem que não querem ficar no SNS."

O presidente da secção norte, António Araújo, aponta os "salários miserabilistas e a falta de saídas e de projetos profissionais como as principais razões que levam os médicos a procurar o estrangeiro".

De acordo com os dados disponibilizados pelas três secções, a maioria dos certificados são pedidos pela faixa etária dos 25-34 anos, segue-se a dos 35-44, mas há secções que começam a registar um aumento de pedidos por parte de médicos com mais de 50 anos. No norte, por exemplo, a percentagem desta faixa etária era de 1,96% do total e, em 2019, passou para mais de 9%, o que é também indicador da insatisfação dos médicos seniores.

A maioria dos que pedem para sair não têm uma especialidade, mas começa a haver muitos pedidos de anestesistas, cirurgiões cardiotorácicos, internistas, ginecologistas-obstetras, etc. Até agora, 386 médicos pediram este certificado. Não quer dizer que todos emigrem, mas a convicção dos presidentes das secções da OM é de que a maioria o faz. Por outro lado, esclarece Alexandre Valentim Lourenço, há muitos portugueses que se formam em Medicina na República Checa, no Reino Unido ou em França, que já nem se inscrevem na nossa Ordem, fazem-no diretamente nas ordens dos países onde tiram o curso ou para onde vão trabalhar. Ou seja, "há mais médicos portugueses no estrangeiro do que aqueles que pensamos".

Das Caldas a Lisboa, da Hungria à Escócia e à Polónia, da Dinamarca à Suíça

Luísa Pereira, de 27 anos, nasceu numa aldeia do concelho das Caldas da Rainha. Ali fez a primária e o liceu, só veio para Lisboa para fazer Medicina na Nova Medical School, a antiga Faculdade de Ciências Médicas, a mesma de Luísa Gonçalves. Como a colega com mais de 32 anos, também Luísa desde sempre disse que queria ser médica. Desde os 4 anos que aprendeu a viver em hospitais, devido a um problema de saúde. "Era ali que me sentia bem", confessa. Por isso, medicina foi sempre a sua opção, quer fosse para fazer investigação ou clínica, mas, diz "não me sinto completa a fazer só uma coisa". Por isso, escolheu um percurso académico que lhe permitisse fazer as duas coisas.

Quando em julho de 2016 recebeu o diploma de Medicina, já tinha feito estágios na área da investigação em biologia celular e molecular na Hungria, na Polónia e na Escócia, e de clínica na Dinamarca. E dois meses depois do curso estava a ter a primeira entrevista para começar a trabalhar na Suíça, para onde foi em novembro para iniciar a especialidade de pediatria. Para a jovem médica não foram as condições de trabalho ou os salários baixos que a levaram a escolher outro país. "Foi a oportunidade, o querer conhecer o que se faz em investigação e clínica no mundo."

Luísa fala com o DN depois de um dia de trabalho no Hospital Universitário de Lausana, na Suíça, onde está agora a fazer um dos semestres dos três anos que são obrigatórios fazer em hospitais universitários. Já passou por hospitais periféricos, onde tem que fazer dois anos, mas ao escolher aquele país sabia que teria acesso a uma formação pós-graduada mais aberta do que em Portugal, e era isso que pretendia. "O meu objetivo foi sempre construir o meu currículo. Aqui tenho os mesmos cinco anos de especialização em pediatria, mas se quiser interromper para fazer um ano de medicina interna ou de hemato-oncologia posso fazê-lo. Tenho o meu trabalho e a especialidade assegurada. Em Portugal, não seria possível." Para Luísa a formação médica em Portugal é de excelente qualidade, mas é também "bastante restrita. Fazemos o exame de acesso à especialidade, somos colocados num hospital, temos estágios, mas estamos vinculados àquela especialidade". Na Suíça, "não estou vinculada a uma especialidade, eu construo o meu currículo. Foi isso que me fez sair. Foi o procurar outras estratégias e o estar livre para construir o meu percurso até chegar à formação que acho mais adequada e melhor, para um dia poder voltar a Portugal".

Luísa critica: "O processo de seleção em Portugal é completamente obsoleto, porque as qualidades pessoais e académicas de cada um não são tidas em conta. Ou seja, faz-se um exame e é-se colocado de acordo com a nota do exame na especialidade. Mudaram a prova de acesso, mas não mudaram a metodologia. Ainda não estamos preparados para assumir a seleção dos candidatos pela sua prática e não pela nota de um exame."

A médica trabalha 47 horas semanais, sem contar com as muitas horas extraordinárias que tem de fazer. Na Suíça, há muitos enfermeiros, mas médicos também são poucos. "Estamos sempre no limite efetivo." No entanto, é um país "muito organizado. Nos serviços há sempre mais médicos graduados do que internos. No serviço onde estou há apenas dois médicos em formação, e já estive numa unidade periférica em que só havia um interno por serviço". Uma realidade diferente da portuguesa, onde nos últimos anos cerca de 700 médicos têm ficado sem vaga nas especialidades e em que muitos serviços têm tendencialmente mais do que um, dois, três, quatro ou cinco internos.

"Aqui sou avaliada ao fim de dois meses quando começo um turno de seis meses, e quem me avalia decide se continuo nesse turno por mais quatro meses. A avaliação é qualitativa, e não teórica. E o trabalho é extremamente exigente." Por isso, a remuneração que aufere permite-lhe viver tranquilamente num dos cantões mais caros da Suíça e ainda poupar dinheiro, o que quer dizer que ganha bem mais do que qualquer colega seu que tenha ficado no país.

Faltam dois anos para Ana Luísa Pereira acabar a especialidade. Depois, ambiciona uma formação em hematologia pediátrica, uma subespecialidade, mas esta "já a posso fazer em qualquer do mundo". Depois? Não sabe, logo se vê. Portugal? "Só muito mais tarde.

Médicos já escolhem Angola, Suazilândia e Macau

Desde o início da vaga de emigração médica, 2013-2014, que o Reino Unido aparece como sendo a primeira escolha para quem não quer exercer no país.

A Alemanha aparece em segundo lugar, mas com o passar dos anos há cada vez mais outras opções.

Agora, já há médicos a escolher Angola, Suazilândia e Macau. Isto para não falar dos Emirados Árabes Unidos e da Arábia Saudita que já fazem parte da lista de países que cada vez mais procuram médicos portugueses. Aqui juntam-se ainda a Austrália, o Canadá e os EUA.

No entanto, a Europa continua a ser o continente preferido. Espanha começa a aparecer, França também, Suíça cada vez mais, e há ainda Itália, Bélgica, Holanda, República da Irlanda e Luxemburgo. A maioria dos que vão não têm especialidade. "Vai mesmo para poder fazer a especialidade que pretende e para ter as condições que sempre desejou para pôr em prática as suas competências técnicas", dizem.