De onde vêm as nossas memórias?

Tenho imagens tão nítidas da minha infância que é quase impossível que elas sejam reais, que correspondam ao fio dos meus primeiros anos. São nítidas, demasiado nítidas, com a complexidade do real, e não há como explicar que elas possam ter sido apreendidas e guardadas durante décadas num qualquer recanto de mim. Mas estão cá, fazem parte da minha geografia, chegam mesmo a orientar-me, como se tivessem uma função bussolar.

Eu nos braços do meu avô, eu a interromper o sono dos meus pais, eu a roubar aqueles chocolates em forma de coração embrulhados em papel dourado, eu numa casa onde vivi até aos 2 anos, eu num jardim a que não voltei depois de ter ido viver para a Covilhã, muito muito cedo. De onde vêm estas imagens, algumas delas com sabor, um sabor que ainda surpreendo e reconheço? De onde me vem esta segurança, que é física, sem vertigens, de mim suspenso no ar para ir terminar nos braços do meu avô?

Nenhuma delas está marcada em fotografia, nenhuma delas faz parte das lendas e narrativas da família, nenhuma delas me foi contada, revelada. Estão em mim, acho mesmo que nunca as partilhei antes, e desconfio que nunca o fiz por medo de ser confrontado com a sua impossibilidade: não existiram, inventaste, criaste isso na tua cabeça. E é provável que sim, porque não falo de uma ou outra fugaz memória, mas de uma coleção delas, umas atrás das outras, a desafiar as leis do tempo.

Mas de onde vieram e porque resistem como se fossem reais? Que poder é este que o nosso corpo tem, ou uma qualquer parte dele, para nos proteger a existência com uma realidade alternativa, confortável? É assustador pensar que não dominamos sequer o rasto da nossa vida, que podemos confundir-nos sem saber ou sem conscientemente querê-lo, colando em nós uma segunda pele, desordenando o que não devia passar de uma simples ordem de factos.

E se o nosso corpo tem esse poder, como sabemos, quando confrontados ou perguntados, se o rito que recontamos, se a cronologia que reportamos, vem daí, dessa desordem, como uma mentira, uma ocultação, ou se não é outra coisa que não a verdade?

Parecerá difícil de acreditar, imagino, que isto possa passar-se a propósito de um passado adulto, quando já temos todos os instrumentos para perceber e fixar na memória o nosso trilho. Mas só quem nunca foi confrontado com perguntas detalhadas, vindas do tempo presente e de quem sabe tudo o que então não se sabia, desconhece esta desordem de que falo, da nossa capacidade de emaranhar factos, enovelando-os, de nos vermos no abismo da dúvida, uma dúvida que soberbamente nos empurra para a condição humana, natural: a de que nem donos somos do nosso passado e que ele pode ser reescrito com uma precisão e sentido que desconhecíamos.

Advogado

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