El Salvador. Uma geração comprometida

Mala de viagem (54). Um retrato muito pessoal de El Salvador.

El Salvador é um dos países da icónica rota terrestre que percorre as Américas, desde o Alasca à Argentina. Registada no "Guinness Book of World Records" como a "estrada motorizada mais longa do mundo", a "Panamericana" não tem uma rota definida em alguns países. Aproveitei essa visita para percorrer alguns quilómetros no mais pequeno país continental da América Central, o único que não tem saída ou entrada pelo mar das Caraíbas, mas pelo oceano Pacífico. Não foi, porém, isso que mais me motivou. Já longe da guerra civil, que começou em 1979, e das guerrilhas entre esquerdistas e direitistas, que perduraram até 1992, esta passagem por El Salvador foi mesmo isso, uma passagem, mas que deu para me inteirar melhor sobre a chamada "Geração Comprometida", que sempre me trouxe alguma curiosidade desde que comecei a estudar aspetos relacionados com esta área do mundo. Ela foi uma geração literária que surgiu durante a década de 1950, com escritores de diferentes países latino-americanos, que viveram em El Salvador, no exílio ou por razões diplomáticas. A denominação de "comprometido", que me despertou mais curiosidade, foi criada por Italo López Vallecillos, influenciado pelo pensamento sartreano. Este poeta, historiador, jornalista e editor salvadorenho nasceu em 1932 e faleceu em 1986. Um dos seus companheiros e continuadores é o poeta José Roberto Cea, escritor de cariz popular, de quem li uma entrevista enquanto sosseguei os pés da caminhada que acabara de fazer pela cidade de San Salvador. Foi num café junto da Plaza Morazan. Na mesa do lado, um idoso salvadorenho confessou conhecer Cea, disse-o depois de uns minutos de conversa comigo. Uma bebida e uma pupusa autêntica, a especialidade de El Salvador que o meu vizinho de mesa aconselhou, acompanharam a leitura e a conversa. De óculos com aros pretos, farta cabeleira branca e traços bem marcados no rosto, o retrato de José Roberto Cea fazia parte da entrevista em que o poeta se acolhe no sentido da sua poesia. Segundo ele, "a poesia dá a certeza da existência humana e consegue ela própria ser o sustento da dura realidade do quotidiano". Ele fala do atual quotidiano marcado por um "novo totalitarismo, não o Estalinismo, o Fascismo ou o Nacional-Socialismo, mas o controlo pelas máquinas sofisticadas e pelas redes de intercomunicação muito rápidas". Um controlo que, no limite, nos faz perder a liberdade e a autonomia de pensamento, digo eu, porque apenas a poesia liberta a alma e o físico. Cea defende um mundo mais ecológico e refere que a poesia nos permite suportar o panorama incerto do mundo - "Os criadores sempre foram a consciência crítica da sua sociedade". De 2002, é o seu livro "A Geração Comprometida", que é uma narrativa acerca do grupo que ele ajudou a fundar e a promover, um grupo com um compromisso; aliás, acho que quem escreve para os outros está mais imune às maledicências, se estiver comprometido com valores. Revi-me nisso, enquanto me vi envolvido com a leitura e com o que terá sido essa geração de pensadores, que se uniram sob uma espécie de "tortilha", com "recheios" heterogéneos, porque todos eles expressam registos literários complementares entre si. Esta metáfora só faz sentido nessa cidade e nesse país. A pupusa, como alimento nacional, é verdadeiramente a tortilha de milho, com recheios diversos, que ganha o coração de todos os que visitam o país, até porque é barata e deliciosa e alimenta bem. Acho que as tortilhas dos pobres sempre foram melhores do que o pão dos ricos. Isso faz parte da consciência crítica do salvadorenho, na poesia e na prosa. E ao despedir-me, o meu companheiro de conversa ainda me disse parte de um poema de Cea, que eu anotei, pensando que eu nascera brasileiro: "Las pocas personas que hablan de mi país lo confunden con una provincia de Brasil, con la tierra primera que pisó Cristóbal Colón, cuando descubrió el Nuevo Mundo. Qué importa esa confusión geográfica, si nuestra propia vida es confusa."

Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

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