O país onde as cidadãs empurram os senadores

Um dia, André Carrilho, que semanalmente expõe na mesma página desta crónica, desenhou uma cabeça, de bizarra cabeleira alourada, ocupada por um intestino grosso. Mas não é essa famigerada cabeça o único cometa maléfico a atravessar a América. Houve-os sempre; como também sempre gente para a redimir. Por cada senador McCarthy a tentar agrilhoar a opinião, houve um Dalton Trumbo, lançado para a lista negra e proibido de escrever mas sempre a inventar cenários para dar a volta ao liberticida. A vitória inevitável dos bons nunca nos tranquiliza, porque a América também já nos ensinou que outro mau cometa fatalmente iria, irá, surgir.

Hoje, porém, não quero deter-me no que nos amesquinha - apesar de tanto nos ter surpreendido o ainda contínuo avistamento do cometa de cabeça com intestino por dentro e melena loura por fora. Quero falar da força que a América sempre encontra em si para se salvar. Resposta que é sempre dada por um homem, tipo comum ou grande líder. Dalton Trumbo, lembro, foi o cenarista de Spartacus, em 1960, e também de Fuga sem Rumo. Ambos interpretados por Kirk Douglas, o primeiro na pele de um líder histórico e mítico, o segundo de um pobre diabo que é preso para libertar o amigo, que fora preso ao ajudar imigrantes ilegais (este filme é de 1962, o que confirma que a América é a história em moto-contínuo, em perpétua repetição).

Esta semana, na sexta, o senador republicano Jeff Flake entrou no elevador do Congresso, em Washington. Duas mulheres, vindas do corredor, pararam a porta do elevador e interpelaram o senador. Eleito pelo estado do Arizona, Flake tinha acabado de anunciar a sua intenção de apoiar a candidatura de Brett Kavanaugh, o juiz proposto por Donald Trump para uma vaga no Supremo Tribunal americano. Câmaras de televisão filmaram o assalto de palavras e convicções de que o senador Flake foi alvo.

No dia anterior, quinta, a senhora Christine Ford tinha sido ouvida numa comissão do Congresso. Ela divulgara um ataque sexual do juiz Kavanaugh, há 36 anos. Então, ela tinha 15 anos e ele, 17. Quando se soube que ele poderia ocupar um lugar no Supremo Tribunal, cargo vitalício e fundamental para a vida social e política, Ford achou-se obrigada a falar publicamente do tão antigo assunto. O testemunho da pretensa agredida - ouvido em direto pelas televisões - foi comovente e forte. E insistiu na acusação: ele, sem margem para dúvidas, agrediu-a, tentou despi-la e apalpou-a - repetiu ela. Pouco depois, depôs o juiz, também com palavras sentidas. E Kavanaugh foi categórico: negou tudo.

As palavras de ambos os depoimentos tiveram o mérito do falar americano. Lembro, o assunto daquelas audiências tinha como objetivo um cargo para alguém com o poder de mudar e manter leis na América. Só de pensar no linguajar constitucionalista em que cairia uma discussão destas em Portugal, pôs-me logo a desembarcar em Coimbra B, de toga e capelo. Porém, ouvi frases claras, sobre uma ação ou falta dela, sobre factos ou a negação deles. Percebi, como nunca entendo inteiramente um acórdão nacional sobre violações. E, tendo entendido, entendi que a senhora Ford tinha o direito de ser ouvida e o juiz Kavanaugh tinha o direito de ser ouvido.

Ora, ouvindo-os, soube duas coisas. Primeiro, ao contrário do que eu inicialmente concluí quando soube da acusação sobre um facto ocorrido há 36 anos, entre adolescentes, pensei agora que era importante este confronto público. Sim, um cargo tão importante exige um escrutínio tão minucioso. E, segundo, entendi que este confronto, importante de ser sabido, levava à necessidade de ser investigado para além das palavras de um e de outro lado.

Era isso que estavam a explicar, na sexta, as duas mulheres, obrigando o senador Jeff Flake a ouvi-las. A porta do elevador ficou aberta. "Não olhe à volta, olhe para mim!", dizia uma delas. E o republicano Jeff Flake, confrontado com olhos exigentes, saiu dali e foi exigir ao Senado que dê dez dias para que o FBI tente saber o que a América quer saber.

Reparem como este assunto, tão fácil de ter caído na trica política - afinal sempre é um caso que divide a América em dois, caso polarizado -, se transformou em discussão de cidadãos. Os dois protagonistas falaram para se fazer entender, isto é, saudaram a democracia, minta ou diga a verdade cada um deles. Falaram claro porque querem ser ouvidos. E a democracia em andamento pôs um eleito e duas desconhecidas a interagir.

Não sei o que vai dar isto. Christine Ford ou Brett Kavanaugh, um deles, a ser desmascarado? O juiz a safar-se e a chegar ao Supremo, não o merecendo? Ou a acusadora consegue afastá-lo injustamente do Supremo?... Não sei. Sei é que voltei a ver a América salvar-se. Ah, e nem sempre são exclusivamente homens a salvá-la.

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