Da família real ao Brexit: o novo 'annus horribilis' de Isabel II

Em 1992, os casamentos de três dos filhos da rainha desmoronaram-se em público e o Castelo de Windsor ardeu. Isabel II considerou-o um ano horrível. Como irá recordar 2019? (Texto publicado originalmente a 30 de novembro de 2019)

O discurso servia para assinalar os 40 anos de reinado, mas acabou por ficar marcado pelo balanço daquele que a própria rainha apelidou de annus horribilis. Estávamos a 24 de novembro de 1992 e para trás ficava o divórcio da filha Ana e a separação do filho André, as revelações chocantes sobre o casamento do príncipe Carlos com Diana (que se separariam oficialmente ainda nesse ano), e, apenas quatro dias antes, o incêndio do Castelo de Windsor. Agora, 17 anos depois, 2019 também se arrisca a ficar nas memórias da monarca como um ano horrível: aos problemas familiares com o envolvimento de André com o pedófilo Jeffrey Epstein, à relação fria entre os netos William e Harry e ao acidente de carro a envolver o marido junta-se o caos com o Brexit, que ameaçou pôr em causa a sua isenção face à política.

"1992 não é um ano para o qual vá olhar com prazer. Acabou por se tornar um annus horribilis", disse Isabel II no tal discurso em Guilhall, referindo-se diretamente apenas ao "trágico incêndio de Windsor". O fogo no palácio que era residência privada dos monarcas britânicos há quase mil anos causou danos no valor de 36,5 milhões de libras (42,8 milhões de euros), com as ruínas a tornarem-se um símbolo do descontrolo que se vivia na família real. No meio dos escândalos, os contribuintes rejeitaram ser eles a assumir os custos da reconstrução (pensava-se que chegariam aos 60 milhões), obrigando a rainha a começar a pagar impostos sobre os rendimentos e a abrir ao público a outra residência oficial, o Palácio de Buckingham, para ajudar a custear o restauro.

Neste ano, há vários fogos a lavrar, mas os custos de a rainha ver a família a desmoronar-se ainda estão para ser contabilizados.

Príncipe André e o escândalo Epstein

A situação mais grave envolve o príncipe André, cuja amizade com o empresário norte-americano Jeffrey Epstein o deixou em maus lençóis. O milionário foi acusado de abusar e pagar para ter sexo com menores, mas chegou a um acordo na justiça para cumprir pena apenas por pagar por prostitutas menores. O caso voltou a público neste ano, e em agosto ele morreu na prisão enquanto aguardava novo julgamento. André esteve na casa de Epstein em várias ocasiões e há pelo menos uma mulher, menor na altura, que diz ter sido obrigada a ter relações sexuais com o príncipe.

Numa rara entrevista à BBC, que foi para o ar a 16 de novembro, André falou abertamente da sua relação com Epstein, rejeitando novamente as acusações de ter tido sexo com uma menor. E procurou dar justificações para tudo, incluindo que num dos dias em que é acusado de estar com a jovem terá ficado em casa, depois de ter levado a filha a uma festa num restaurante Pizza Express. A entrevista que devia acabar com todas as dúvidas foi contudo considerada "desastrosa".

O príncipe acabou por se afastar dos deveres reais, depois de ter sido chamado pela mãe a Buckingham e sob alegada pressão do irmão Carlos (que estava numa viagem pelo Pacífico Sul). André considerou que a sua antiga associação com Epstein "tornou-se uma grande perturbação no trabalho da minha família". Várias empresas e associações que tinham vínculos com ele estão a distanciar-se. Mas a situação não acalma. A mulher que diz ter sido forçada a ter sexo com André deu também uma entrevista à BBC, que será emitida na segunda-feira. "Ele sabe o que aconteceu, eu sei o que aconteceu. E só um de nós está a dizer a verdade."

Os netos de costas voltadas

Além do problema com o filho, Isabel II tem visto como a relação dos netos William e Harry se deteriora. E em público. O filho mais novo de Carlos e Diana, que um ano após se casar com a atriz norte-americana Meghan Markle foi pai de Archie em maio, admitiu num documentário na ITV que não tem sido fácil lidar com a pressão mediática em torno da família. E apresentou mesmo queixa na justiça contra os tabloides, fazendo uma referência à morte da mãe, quando era perseguida pelos paparazzi em Paris, em 1997 (outro ano complicado para a família real britânica).

Harry e Megan (a atriz também admitiu que não tem sido fácil ser mãe debaixo dos holofotes) têm sido alvo de críticas por quererem privacidade para o filho, com os tabloides a alegar que o acesso a Archie (nomeadamente no batizado) era o preço a pagar por usarem o dinheiro dos contribuintes para renovar a sua casa. Os duques de Sussex foram ainda criticados por terem feito quatro viagens em aviões privados no espaço de 11 dias, ao mesmo tempo que têm um discurso a favor do ambiente.

No início de 2018, não parecia haver problemas entre os Fab Four - como eram conhecidos os Beatles e o nome pelo qual os media começaram a chamar William e Kate e Harry e Meghan. Mas isso mudou neste ano. No mesmo documentário da ITV, Harry admitiu que as coisas não estavam bem com o irmão mais velho - "inevitavelmente as coisas acontecem". Os duques de Sussex abandonaram no início do ano a fundação de caridade que tinham em conjunto com os duques de Cambridge, desejosos de se focarem na sua própria agenda, mais internacional.

O acidente do duque de Edimburgo

O ano da rainha já tinha começado mal quando o marido, Filipe, esteve envolvido num acidente de carro. O duque de Edimburgo, de 98 anos, conduzia fora da propriedade real em Sandringham quando embateu contra outro veículo, onde seguiam duas mulheres e um bebé de 9 meses. Nem o duque nem a criança ficaram feridos.

Levantaram-se então dúvidas sobre se Filipe devia ou não continuar a conduzir, não tendo caído bem o facto de o duque ter sido fotografado 48 horas após o acidente novamente ao volante. E sem cinto de segurança.

O príncipe anunciou em 2017 que se "reformava", afastando-se dos olhares públicos, mas deixando a rainha - com quem está casado há 72 anos - sozinha nos afazeres reais. Apesar de já ter passado parte da agenda para o príncipe Carlos e para o príncipe William, Isabel II não parece disposta a abdicar. No seu 21.º aniversário, a então princesa deixou uma promessa: "Declaro diante de vós que toda a minha vida, seja longa ou curta, será dedicada ao vosso serviço."

Isso não implica que não haja rumores de que possa passar a coroa ao filho mais velho (os mais radicais dizem mesmo que poderá passá-la ao neto). Diante do ano complicado de 2019, há quem diga que poderá fazê-lo quando completar 95 anos, ou seja, em abril de 2021. Outros alegam que só se estivesse incapacitada é que Carlos assumiria o papel de príncipe regente e que ela nunca abdicará.

Brexit e a suspensão do Parlamento

Além dos problemas com a família, a rainha viu-se ainda neste ano envolvida no caos do Brexit, quando o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, decidiu prorrogar (suspender) o Parlamento em outubro durante cinco semanas. A oposição acusou o líder conservador de querer evitar responder aos deputados durante o processo de saída da União Europeia - que acabaria por não se concretizar a 31 de outubro e desencadear eleições antecipadas, no próximo dia 12.

Isabel II teve de dar o seu consentimento para tal decisão (normalmente é apenas uma formalidade), que foi depois considerada como "ilegal e sem efeito" pelo Tribunal Constitucional. Johnson foi acusado de mentir à rainha em relação aos argumentos para fazer a prorrogação, o que ele negou, mas o caso deixou a monarca - que deve ser sempre isenta - numa posição complicada. Entretanto, o Brexit continua em suspenso, com Johnson a fazer campanha por uma maioria que lhe permita ultrapassar o impasse no Parlamento.

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