O único líder europeu


Uma das vítimas da pandemia pode ser a Europa? Foi o primeiro-ministro de Portugal que disse. "A União Europeia ou faz o que tem de fazer ou a União Europeia acabará." Terá sido o primeiro líder político a dizê-lo, mas não será o único europeu a pensá-lo.

Na resposta à doença, como a carta do embaixador representante permanente italiano junto da UE provou, os Estados membros foram pouco unidos. Ainda vão a tempo de se corrigirem, mas para muitos será demasiado tarde.

A Comissão Europeia tem feito coisas úteis, do financiamento de investigação à compra conjunta de material, mas são os Estados, não Ursula von der Leyen nem Charles Michel, que têm hospitais, Forças Armadas e cientistas. Era essa Europa, que muitos esperavam que tivesse surgido imediatamente, que não aconteceu.

O combate conjunto à doença, porém, parece não ser a aflição dos chefes. À excepção de Itália e, eventualmente, da Espanha, os Estados europeus não se queixam de não terem ido ajudar nem sido ajudados pelos outros.

É na resposta à outra crise, à económica, que a crítica política à dimensão europeia se faz. Entre europeus, em geral, e líderes políticos, em particular. E já não apenas entre pares. O que agrava a acrimónia entre os povos.

A questão principal anda à volta de alguma espécie de mutualização da dívida que aí vem. Resumidamente, que os mais ricos partilhem com os restantes as melhores condições que têm quando pedem emprestado. Uma exigência que distingue mais geografias (economias) do que ideologias. O maldito Dijsselbloem das mulheres e vinho dos povos do Sul ou a primeira-ministra finlandesa que resiste às eurobonds são socialistas, mas são sobretudo do Norte contribuinte líquido, como Merkel.

Para os federalistas de sempre, esta é a grande oportunidade (ou prova da necessidade) de criar uma união orçamental, ou muito perto disso. O salto em frente. Para os aflitos, também. Acontece que ao lado da mutualização vêm as condicionantes. Ninguém aceita partilhar risco sem poder interferir na sua redução. Com a mutualização virá uma qualquer espécie de federalização orçamental. Quem quer os benefícios dos juros dos ricos terá de aceitar as suas imposições orçamentais.

A ideia de que a solidariedade é a essência da Europa faz todo o sentido para quem dela beneficia, mas, sem surpresa, vende pior nos eleitorados que a financiem. E o ressentimento, ou a acusação de que os ricos o são porque exploram os pobres do Sul, não é provável que aproxime. Terá de haver mais do que isso, para ser um argumento europeu.

Qualquer economista reconhece que as diferentes circunstâncias orçamentais têm consequências na capacidade de cada país responder a esta crise. E há explicações para essas diferenças, evidentemente. Mas a dimensão avassaladora do que aí vem vai muito além do que as contas públicas de cada um podem aguentar. Acresce que cada um dos países europeus isoladamente não consegue repor a sua situação económica, nem a sua relevância global, isoladamente. A miséria de uns será a ruína de todos.

Os 27 chefes de Estado e de governo da Europa ainda vão a tempo de se meterem em 27 aviões e, afastados dois metros uns dos outros mas unidos, dizerem o que o Papa Francisco tentou explicar na sexta-feira passada: ninguém se salva sozinho. Não é só por solidariedade, é por necessidade também.

Consultor em assuntos europeus

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