Porque é que Costa trata pior o Bloco do que o PCP?

Nas últimas semanas acumulam-se sinais de que, no PS, foi decidido distância ao Bloco - e fazer o contrário ao PCP. O DN tentou perceber porquê.

Já ninguém disfarça: nem no PS nem no Bloco de Esquerda se consegue ouvir uma voz que seja negando que a relação entre os dois partidos entrou numa nova fase - uma fase de deterioração, em que os socialistas vão dando sucessivas negas às propostas que os bloquistas vão fazendo. E que essa atitude do PS (começando pelo próprio António Costa) contrasta profundamente com as aproximações que os socialistas têm vindo a fazer ao PCP.

Ao episódio da chamada "taxa Robles" - em que António Costa e Carlos César puseram abruptamente fim às negociações que o BE estava a ter com o Ministério das Finanças para criação no OE 2019 de uma taxa penalizadora da especulação imobiliária - foram-se sucedendo nos dias seguintes outros episódios. A saber:

Lei de Bases da Saúde

É a lei que dá enquadramento geral ao SNS. Já está na comissão parlamentar de Saúde um projeto de lei do Bloco de revisão da lei - o qual foi feito com base num anteprojeto elaborado por uma figura de referência no BE e outra de referência no PS, respetivamente João Semedo e o "pai" do SNS António Arnaut, ambos falecidos recentemente. A principal intenção dos bloquistas é acabar com as PPP da Saúde. E têm pressionado o governo para apresentar rapidamente a sua própria proposta. No último debate quinzenal, quarta-feira, interpelado por Catarina Martins, António Costa recusou comprometer-se com qualquer urgência. Disse apenas que "até ao final da legislatura" o executivo apresentará o seu articulado. Este é um dos dossiês que irritam mais os socialistas. Isto por causa da insistência do partido de Catarina Martins em explorar a favor dos seus argumentos a colaboração de António Arnaut, que é no "panteão" dos fundadores do PS provavelmente a segunda figura mais importante, depois de Mário Soares.

Cuidador informal

No último debate quinzenal, Catarina Martins pediu explicitamente a António Costa que no OE 2019 coloque uma verba que permita operacionalizar o estatuto do cuidador informal (pessoas que cuidam de pessoas incapacitadas). A líder bloquista invocou em seu favor as pressões públicas que o Presidente da República tem feito para dar andamento a este estatuto. Com alguma brutalidade, Costa chutou a exigência bloquista para canto: "é prematuro" porque "é preciso fazer contas". Toda a gente ficou com a convicção de que a subsidiação estatal dos cuidadores informais não terá cabimento no próximo Orçamento do Estado.

Aquarius

O Bloco de Esquerda pediu ao governo - via MNE - que atribua bandeira portuguesa ao Aquarius, o navio que, desde fevereiro de 2016, já salvou no Mediterrâneo mais de 25 mil pessoas que tentam fugir do Norte de África para a Europa. Por pressão de Itália, o Aquarius viu Gibraltar tirar-lhe a bandeira e depois o Panamá. "Não é solução", respondeu o chefe da diplomacia portuguesa, Augusto Santos Silva. Porque "a solução está em construir um quadro de decisão europeu" e "tudo aquilo que nos desviar desse quadro europeu é, do meu ponto de vista, errado". Ou seja: "É como a questão de alguns quererem que outros países disponibilizem os seus portos para acolher os navios que, à luz do direito internacional, precisam de desembarcar pessoas que recolheram no alto-mar em situação de perigo. Ora, se os países europeus passassem a fazer esse tipo de disponibilização, estavam a desonerar os Estados que, à luz do direito internacional, têm a obrigação de acolher esses navios."

Leques salariais

O PS juntou-se ontem ao PSD e ao CDS para chumbar um projeto de lei do Bloco que penalizaria empresas com grandes diferenças salariais entre ordenados de topo e ordenados de base. Acontece que o PS tem um projeto de resolução (uma recomendação ao governo, sem valor vinculativo) que defende isso mesmo. O deputado socialista Ivan Gonçalves, líder da JS, justificou o chumbo socialista com o argumento de que este tema terá sempre de ser discutido na concertação social, com patrões e sindicatos. Uma "desculpa esfarrapada", respondeu o deputado do BE José Soeiro. "Espero que a resolução do PS não sirva de biombo para nada se fazer contra as desigualdades salariais."

"É patente que o PS tem alimentado com o BE uma atitude de desqualificação."

Falando ontem ao DN, o dirigente e deputado bloquista José Manuel Pureza reconheceu que "é patente que o PS tem alimentado com o BE uma atitude de desqualificação". Concordando com declarações à TSF de Francisco Louçã, o qual disse que os socialistas têm agora com os bloquistas "uma estratégia de tensão", Pureza explicou o comportamento de António Costa, do governo e do PS como "não tendo nada de substância" mas resultando apenas de "uma estratégia de natureza eleitoral".

Dito de outra forma: como os eleitorados do PS e do BE funcionam em modo de vasos comunicantes - ou seja, movimentam-se de um partido para o outro -, os socialistas decidiram-se agora por "ir derrubando as bandeiras do BE para depois as fazerem suas". A isto, acrescenta, o Bloco tem de responder relativizando e enquadrando o comportamento do PS na aproximação das eleições legislativas - e ir continuando, "todos os dias", a apresentar as suas propostas.

No PS, dois dirigentes de topo falaram ao DN - pedindo o anonimato - em "irritações epidérmicas" dos socialistas com os bloquistas cada vez mais frequentes (o caso da revisão da lei de bases do SNS será o exemplo máximo).

Admitindo ambos os interlocutores que o PS tem mais a recear eleitoralmente do BE do que do PCP, não enquadram porém o crescente distanciamento do partido face aos bloquistas numa estratégia definida ao mais alto nível e depois obedientemente aplicada tanto pelo Executivo como pelo grupo parlamentar. "Não é algo concertado, são respostas que vão surgindo todos os dias a interpelações que vêm do lado do Bloco", explica um deles. E essas sucessivas "interpelações" postas pelo BE em prática significam, no entender da cúpula socialista, que "o BE está a querer cavar o eleitorado do PS e o PS não o pode permitir".

Quanto ao PCP, o comportamento do PS é diferente porque, genericamente, os comunistas "são mais institucionais e mais previsíveis", limitando-se a "defender as suas bandeiras, que toda a gente sabe quais são, sem com isso tentar moralizar sobre o comportamento do PS". Além do mais, nas negociações legislativas de todos os dias, o PS e o governo nada têm a recear do PCP, nomeadamente fugas de informação e utilização da opinião pública como instrumento de pressão. Portanto, em síntese, do que se trata na diferença de relacionamento do PS com o BE e com o PCP é de, como sintetiza um dos dirigentes socialistas ouvidos pelo DN, "premiar a lealdade e não premiar a deslealdade". "O Bloco é mais nervoso, mais conjunturalista, mais criativo" e ao mais alto nível no PS a paciência acabou-se.

Como responderão os bloquistas a isto? "É preciso jogar xadrez. E saber para onde vão as peças. O Bloco deve ser a garantia do acordo", disse Louçã à TSF. "Sangue-frio e negociação, negociação, negociação...", acrescentou, ao DN, José Manuel Pureza.

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