À volta de duas fotos

Na foto, do ano passado, uma imigrante clandestina hondurenha, presa na fronteira do rio Grande, já no Texas, é vasculhada por um guarda com luvas cirúrgicas. Procuro na foto assunto para pensar, porque trazer assuntos do mundo para pensarmos é uma das utilidades das boas fotos. Naquela, as caras de ambos não são vistas, da clandestina e do guarda fronteiriço. Mas às luvas conheço-as das séries policiais científicas. Hoje, as autoridades protegem-se mais e é justo, são servidores públicos. Num bolso de um suspeito pode haver um objeto cortante, sei lá.

Na foto, ainda, e escolhida pelo fotógrafo como personagem central, estava a filha da imigrante. De 2 ou 3 anos, ela levanta a cabeça, vê o que não vemos - a cara da mãe, frágil, e a cara do polícia, mandão - e desata em lágrimas. É aí que entendo a dimensão que a luva azul dá àquela fotografia. Indigna-me e justifica a minha indignação. A pequenita, que não vê a foto, vive-a em direto, não percebeu, nem a fotografia, nem o que a levou ali, nem o cuidado da luva, nem o que ele, esse cuidado, contrastava com o tamanho do descuido com ela. Ela estava aterrorizada e podia não estar.

Devemos ter pudor da nossa pena, se não estamos a um passo de ganhar alguma coisa com o mal dos outros...

Aquela foto era muito mais do que uma indignação impotente. Uma indignação impotente é sentir muito forte e, ao mesmo tempo, o meu sentir não valer de nada. Há qualquer coisa de indecente abusar dessas indignações. Sim, a compaixão conforta-nos a esperança de que não estamos ainda indiferentes ao mal dos outros. Sim, conforta-nos - mas é necessário que guardemos para nós o sentimento. Devemos ter pudor da nossa pena, senão estamos a um passo de ganhar alguma coisa com o mal dos outros...

Mas a foto de que tenho vindo a falar não era dessas impotentes. As luvas cirúrgicas que o polícia usava significavam ter havido tempo e condições para se agir cuidando dos envolvidos: se houve com o polícia, devia ter-se cuidado da menina. Deixada ao abandono e ao choro desatado significou o que ela era para alguns: um dano colateral.

E, então, exposto esse crime, a nossa pena pôde transformar-se em indignação: aquele polícia (e os seus, de cima a baixo, até à Casa Branca) é o mal. Aqueles que nas fronteiras do rio Grande, nos boat people do Mediterrâneo e nas caixas de comentários dos nossos jornais (e cada vez mais nos textos dos nossos jornais), todos os que não veem os miseráveis nem os desapossados são polícias com luvas cirúrgicas. O mal.

Aquela foto ensinou-me, não se limitou a dar pasto ao meu desconforto. Era uma foto para mostrar e propagandear, ser arma. Outra coisa é a foto que esta semana me emocionou, e a meio mundo: um pai abraçado à filhinha, ambos de borco, afogados no rio Grande.

Mas essa foto não é a da clara e fotografada culpa - senão a que sempre podemos assacar às linhas tortas com que Deus às vezes se diverte.

Essa foto não é um documento sobre a política dos que fazem do muro a solução única. Isto é, eu posso lá pôr a culpa do muro, como também poderia evocá-lo se a tragédia tivesse acontecido num atropelamento do pai e da filha, semanas antes, a milhares de quilómetros dali, quando a família partiu com o sonho da América... Mas essa foto não é a da clara e fotografada culpa - senão a que sempre podemos assacar às linhas tortas com que Deus às vezes se diverte.

Uma foto pode documentar: por exemplo, o cuidado que se não teve e podia ter com uma menina. As desse tipo são úteis por uma causa. Uma foto pode sensibilizar: por exemplo, a de um pai abraçado a uma filha, afogados. As desse tipo são boas para nos fazer sentir vivos e, com decência, guardá-las bem dentro de nós.

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