Hepatite C: 25 mil pedidos de tratamento em três anos, mas só 774 casos notificados

Relatório da Direção-Geral da Saúde revela diferença abissal entre tratamentos pedidos ao Infarmed e os casos notificados pelos médicos. E alerta: profissionais da saúde devem estar sensibilizados para a notificação, já que a meta traçada para 2030 é conseguir que tais infeções deixem de ser uma ameaça à saúde pública.

As hepatites virais ainda são uma causa importante de doença e de morte no mundo e também em Portugal. Em 2016, a Organização Mundial da Saúde (OMS) considerou que todas as infeções virais que atingem o fígado - A, B, C, D e E - são uma ameaça à saúde pública, que tem de ser contida até 2030. Portugal já definiu as metas que tem a alcançar.

No relatório que hoje é divulgado pela Direção-Geral da Saúde (DGS), e que traça o retrato epidemiológico da doença no nosso país, é elogiado o trabalho que tem sido feito até agora pelas entidades da saúde. Graça Freitas, diretora-geral, refere que "devemos orgulhar-nos das taxas de vacinação alcançadas", sobretudo no que toca à hepatite B.

Mas não só. É preciso não esquecer que Portugal também foi pioneiro nos tratamentos com antivirais de ação direta, cujas taxas de cura são superiores a 96%. No entanto, é sublinhado que ainda há muito a fazer. "A prevenção, o rastreio, o diagnóstico e o tratamento são as medidas centrais conducentes à eliminação das hepatites virais enquanto ameaça à saúde pública até 2030", lê-se no documento.

Uma das situações a resolver é a discrepância existente entre o número de pedidos de medicação antiviral direta para a hepatite C ao Infarmed de 2015 a 2019 e os casos notificados pelos profissionais da saúde. De acordo com o documento, chegaram ao Infarmed durante este período cerca de 25 mil pedidos de medicação, mas o número de casos notificados pelos profissionais ficou-se pelos 774.

Segundo a DGS, esta situação revela bem a dimensão da subnotificação da doença no nosso país. Por isso, "importa sensibilizar todos os profissionais da saúde para a obrigatoriedade da notificação e para a sua importância, enquanto base do conhecimento epidemiológico tão necessário nesta área e fundamental no apoio à definição de estratégias futuras", pode ler-se no documento.

A OMS estima que na região europeia existam mais de 14 milhões de pessoas afetadas por hepatite C. A cada ano morrem mais de 112 mil devido a cirrose e/ou carcinoma hepatocelular relacionada com este tipo de hepatite. Os homens entre os 35 e os 44 anos são os mais afetados, mais do que as mulheres, numa proporção de 1,6, sendo que estas, quando são mais atingidas pela infeção, são bem mais novas, entre os 25 e os 34 anos.

Em Portugal, em 2018, foram notificados pelos profissionais da saúde 269 novos casos, 148 são crónicos, 11 agudos e 17 desconhecidos. À semelhança do ano anterior, a maioria dos casos (62,4%) atingiram pessoas do sexo masculino e com idades entre os 40 e os 59 anos. Em 65% dos casos, a forma de transmissão da doença está maioritariamente associada ao consumo de drogas por via injetável. No mesmo ano, os dados revelam que nove pessoas morreram devido a hepatite C, em 2017 foram 18, mas, mais uma vez, o próprio relatório alerta para o facto de estes números poderem estar subdimensionados.

Hepatite B: taxa de vacinação acima dos 95%

Mais de 15 milhões de pessoas vivem com hepatite B na Europa. Destas, 20% a 30% podem vir a ter complicações hepáticas severas. Neste ano, o Centro Europeu de Prevenção e de Controlo da Doença já veio alertar para o facto de o número de novas infeções notificadas em 30 países, incluindo Portugal, continuar elevado, sendo certo que a maioria das infeções são crónicas.

Em 2017, nestes 30 países foram notificados 26 907 casos de infeção de hepatite B, o que corresponde a uma taxa bruta de 6,7 por cem mil habitantes. A taxa mais alta de infeção foi detetada entre os homens e na faixa etária dos 35 aos 44 anos. No entanto, a taxa dos casos agudos está a diminuir, o que está de acordo com as tendências globais refletindo o impacto das taxas de vacinação.

Em Portugal, os dados oficiais revelam que foram notificados 175 novos casos de hepatite B em 2017, 71 crónicos, 39 agudos e 65 desconhecidos. Em 2018, foram registados 174 casos, sendo 84 crónicos, 34 agudos e 56 desconhecidos. Mais uma vez, a maioria dos casos atingiu os homens em grupos etários que não foram atingidos pela vacinação, com idades superiores aos 37 anos. No entanto, a taxa atual de cobertura de vacinação é superior aos 95%. Em 42% dos casos a transmissão da doença foi por via sexual.

A DGS sublinha que também neste tipo de infeção há uma subnotificação da doença, sobretudo no que respeita aos casos crónicos. Por isso, refere o relatório, é urgente "a adoção de estratégias que nos permitam, num futuro breve, recolher de forma sistemática e automática esta informação, tanto mais que a mesma necessita de ser monitorizada para se avaliar o cumprimento das metas definidas pela OMS até 2030.

Em Portugal, a implementação da vacina universal contra a hepatite B ocorreu em 1994, inicialmente para os adolescentes entre os 11 e os 13 anos, a partir do ano 2000 passou a ser administrada a todos os recém-nascidos.

O termo hepatite viral refere-se a uma inflamação no fígado, em regra causada por um de cinco vírus (A, B, C, D, E) muito distintos entre si. A nível mundial, a hepatite A é a mais frequente, mas nos países desenvolvidos são as virais crónicas, particularmente a B e a C, as que têm maior impacto tanto em morbilidade como em mortalidade.

A hepatite A é a forma de infeção que mais tem diminuído, apesar de, em 2016, ter havido um surto a nível europeu, que afetou 22 países, incluindo Portugal. Foi rapidamente controlado.

De acordo com as autoridades, a doença passou a ser mais rara e quase sempre associada a pessoas que se deslocaram a países onde ainda permanece endémica. A população que ainda é mais suscetível a esta infeção está acima dos 55 anos.

Para os próximos anos, o plano de ação da DGS aposta no conhecimento da prevalência das hepatites B e C na população portuguesa, para que se elimine a subnotificação da doença, e na prevenção, no rastreio e no diagnóstico da infeção.

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