Premium Ondas de calor deste verão serão o novo normal neste século

Calor a mais, frio onde é suposto estar calor, tempestades ferozes, secas e incêndios mortíferos. O verão está muito esquisito. Saturada dos gases com efeito estufa, a atmosfera começa a responder com fenómenos extremos cada vez mais frequentes, intensos... e muito assustadores.

O tempo anda avariado. Desde que começou, o verão tem sido uma sucessão imparável de fenómenos anómalos por todo o hemisfério norte, com ondas de calor intensas influenciadas por secas, e incêndios florestais que não dão tréguas junto ao Ártico, enquanto noutras regiões, como Portugal e Espanha, se vivem temperaturas abaixo da média para a época - só nesta semana, a partir de quinta-feira, deverá chegar, finalmente, o verão a sério. Até agora tem sido tudo ao contrário - a última sexta-feira foi o dia mais quente deste ano no continente europeu, com os termómetros a chegar aos 37º Celsius no Reino Unido e aos 39 graus na Alemanha... e com Portugal fora destas contas.

A história repete-se nos outros continentes: ondas de calor mortíferas na Califórnia (Estados Unidos), Quebeque e Ontário (Canadá), Sibéria e Japão, enquanto noutras regiões destes países faz frio e é preciso andar de guarda-chuva (ver gráfico).

Todos juntos, estes fenómenos fazem soar os alarmes e deixam uma certeza: já anda aqui a marca das alterações climáticas. Como explica o investigador Ricardo Trigo, que lidera o grupo de climatologia do Instituto Dom Luiz da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, "não há dúvida de que as alterações climáticas estão aí e que há hoje uma maior probabilidade de ocorrerem alguns destes fenómenos extremos, como as secas no Mediterrâneo, as ondas de calor no sul e no norte da Europa, e também tempestades mais fortes".

Massas de ar paradas

Para explicar os padrões alterados deste verão é preciso olhar para a circulação atmosférica, que nos últimos dois meses não tem sido a habitual para esta época do ano. Na Europa, a "culpa" do verão atípico é de uma massa de ar (um anticiclone de bloqueio) que se tem mantido muito para norte, impedindo que as depressões que vêm do Atlântico cheguem ao continente nas latitudes do Reino Unido, Irlanda, ou mais a norte ainda, como é habitual nesta altura. Desde há meses que a nebulosidade está a ser empurrada mais para sul, e Portugal tem sentido isso na pele.

As temperaturas altas no Ártico favorecem um comportamento anómalo da corrente de jato, que, por sua vez, causa outro tipo de desequilíbrios na atmosfera

A contribuir para a imobilidade teimosa dessa massa de ar a norte estão também as correntes de jato, os ventos atmosféricos que correm de oeste para leste a cerca de dez quilómetros de altitude, e que são determinantes para as condições meteorológicas na Europa e no resto do planeta. Essas correntes de jato correm também mais a norte do que é habitual e não há, pelo menos para já, a expectativa de que as coisas se alterem muito.

No resto do hemisfério norte, as ondas de calor também parecem estar para ficar, com as zonas de altas pressões imobilizadas sobre muitos territórios, enquanto noutros locais ocorrem desequilíbrios contrários, com tempestades extemporâneas e episódios de precipitação extremos, como aconteceu no Japão entre 28 de junho e 8 de julho - uma superfície frontal carregada de vapor de água ficou parada sobre o território durante vários dias. E a precipitação extrema deixou um rasto de destruição e causou 200 vítimas mortais.

Para os especialistas, e para a própria Organização Meteorológica Mundial (OMM), não restam dúvidas de que estamos perante "a assinatura de alterações climáticas", como diz Ricardo Trigo. "Sempre houve ondas de calor e secas", mas "a sua maior frequência e magnitude é compatível com o que os modelos indicam nos últimos dez anos", garante.

Pedro Miranda, também do Instituto Dom Luiz, é da mesma opinião. "Este é o resultado de um mundo a aquecer", afirma. "Estamos perante o que os modelos têm previsto, com anos sucessivos, na última década, a bater recordes de temperatura média, e com o aumento de fenómenos extremos como estes."

A análise da OMM vai exatamente no mesmo sentido. "Os fenómenos de calor extremo e de precipitação estão a aumentar em resultado das alterações climáticas e, embora não seja possível atribuir cada um dos episódios extremos de junho e julho às alterações climáticas, eles são compatíveis com a tendência geral de longo prazo, devido ao aumento das concentrações de gases com efeito estufa."

O perigo que vem do Ártico

Na prática, a atmosfera do planeta já ganhou em média mais um grau Celsius desde a era pré-industrial - em Portugal é mais de um grau, e no Ártico já são mais três graus -, e por causa disso os padrões da circulação atmosférica estão a alterar-se. Os estudos documentam isso muito bem e uma das chaves para compreender o que está a acontecer passa, justamente, pelo Ártico. Nos últimos invernos houve ali dias em que a temperatura a meio da noite polar, no norte da Gronelândia, esteve acima dos zero graus durante vários dias, quando deveria rondar normalmente os 20 ou 30 graus negativos. "São anomalias de 20 graus", assinala Ricardo Trigo. E explica: "Estes desvios de temperatura no Ártico favorecem um comportamento anómalo da corrente de jato, que, por sua vez, causam outro tipo de desequilíbrios na atmosfera."

Os fenómenos de calor extremo e de precipitação estão a aumentar em resultado das alterações climáticas

Sabe-se hoje que sempre que as correntes de jato viajam mais para norte ou mais para sul, consoante as zonas, isso causa algum tipo de anomalia, e é isso que está justamente a ocorrer agora. "Neste momento, este e outros mecanismos estão a funcionar ao mesmo tempo, o que implica que estão a amplificar as ondas de calor na Europa, no Japão e na América", adianta Ricardo Trigo.

Isto é o presente, num mundo a aquecer. Aos cientistas já não restam dúvidas de que estes fenómenos extremos serão o novo normal dentro de poucas décadas.

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