O estado da arte

As recentes notícias sobre o desconhecimento do paradeiro de mais de cem obras da Colecção de Arte do Estado - algumas das quais se crê terem sido roubadas - recordaram-me um romance que publiquei com grande entusiasmo há alguns anos. Adoração, de Cristina Drios, debruça-se sobre o período que Caravaggio passou na Sicília em 1609, aguardando um indulto papal para um crime de sangue que cometera em Roma e pintando Natividade com São Francisco e São Lourenço, quadro que, reproduzido na capa do livro, foi infelizmente roubado em 1969 na cidade de Palermo. Apesar de o romance avançar hipóteses muito hábeis para a autoria do furto, o quadro na realidade nunca apareceu, tal como se verificou com obras-primas de mestres como Vermeer, Rembrandt, Van Gogh, Monet, Cézanne, Picasso, enfim, a lista é longa, e há suspeitas de que algumas acabaram destruídas - como se supõe ter sido o caso de um quadro de Picasso que o ladrão escondeu num caixote de lixo, mas terá ido parar ao camião triturador antes de ele ter podido recuperá-lo.

Recentemente, porém, uma tela de Klimt foi encontrada na mesma galeria donde tinha desaparecido e, na Alemanha, foram resgatadas outras cinco telas dos séculos XVI e XVII que - soube-se agora - tinham sido levadas para a RDA há quarenta anos, atravessando uma das mais policiadas fronteiras do mundo. Mas estes milagres são raros e, por isso, pergunto-me de que paredes de que mansões altamente fortificadas penderão neste momento muitos quadros que daríamos tudo para ver ao vivo, e não apenas em livros de arte. Que mafiosos terão o privilégio de jantar a olhar para a Adoração, nome por que ficou conhecido o quadro de Caravaggio que referi acima?

Resta-nos o consolo de que a predominância da "instalação" nas artes plásticas inibirá doravante a prática do roubo. Além de que muitas obras não são passíveis de reconstituição noutros cenários, aposto que poucas pessoas as quereriam ter em casa, incluindo as que nem sequer as reconhecem como arte. Num museu italiano, por exemplo, montaram ao fim da tarde uma instalação que incluía, além de duas telas, beatas de cigarro, garrafas vazias, serpentinas e confetti e que pretendia ilustrar o hedonismo e a futilidade dos anos 1980; mas a funcionária da limpeza, quando chegou ao museu na manhã seguinte, achou que tinha havido uma festa e apressou-se a varrer e deixar tudo num brinquinho. A obra de arte não precisou, afinal, de ser roubada para acabar no lixo. Adeus, futuro.

Editora e escritora. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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