Voto étnico e religioso vai definir novo presidente na Guiné-Bissau

Domingos Simões Pereira, apoiado pelo PAIGC, e Umaro Sissoco Embaló, apoiado pelo MADEM-G15, disputam neste domingo a segunda volta das presidenciais na Guiné-Bissau.

A onda dos votos étnicos e religiosos poderá ter uma grande influência na escolha entre os dois candidatos à segunda volta das presidenciais na Guiné-Bissau neste domingo: Domingos Simões Pereira, apoiado pelo Partido Africano para Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), e Umaro Sissoco Embaló, apoiado pelo Movimento para a Alternância Democrática (MADEM-G15). Sobretudo se até ao encerramento da campanha a sociedade civil não conseguir convencer as comunidades étnicas e religiosas do país a votar nos projetos dos dois candidatos e não nas suas narrativas discursivas etnico-religiosas que têm marcado os comícios eleitorais.

O início da campanha para a segunda volta das presidenciais dividiu por completo a população da Guiné-Bissau entre Domingos Simões Pereira e Umaro Sissoko Embaló. Famílias inteiras, imãs, padres, pastores, amigos, colegas, organizações da sociedade civil, movimentos de apoio aos candidatos derrotados na primeira volta e as próprias direções dos partidos segmentaram-se em todas as regiões do país por ausência de uma visão clara sobre os projetos presidenciais dos dois candidatos.

A campanha eleitoral começou com as acusações mútuas entre os dois candidatos. Umaro Sissoco Embaló acusa Domingos Simões Pereira de não reunir as condições de ser o presidente da concórdia nacional que a Guiné-Bissau precisa nos próximos cinco anos. Domingos Simões Pereira, por sua vez, acusa Umaro Sissoco Embaló de não ter uma visão de mundo contemporânea para ser o presidente da República a quem cabe o papel de acabar com a crise política e institucional em que o país mergulhou nas últimas duas décadas.

Contudo, à medida que se iam formando as coligações de apoios com os candidatos derrotados na primeira volta das presidenciais, começou a surgir um certo equilíbrio. Ou melhor, começaram a atenuar-se as fronteiras da divisão etnico-religiosa que havia em relação aos dois candidatos. Todavia, a narrativa dos discursos eleitorais está ainda assente na temática da etnicidade e da religiosidade. Os dois candidatos procuravam com a sua narrativa identificar-se e aproximar-se de uma determinada comunidade étnica e religiosa no sentido de a persuadir a votar na sua candidatura na segunda volta das presidenciais.

Orgulho na posição dos militares

Quase no fim da campanha, os eleitores guineenses mostraram sinais de não se importarem tanto com a narrativa religiosa e a etnicidade dos candidatos, desde que o vencedor saiba estabilizar política e institucionalmente a pátria de Amílcar Cabral. Consideram falso o peso e a influência que a questão étnica e religiosa poderá ter no resultado final da votação de domingo. Por outro lado, orgulham-se da posição dos militares, a quem não poupam elogios por não terem assumido posições políticas em relação aos dois candidatos não obstante um deles, Umaro Sissoco Embaló, ser general das Forças Armadas Revolucionária do Povo (FARP), na reserva.

Funcionária pública, Fernanda Vieira Soares garante que os dois candidatos estão a utilizar a religião e os laços étnicos para mobilizar os eleitores menos atentos a votar nas suas candidaturas. "Os dois candidatos estão a utilizar de uma forma muito clara a religião, os laços étnicos e parentescos para mobilizar os votos eleitorais", garantiu ao DN, dizendo-se preocupada com esta forma de campanha eleitoral agora desencadeada por Domingos Simões Pereira e Umaro Sissoco Embaló, uma vez que "poderá futuramente criar conflitos de ordem étnica e religiosa" como está a acontecer agora na Nigéria.

Contudo, Fernanda Vieira Soares não tem dúvida em quem vai votar no domingo. Sem revelar ao DN, a funcionária pública de Bissau disse, confiante, já ter os projetos presidenciais dos dois candidatos e já ter estado nos comícios de Domingos Simões Pereira e de Umaro Sissoco Embaló. "Já fiz a minha escolha. Estou agora à espera do dia 29 para votar", assegurou ao DN, manifestando a esperança de que o candidato em que vai votar "vença as eleições presidenciais e seja o próximo presidente da República da Guiné-Bissau para poder honrar e cumprir a sua promessa de garantir a estabilidade política, institucional e governativa" da antiga colonia portuguesa na África Ocidental.

Contudo, Fernanda Vieira Soares ainda tem a consciência pesada em relação aos votos étnicos e religiosos que no seu entender tiveram um grande peso na votação nos círculos eleitorais em algumas regiões do país na primeira volta. Mas diz esperar que não se repita a onda da votação étnica e religiosa na segunda volta das presidenciais. "Não acredito que haverá outra vez na segunda volta uma onda da votação étnica e religiosa", explicou ao DN, manifestando a sua convicção e sustentando que "a conduta e o carácter humano contam mais do que a religião ou o grupo étnico porque os eleitores guineenses sabem muito bem o que passaram nos últimos cinco anos".

A funcionária pública espera que Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, ajude o próximo presidente da Guiné-Bissau dando-lhe alguns conselhos sobre como reforçar a cooperação para arranjar uma solução para a emigração e para a democratização da sociedade guineense.

Quanto aos militares na reserva que estão envolvidos na campanha eleitoral, Fernanda Vieira Soares defendeu a necessidade de lhes dar o beneficio da dúvida em virtude da postura equidistante que os militares em geral têm assumido perante a crise política, institucional e governativa na Guiné-Bissau. Ainda no seu entender, a estabilização política e governativa do país passa necessariamente pela colocação dos quadros técnicos na função pública nas suas áreas de formação e o próximo presidente da República deverá influenciar o governo a investir na educação, na saúde e na justiça.

Técnico e comerciante de imobiliário no Mercado de Bandim, Ibraima Baldé considerou pouco saudável a atual forma de fazer política na Guiné-Bissau, o que, na sua visão, torna hoje ainda difícil um eleitor opinar sobre os dois candidatos à segunda volta das presidenciais. "Estou mais dedicado às questões do imobiliário. Evito opinar sobre a política em virtude da sua conjuntura atual bastante desconfortante."

Técnico no principal mercado de Bissau, garantiu ao DN: "Não tenho nenhuma preferência entre os dois candidatos, mas o que desejo é que zelem mais em satisfazer a vontade da maioria dos guineenses e não como aconteceu no mandato dos anteriores presidentes da República, que só levaram a população ao sofrimento."

Ibraima Baldé não acredita na possibilidade de haver, nesta segunda volta, uma onda de votação étnica e religiosa. Exorta, por outro lado, os dois candidatos a que aquele que ganhar se empenhe em resolver essencialmente as necessidades da população guineense. Para ele, a Guiné-Bissau, como país, não poderá alcançar estabilidade política, institucional e governativa se mantiver o atual sistema político semipresidencialista.

Má coabitação entre presidente e primeiro-ministro

A seu ver, a instabilidade na Guiné-Bissau advém da má coabitação política entre o presidente e o primeiro-ministro, uma vez que cada um deles acha ter a mesma legitimidade popular, porquanto ambos são eleitos por um escrutínio eleitoral. "Se o primeiro-ministro fosse apenas nomeado pelo presidente e este escolhesse uma pessoa da sua confiança, não haveria problemas de coabitação, o que permitiria aos dois trabalhar em equipa na fiscalização do Parlamento e do poder judicial," defendeu Ibraima Baldé, que considera pura especulação o envolvimento dos militares na reserva na campanha eleitoral. "É pura especulação. Querem apenas envolver os militares na reserva na politica partidária, o que é mau para os nossos partidos políticos e os dois candidatos que ficaram silenciosos perante esta especulação que envolve os nossos oficiais militares na reserva."

Na visão de Aminata Camará, residente no bairro de Chão de Papel e Varela, em Bissau, a campanha está a decorrer sem incidente, sem protestos e sem agressões. "Acompanhei de perto os discursos eleitorais dos dois candidatos e já tenho na minha cabeça o candidato em quem vou votar no domingo." E espera que o seu candidato seja o próximo presidente da República da Guiné-Bissau.

Aminata Camará lamenta as acusações mútuas dos dois candidatos sobre a utilização de temas étnico-religiosos na mobilização dos votos eleitorais durante a campanha. a seu ver, é mau para um país como a Guiné-Bissau, onde existe um mosaico étnico, cultural e religioso inseparáveis. Assim sendo, espera que o próximo presidente tenha capacidade de diálogo para poder mudar a imagem da Guiné-Bissau na Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP) e na Comunidade Económica dos Estados de África Ocidental (CEDEAO).

Por seu turno, Amadu Djau, proprietário de uma loja na Estrada de Bôr, nega por completo a possibilidade de haver uma onda de votação étnico-religiosa na segunda volta das presidenciais. Garantiu ao DN que a sua escolha do candidato nada teve que ver com essa questão e exortou os dois candidatos para deixarem de lado as questões étnicas e religiosas na vida politica da Guiné-Bissau.

O comerciante da estrada de Bôr apelou ao novo presidente para procurar influenciar o estabelecimento de uma cooperação bilateral entre a Guiné-Bissau e Portugal.

Novo presidente como garante da separação dos poderes

A visão da maioria dos 761 676 guineenses que votarão no domingo sobre o sistema semipresidencialista que vigora atualmente no país de Amílcar Cabral é quase unânime: este regime político pode até ser bom, mas depende de quem estiver na presidência. Se o próximo presidente for um bom líder, não haverá problemas de instabilidade politica, institucional e governativa.

A maioria da população de Bissau acredita que só com a mudança de mentalidade, em coerência com a mudança de narrativa política dos governantes, o novo presidente da República conseguirá materializar mudanças políticas, económicas e sociais para que a Guiné-Bissau possa caminhar para a estabilização política, económica e para o seu desenvolvimento.

Para os habitantes da capital, o papel do novo presidente da República será fundamental para a credibilização da política e dos partidos na Guiné-Bissau. Ao invés, será difícil que a democracia representativa e participativa se estabeleça no país. Além disso, consideram que o próximo chefe do Estado terá de reunir as condições necessárias para aperfeiçoar o princípio da separação dos poderes legislativo, executivo e judicial no país.

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