Águas agitadas no Mediterrâneo Oriental

A semana esteve à beira de explodir, no Mediterrâneo Oriental. A Turquia continuou a prospeção marítima de depósitos de gás, com intenções económicas e políticas, e aumentou a sua presença militar em águas que a Grécia considera como pertencentes à sua plataforma continental. Esta, como retaliação, declarou que iria levar a cabo exercícios navais e aéreos nessas mesmas águas. E assim o fez, durante três dias, de 26 a 28 de agosto, em colaboração com as forças armadas de Chipre, da França e da Itália. Estas manobras seguiram-se a um outro exercício marítimo, greco-americano, que foi mais simbólico do que outra coisa, mas que não passou despercebido em Ancara. Certos comentadores turcos disseram, então, de modo subtil, pois criticar o regime mete muitos jornalistas na prisão, que um dos objetivos do governo deveria ser o de evitar o isolamento diplomático da Turquia. Um conselho muito revelador.

A possibilidade de um incidente militar entre os dois países vizinhos deixou várias capitais europeias inquietas. A grande interrogação passou a ser a de como evitar um confronto aberto, que acabaria por arrastar vários países europeus e até mesmo o Egito, entre outros.

Um esforço de apaziguamento no quadro da NATO foi posto de parte. A organização não tem condições para responder a esta rivalidade entre dois Estados membros. Aliás, é cada vez mais notória a paralisação da Aliança, em matérias que tenham que ver com os jogos políticos do presidente Erdogan. A Turquia transformou-se, no seguimento da mal contada tentativa de golpe de Estado de julho de 2016, numa mó de azenha amarrada ao pescoço da NATO.

Restava o canal europeu. A Alemanha, que ocupa a presidência da UE e tem peso em ambos os países, enviou a Atenas e a Ancara o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, o social-democrata Heiko Maas. A sua proposta era clara: que se estabelecesse uma moratória na exploração das águas contestadas e que se procedesse à procura de uma solução negociada. Na Grécia, pouco conseguiu. Os gregos haviam obtido a convocação de uma reunião europeia sobre o assunto e continuavam a apostar nas decisões que aí pudessem ser tomadas, bem como no apoio de Emmanuel Macron. Na Turquia, Maas obteve do seu homólogo uma promessa de participação num processo de diálogo. Foi uma maneira hábil de responder, por parte do ministro turco, que assim procurou esvaziar a vontade dos europeus em adotar sanções contra o seu governo.

A vizinhança greco-turca está muito complicada. Só tem uma solução, que é a do diálogo e da cooperação entre os dois vizinhos. Essa deve ser a linha recomendada pelos parceiros europeus. Não será fácil fazê-la aceitar, mas, em alternativa, a confrontação seria uma catástrofe. Também é preciso enviar mensagens claras ao presidente Erdogan, quer sobre o futuro da relação entre o seu país e a Europa - que não passará pela adesão, pois a Turquia está inserida numa outra realidade geopolítica e numa esfera cultural que diverge da predominante no espaço europeu - quer sobre outras questões em que os interesses estratégicos das partes possam estar em colisão.

Deve reconhecer-se que a Turquia é um país que conta na área geográfica em que se insere. Ao mesmo tempo, não nos podemos esquecer das opções que o presidente Erdogan tem tomado nos últimos anos, que chocam, contrariam a nossa ideia de democracia e deixam muitos líderes europeus francamente apreensivos. A Turquia de Erdogan tem ambições irrealistas, que vão muito além da sua força económica - o PIB nacional é metade do PIB de Espanha, apesar da população turca ser o dobro da espanhola - e da sua capacidade de influência regional. Na verdade, a Turquia é um país ainda em desenvolvimento e com sérios problemas de inclusão social das suas minorias étnicas, para já não falar do tema sempre presente do respeito pelos direitos humanos. Faria melhor em gastar menos em despesas militares - representam 2,7% do PIB, um valor bem acima da média e da recomendação que prevalece no interior da NATO - e mais na promoção do bem-estar e das oportunidades dos seus cidadãos. Se assim acontecer, é certo que poderá aspirar a uma associação mais próxima com a UE.

Isso é para o futuro, talvez mesmo apenas possível numa época pós-Erdogan. Para já, é fundamental travar a escalada militar e acalmar as águas.

Conselheiro em segurança internacional
Ex-representante especial da ONU

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