Antes e depois do Ucraniagate 

O impeachment a Trump vai marcar a política americana e internacional nos próximos meses. Vai reduzir o espaço de debate entre democratas, centrar tudo na investigação ao presidente, testar a força do Congresso, da justiça, dos serviços de informação e dos media. Há um antes e um depois do anúncio de Nancy Pelosi.

O início do impeachment a Trump sempre foi a crónica de um processo anunciado. Desde o choque da eleição em 2016 que o tema corre os vários círculos de poder em Washington, à espera de um alinhamento entre factos constitucionalmente previstos e o timing perfeito para dar início ao inquérito no Congresso. A vitória democrata nas intercalares de 2018 acabou por ser o quadro político que faltava, sem essa alteração dificilmente estaríamos a falar de um impeachment. No entanto, não foram poucos os obstáculos até chegarmos aqui.

O primeiro patamar passou pela difícil tarefa de gerir uma bancada democrata triunfalista na Câmara dos Representantes com um consenso pouco evidente sobre o processo de destituição do presidente. A ala mais à esquerda queria acelerar o processo, enquanto os congressistas mais moderados mantinham as dúvidas sobre os seus efeitos colaterais. Não só implicaria secar a agenda política democrata que iria ser exposta nas primárias do partido como ajudaria a uma vitimização potencialmente proveitosa de Trump, capaz de mobilizar a sua base para o próximo ciclo eleitoral, como ainda teria tudo para ser um processo falhado, dada a maioria republicana no Senado, onde são preciso dois terços para destituir o presidente. Cabia a Nancy Pelosi gerir as tensões democratas, medir o pulso à situação, aos calendários e sobretudo à gravidade dos factos que permitiriam iniciar um inquérito parlamentar.

Este foi o segundo patamar. Numa primeira fase, os democratas esperaram pelas conclusões do relatório Mueller e ainda da audição que o procurador iria prestar ao Congresso. Como já aqui analisei, a investigação não acusou perentoriamente Donald Trump de ter estado diretamente envolvido no conluio com a Rússia para benefício eleitoral, embora não o tenha ilibado. Resulta do relatório uma vantagem política para o então candidato republicano, com várias demonstrações de participações de membros do núcleo duro trumpista em reuniões com elementos do Kremlin. Mueller, no entanto, ao não acusar o presidente, deixou a ponta solta ao início de uma outra fase de investigação, necessariamente com contornos políticos acrescidos, a ser protagonizada pelo comité da especialidade na Câmara baixa do Congresso. O que resulta, isso sim, do relatório e da audição do procurador no passado 24 de julho são as várias tentativas de obstrução à justiça que Trump foi levando a cabo, um argumento que, não estando expressamente consagrado na Constituição, cabe na categoria de "crimes graves" que a história do impeachment e a jurisprudência americana têm vindo a consagrar. Ou seja, Mueller deixou à política a continuidade do seu trabalho. No dia 25 de julho, dar-se-ia o facto que faltava.

Este terceiro patamar mudou o rumo da história. Nancy Pelosi já ia tendo nas mãos, ainda antes do testemunho enviado ao Congresso sobre o conteúdo do telefonema entre Trump e o presidente da Ucrânia feito naquele dia, de que cada vez mais congressistas democratas estavam confortáveis com a convocação de um inquérito de impeachment. A partir do momento em que a credibilidade da fonte foi testada e a gravidade do conteúdo um dado incontornável, o consenso tomou conta da bancada democrata e Pelosi tinha a gestão do modo, do tempo e do timing alinhados para o anúncio, antecipando-se à Casa Branca na condução da narrativa e de uma eventual libertação do conteúdo do telefonema. A gestão política de Pelosi esteve à altura do momento sensível da política americana, sem banalizar o impeachment nem canibalizar a primeira fase das primárias democratas. Já o conteúdo do telefonema ente Trump e Zelensky é não só brutalmente grave para o presidente como demonstrativo do seu ADN. Sem olhar a meios para tirar um proveito político interno, sem qualquer pudor em criticar uma sua embaixadora perante um líder estrangeiro, sem qualquer pingo de seriedade ao mentir sobre a falta de apoios europeus à Ucrânia, quando estes são muito superiores aos americanos, e ainda sem qualquer vergonha em nunca ter tocado na palavra Rússia, seja para a criticar ou, por via disso, colocar-se ao lado de Kiev sobre a ignóbil invasão da Crimeia.

O telefonema mostra, além da sabujice política de Zelensky, que a Casa Branca não faz qualquer distinção entre verdade e mentira, certo e errado, bem e mal. Esta administração americana é a história da prepotência de um homem só, inqualificado para o cargo, com um poder imenso numa espiral de livre-arbítrio, autoritarismo e delapidação acelerada dos mínimos indispensáveis à manutenção da saúde da democracia americana. É para a sua defesa que o impeachment existe: sendo bem mais do que um resultado, é o processo de salvaguarda da Constituição, da democracia e da verdade. O cálculo político, vindo de onde vier, não deve nunca sobrepor-se a isso.

Neste ângulo que incide sobre Trump, vai ser importante acompanhar a evolução da investigação na Câmara dos Representantes e o que aí será levantado nas audições públicas, mas também o impacto que os factos descobertos terão na solidariedade dos congressistas republicanos, sobretudo senadores, face a Trump. Nunca é demais recordar que, no dia das presidenciais do próximo ano, toda a Câmara dos Representantes vai novamente a votos, bem como um terço do Senado. A toxicidade do impeachment presidencial pode quebrar o encanto republicano com Trump manifestado nas intercalares de 2018. Aí, sem vozes dissonantes, o partido pôs-se no bolso do presidente. A partir de agora e à medida da gravidade dos factos, ninguém pode assegurar que o mesmo bolso não se rompa.

O ângulo paralelo está centrado na corrida ao ticket democrata. Joe Biden, figura central do telefonema entre Trump e Zelensky, não sai bem da nuvem lançada sobre si. A vantagem que as sondagens lhe dava na corrida com Elizabeth Warren e Bernie Sanders encurtou e o facto de pertencer a uma aristocracia política sem um discurso de rutura não ajuda a relançar-se quando comparado com Warren, que vem ganhando momentum. Esta, muito mais expedita no apelo ao início do inquérito a Trump, tem a sua agenda focada na falência do eixo corrupção-modelo económico-guerras palacianas, um programa mais próximo das bases democratas e que o comportamento de Trump valida. Isso significa que Warren será mais capaz de o derrotar? Não necessariamente. A vitória democrata em novembro de 2020 só acontecerá se, por um lado, a desagregação republicana resultar da investigação a Trump e, por outro, se tiverem a arte e o engenho de federar uma grande coligação socioeconómica como Obama fez em 2008 e em 2012. A única certeza é que ambas as premissas são neste momento uma tremenda incógnita.

Investigador universitário

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