Allen Frances: "A evolução produziu génios como Einstein e idiotas como Trump"

"Trump não é louco, mas a nossa sociedade é", defende o psiquiatra norte-americano Allen Frances em O Fim da Racionalidade Americana, agora publicado em Portugal. Chamar-lhe louco é "um insulto aos doentes mentais".

Em entrevista por e-mail ao DN, considera decisivas as eleições legislativas intercalares de novembro próximo pois "vão permitir conhecer a qualidade da nossa cidadania e saber se a democracia dos Estados Unidos é suficientemente forte para resistir ao violento ataque de Trump".

No livro, Frances explica por que não subscreveu a carta de 50 mil profissionais de saúde que "diagnosticava" uma "doença psíquica séria" ao presidente dos Estados Unidos, por ter perturbação narcísica da personalidade, e exigia a sua remoção do cargo. Não poupa nas palavras: "Trump é um idiota clássico. Nunca conseguiu ser nada mais, nada menos, do que Trump." Mas "ser um narcisista do pior não faz que Trump seja psiquicamente doente".

"Já tivemos a nossa quota-parte de presidentes burros, presidentes impulsivos, presidentes mentirosos, presidentes ignorantes, presidentes narcisistas, presidentes belicosos, presidentes da teoria da conspiração e presidentes imprevisíveis - mas nunca um presidente encarnou todos esses traços repreensíveis", afirma o autor no prólogo à obra editada em Portugal pela Bertrand.

Mas este não é um livro sobre o presidente dos Estados Unidos, como explica Frances. Tinha começado a escrevê-lo muito antes de sequer pensar em incluir Trump, até porque se trata de um estudo acerca do que considera a insanidade social: "A nossa incapacidade de responder com sentido aos perigos cada vez mais urgentes que ameaçam a sobrevivência da humanidade - a sobrepopulação, as alterações climáticas, o esgotamento dos recursos e a degradação ambiental."

Allen Frances, nascido em Nova Iorque em 1942, coordenou a equipa que reviu pela quarta vez o DSM, o Manual de Diagnóstico de Doenças Mentais pelo qual se guiam os profissionais da psiquiatria. Critica o DSM-5, atualmente em vigor, que considera demasiado abrangente, provocando uma inflação de diagnósticos.

Afirma que Trump não é louco mas que a sociedade está louca. Na luta contra a insanidade não há espaço para a apatia? Devemos, cada um de nós e também nas nossas redes pessoais, sociais e políticas, comprometer-nos cada vez mais?

Fui sempre preguiçoso e politicamente inativo, relapso em relação a todas as grandes controvérsias políticas dos últimos 50 anos, e raramente votei nas eleições. Agora ando a calcorrear as ruas para encorajar as pessoas a exercerem o direito de voto - o único caminho para conseguirmos salvar a democracia nos Estados Unidos do diabólico ataque de Trump. A nossa próxima eleição em novembro vai ser a mais importante desde 1860, quando Abraham Lincoln foi mandatado para acabar com a escravatura. A democracia é uma flor rara e frágil que exige uma cidadania informada e comprometida. A democracia morre com a apatia. Isto é igualmente verdade em muitos países da Europa e da América do Sul, onde partidos de extrema-direita promovem um regresso à xenofobia e ao fascismo.

Os psiquiatras que declararam que Trump é louco reagiram à sua rejeição desse diagnóstico?

Os psiquiatras que classificaram Trump como louco têm boas intenções. Eles têm a perceção clara de que Trump é perigoso e querem usar terminologia da psicologia para travá-lo. Mas Trump é louco como uma raposa, mais vil do que louco, um vigarista explorador impiedoso que só quer saber de Trump. É um insulto aos doentes mentais equipará-los a Trump, pois são na maioria bem-intencionados e bem-comportados e ele não é nem uma coisa nem outra.

O populismo e a xenofobia estão a invadir a política - vemo-lo na eleição de Trump e também noutros países da América do Sul e da Europa. É inelutável?

As fontes fundamentais dos conflitos mundiais são a sobrepopulação maciça, o esgotamento dos recursos naturais e as catastróficas alterações climáticas. Todos os focos problemáticos do mundo sofreram uma insustentável quadruplicação da população desde 1950. A nossa espécie demorou 300 mil anos para atingir uma população de mil milhões. Agora acrescentamos mais mil milhões a cada 15 anos. A Europa não pode acomodar os muitos milhões que desesperadamente procuram refúgio da guerra e da fome. O tribalismo feroz é inevitável enquanto a explosão demográfica impuser demandas impossíveis à boa vontade e aos sentimentos humanos. A sobrevivência da nossa espécie exige que encaremos a dura verdade de que este planeta é um pequeno calhau com recursos limitados e em vias de desaparecer. Conservação, sustentabilidade e controlo da natalidade são essenciais para a sobrevivência e exigem cooperação entre as nações em vez de perseguir interesses egoístas de curto prazo.

Nunca houve tanta informação e nunca houve tanta desinformação a condicionar as nossas escolhas. Há alguma saída?

A internet foi criada como um enorme recurso para espalhar conhecimento e democracia. Em vez disso, tornou-se uma fonte de fake news e um veículo de propaganda. Há estudos que provam que mentiras emocionalmente empolgantes espalham-se muito mais depressa e têm mais consequências do que verdades racionais. A luta pela democracia vai depender de a verdade ganhar esta batalha - mas por enquanto as redes sociais trouxeram mais para a luz os nossos anjos maus e a irracionalidade do que anjos bons e decisões razoáveis.

É possível que viver em democracia tenha o efeito paradoxal de darmos menos atenção à política? Teremos adormecido descansados?

Houve muito poucas democracias de sucesso nos 5000 anos da história humana e raramente tiveram vida longa - quase sempre redundaram em caos e ditadura. A democracia exige uma cidadania comprometida, informada, sempre alerta, e respeito pelas instituições. As nossas próximas eleições vão permitir conhecer a qualidade da nossa cidadania e saber se a democracia dos Estados Unidos é suficientemente forte para resistir ao ataque precipitado de Trump.

"Para sobrevivermos, a mente racional deve reafirmar-se sobre o impulso irracional e a fantasia da concretização de desejos." É um apelo à ciência e ao conhecimento em vez de reações instintivas?

O cérebro humano é um work in progress. Os nossos instintos estão adaptados ao mundo de há 50 mil anos e muitas vezes submergem o pensamento racional necessário para enfrentar os desafios do futuro. A evolução produziu génios como Einstein e Cervantes, mas também produziu idiotas como Trump. Ou nos adaptamos racionalmente às nossas novas circunstâncias ou seremos destruídos por elas. Temos de perceber que somos uma única tribo a fazer peso num navio que se afunda - ou vencemos ou falhamos em conjunto.

No seu livro, revela uma grande preocupação com o futuro, mas aponta caminhos para ultrapassarmos os perigos. É uma atitude otimista? E é possível viver sem esperança?

Somos uma espécie extremamente inteligente - formiguinhas num pequeno planeta que resolveram muitos mistérios deste vasto universo. Adquirimos um enorme conhecimento mas uma sabedoria limitada. Chegámos às estrelas, mas falhámos no nosso próprio controlo. Mas tenho esperança. O meu país elegeu recentemente um racista idiota como Trump, mas há dez anos elegemos o nosso primeiro presidente negro - o virtuoso e racional Obama. As contingências do futuro são impossíveis de prever e os pontos de inflexão podem ir em direções favoráveis ou desastrosas. Cada um de nós deve fazer a sua parte para entregar um mundo habitável aos nossos filhos e aos filhos dos nossos filhos.

A luta antitabaco, diz, é um dos maiores avanços da medicina das últimas décadas, apesar de ter sido travada contra os interesses da indústria e sem os enormes investimentos da luta contra o cancro. O mesmo aconteceu com a amamentação materna. Pequenos passos para a humanidade?

A luta pela democracia é uma batalha do poder do povo contra o poder do dinheiro. Uma tremenda desigualdade económica e a concentração de riqueza conduzem inevitavelmente à desigualdade política e à concentração do poder político. A ferramenta para salvar a democracia é a urna do voto.

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