O amor é mais forte do que a guerra

Em 1961, nos primeiros meses da Guerra Colonial, as raparigas portuguesas foram desafiadas a corresponder-se com os soldados enviados para África, tornando-se suas "madrinhas". A resposta foi conclusiva: ao longo dos 13 anos que durou o conflito, cerca de 300 mil jovens corresponderam-se com combatentes, tornando-se uma luz na escuridão da guerra. Como a jornalista Marta Martins Silva conta no seu livro "Madrinhas de Guerra", agora lançado pela Saída de Emergência.

"Adeus, até ao meu regresso", escreviam eles no final das cartas enviadas a quem ficara na metrópole. Mas para esses rapazes, alguns muito novos e ignorantes de tudo o que excedesse o perímetro da sua aldeia, ou do seu bairro se acontecia serem da cidade, era incerto o tão desejado reencontro.

Em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, nos 13 anos que durou a Guerra Colonial, centenas de milhares de homens conheceram a pontada do medo e do desenraizamento. Temiam por si, pelos irmãos de armas e pelos que tinham deixado na metrópole. Como o primeiro-cabo atirador Carlos Neves, que, em 1971, do norte de Angola, escrevia assim a Rosa, sua madrinha de guerra e futura mulher: "Queridinha, alguns dos meus colegas ficaram muito maltratados por motivo de uma emboscada onde foram feridos [...] Agradecia que não contasses nada aos meus pais para não ficarem em cuidados."

Esta é uma das várias histórias reconstituídas pela jornalista Marta Martins Silva no livro Madrinhas de Guerra - A Correspondência dos Soldados Portugueses durante a Guerra do Ultramar, com prefácio de Carlos Matos Gomes, militar, investigador de História Contemporânea e autor de várias obras literárias sobre o cenário de guerra assinadas com o pseudónimo Carlos Vale Ferraz.

Para Marta, tudo começou nas reportagens sobre o tema que fez para a revista de domingo do Correio da Manhã. Ao longo de anos a ouvir os testemunhos de antigos combatentes, compreendeu a importância do papel desempenhado pelas madrinhas de guerra, e que "tem sido negligenciado em todas as narrativas sobre o conflito." Por isso, quando a editora Saída de Emergência a convidou a escrever um livro sobre o tema, Marta não hesitou.

Até aos últimos dias antes do confinamento em março, recolheu as memórias de antigas madrinhas e afilhados, reuniu cartas e aerogramas, viu dezenas de álbuns de fotografias. Encontrou "um pouco de tudo, histórias com finais felizes e outras não, com alguns arrependimentos à mistura".

Admite também que várias vezes se emocionou porque sendo este um livro sobre a guerra, não deixa de ser também "sobre o amor e a importância da palavra amiga num contexto tão duro". Como mostra esta mensagem enviada do mato para Portugal continental: "Eu sou um militar longe, muito longe da minha terra natal [...] e com a sua ajuda o tempo passava um bocadinho melhor."

A solidão assistida do soldado

Como Marta demonstra no princípio do livro, o conceito de madrinha de guerra não nasceu nos anos de 1960. Remonta à Primeira Guerra Mundial, quando os Estados-Maiores dos exércitos em confronto compreenderam a importância psicológica do apoio feminino junto das tropas sujeitas ao horror das trincheiras. A propósito, cita amplamente Cartas às Madrinhas de Guerra, de Afonso do Paço, militar e arqueólogo que integrara o Corpo Expedicionário Português em França.

Em 1961, quando a guerra irrompe em Angola (estendendo-se posteriormente à Guiné-Bissau e a Moçambique), os meios eram outros e o regime não tardou a incentivar esse tipo de correspondência, tratando de controlar a solidão e o desalento do soldado atirado para uma realidade que lhe era totalmente estranha.

Em cena entrou, pois, o Movimento Nacional Feminino, dirigido pela primeira figura feminina do Estado Novo, Cecília Supico Pinto (1921-2011). Casada com um dos homens fortes de Salazar (Clotário Supico Pinto), foi ganhando ela própria ascendente junto do ditador. Quando as primeiras tropas embarcaram para Angola, Cecília não teve, pois, dificuldade em implantar a sua estratégia de ação psicológica.

"O curioso - diz a autora do livro - é que aquilo que começa por ser uma iniciativa política, levada a cabo pelo regime, não tarda a ultrapassá-lo. Em breve revistas de grande circulação, como A Plateia ou a Crónica Feminina, começam a publicar listas com os nomes dos soldados que procuram madrinha de guerra. Outros recorrem à de ajuda de terceiros nessa busca, que tanto podem ser familiares como os próprios carteiros, pedindo-lhes que entreguem aquela carta à primeira rapariga, ou à mais bonita, que encontrassem na sua zona de trabalho."

Hoje, em tempo de redes sociais, sorrimos com o quase bucolismo de tal ideia, mas, como salienta Marta Martins Silva, "dificilmente imaginamos o que seria a expectativa pelos resultados dessas diligências. A chegada do correio deveria ser um momento muito emocionante para todos eles".

Logo no princípio da guerra, a vulgarização dos aerogramas, popularmente conhecidos por "bate-estradas", facilitou muito as comunicações entre a metrópole e as tropas em África. Como se pode ler neste livro, "eram, além de tudo, muito fáceis de utilizar pelas famílias, que não precisavam de escrever o endereço do militar a quem as missivas se destinavam - bastava que indicassem o nome e o seu número do Serviço Postal Militar, responsável por fazer chegar as cartas ao destino. Isto era possível porque cada destacamento militar tinha atribuído um número com quatro dígitos que identificava a exata localização dos soldados". Quando passaram a ser transportados gratuitamente pela TAP, com uma rapidez que o correio normal, com franquia, não conhecia, os números dispararam: "O número de aerogramas em circulação aumentou de forma exponencial: a média mensal até setembro de 1962 foi de 423 750 aerogramas, número que aumentou para 663 750 de setembro a abril de 1963, o que significou mais de 200 mil aerogramas por mês e mais de 2 400 000 enviados por ano."

Era o veículo possível para galgar a distância entre quem ficava num país pobre e quem partira para destino incerto: "Naquela altura, mobilizados rapidamente e em força, os militares interromperam a vida e deixaram pendentes os mais variados problemas pessoais: empregos, noivados, casamentos, pais em situações precárias. Naquela época, muitos deles eram o ganha-pão da maioria dos agregados e a sua ausência fazia mossa na comida que entrava em casa e não apenas nas saudades."

Amores e desamores

Com este livro, Marta deu também voz às mulheres que são a parte quase sempre ignorada desta história - as que aceitavam o repto e "apadrinhavam" um soldado. Calcula-se que, no total, tenham existido cerca de 300 mil madrinhas, todas com mais de 21 anos (quando, à época, se atingia a maioridade), mas com uma grande diversidade de origens sociais, desde as raparigas que serviam, como criadas, em casas alheias às estudantes do ensino superior.

Entre as jovens de cá e os jovens que estavam lá há troca de confidências, de fotografias, pequenos presentes. "Às vezes são apenas lufadas de ar fresco num dia-a-dia terrível, mas também surgiram grandes amizades e muitos namoros", diz a autora. Vários dos homens com quem falou evocaram o momento da chegada do correio, a sensação experimentada ao ouvirem o seu nome, a intimidade da leitura. "Amor, tão longe tu estás", como na canção Saudade, dos Heróis do Mar.

Muitos desses namoros epistolares não passaram do papel, perdidos no "redemoinho da cidade civil" (na frase de António Lobo Antunes, em Os Cus de Judas, um dos livros que o escritor dedicou ao tema da Guerra Colonial): uns por desencontros vários, outros porque, como afirma Marta Martins Silva, havia em "muitos destes soldados o medo de sofrerem um ferimento que levasse à amputação, tornando-os, numa expressão muito comum entre eles, menos homens. Em muitos deles, esse medo adquiria tanta força que os levava a desistir de qualquer compromisso a médio prazo e interrompiam a correspondência".

Este é, pois, o livro que regista a transformação destes homens num outro, diverso do que partia. Como escreve Carlos Matos Gomes no prefácio ao livro: "[...] Todo o português feito soldado sentiu que quebrava uma ligação ao que lhe era matricial à sua terra, à sua família, à sua comunidade, aos seus projetos de vida. Morria, porque o arrancavam do seu meio e o transplantavam para outro, desconhecido. Quem permanecia na metrópole, em certa medida, também o assumia como morto. Ele nunca regressará como o conheceram. Será outro."

Para Matos Gomes, estas cartas, às vezes de uma grande candura proporcionada pela inexperiência de muitos daqueles jovens, revela ainda o seu desalento, fatal para os objetivos do regime: "A correspondência trocada entre os militares portugueses e as suas madrinhas de guerra revela que aquela não era uma guerra que pudesse ser ganha por aqueles soldados. As primeiras cartas falam de um cumprimento de um dever, de um tributo a pagar, mas logo de seguida do regresso, do vazio da missão que cumprem. Não se vislumbra nenhum sentimento de orgulho por estarem os militares mobilizados a contribuir para uma vitória ou uma grande causa."

Na sua deambulação, Marta encontrou também histórias com final feliz: as dos soldados que voltaram sãos e salvos e se casaram com as autoras das cartas que lhes tinham suavizado a provação. Muitos deles assim continuam e partilharam com a autora a história dos seus amores: "Muitos dos casais vasculharam as casas em busca de recordações trocadas naquele tempo - e deixaram-se tomar pela emoção ao reencontrá-las -, outros sabiam exatamente onde as encontrar porque nunca as quiseram perder de vista. Houve também quem tivesse ficado sem nada em mudanças sucessivas, memórias perdidas em baús poeirentos que foram ficando para trás, ou a dada altura perdido a vontade de reviver o Ultramar [...]."

Meio século passado, o que permanece intacto na memória de todos é o sobressalto causado pela chegada do correio. E aquelas palavras que, num instante, venciam o medo, a distância, a proximidade do inimigo. Amor, tão longe tu estás.

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