Cimeira com Macron e Sánchez: Costa promete redução de custos para famílias no preço da energia

A autoestrada da eletricidade entre a Península Ibérica e o resto da Europa está agora mais perto de ser uma realidade. Portugal, Espanha e França assinaram um acordo de financiamento para uma nova ligação elétrica no golfo da Biscaia que, diz o primeiro-ministro, resultará em preços mais baixos para os consumidores.

Um mercado energético mais competitivo e uma redução de custos para as famílias, nos preços da eletricidade, e para a economia. Esta foi a promessa deixada ontem pelo primeiro-ministro português, António Costa, após a II Cimeira para as Interligações Energéticas, que decorreu em Lisboa com a presença do presidente francês, Emmanuel Macron, e do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, e da qual resultou a assinatura de um acordo de financiamento europeu de 578 milhões de euros para dar início à construção de uma nova ligação elétrica entre Espanha e França. Costa lembrou os objetivos de chegar a 10% de capacidade de interligação elétrica entre a Península Ibérica e França até 2020, e a 15% até 2030.

Quanto ao primeiro objetivo, a Comissão Europeia, pela voz de Miguel Arias Cañete, não acredita que se cumprirá, derrapando para 2025. "Ainda há muito caminho para andar e não estamos a cumprir os objetivos do Conselho Europeu", disse o comissário na conferência de imprensa final.

Portugal foi o anfitrião da cimeira e será um dos principais beneficiários desta futura autoestrada da eletricidade que se abrirá entre a Península Ibérica e o resto da Europa: poderá exportar mais renováveis, importar energia mais barata do centro europeu e assim reduzir os preços da eletricidade. Costa lembrou ainda a cooperação energética com o norte de África e a nova interligação com Marrocos, avaliada em 700 milhões de euros.

Na sua intervenção, Macron aproveitou a passagem por Lisboa para anunciar que o país encerrará todas as centrais a carvão até 2022, como parte de uma estratégia nacional ao nível da transição energética que será apresentada pelo governo de Paris neste outono. Já sobre o nuclear, reafirmou também que a França tem previsto o "encerramento efetivo" de uma central de produção de energia nuclear "durante este mandato". Mas avisou que o foco está sobretudo na redução maciça das emissões poluentes que resultam das centrais a carvão. "Não poderei fechar centrais nucleares para depois abrir novas centrais a carvão, nem aumentar a dependência em relação ao gás estrangeiro."

De manhã, o presidente francês esteve na Fundação Gulbenkian com Costa para um Encontro com os Cidadãos em que abordaram os desafios da União Europeia. As eleições europeias estão previstas para maio de 2019.

"Não poderei fechar centrais nucleares para depois abrir novas centrais a carvão, nem aumentar a dependência face ao gás estrangeiro."

Sobre o nuclear, Sánchez seguiu a deixa de Macron e sublinhou a necessidade de "garantir a segurança energética de Espanha", que passa pela aposta nas renováveis, mas também pelas centrais nucleares, como a de Almaraz, sobre a qual prometeu transmitir a Portugal toda a informação sobre o "presente e futuro" da central localizada perto da fronteira. "Os preços da eletricidade já são altos para os cidadãos e para as empresas, não podem aumentar mais", disse o primeiro-ministro espanhol, justificando a manutenção da aposta no nuclear. Tanto Macron como Sánchez sublinharam a importância de manter a estabilidade e não permitir o aumento dos preços da energia.

Da cimeira, que contou também com a presença do comissário europeu Miguel Arias Cañete e da vice-presidente do Banco Europeu de Investimento, Emma Navarro, resultou a assinatura do acordo de financiamento comunitário, no quadro do Mecanismo Interligar a Europa, no valor de 578 milhões de euros, para permitir o início da construção em 2019 de uma nova interligação elétrica (cerca de 300 quilómetros de cabos de alta tensão por via marítima) através do golfo da Biscaia. Este é o maior montante de financiamento alguma vez atribuído a um projeto de infraestruturas energéticas, sublinharam. O projeto está avaliado num total de 1900 milhões de euros e deverá ficar concluída até 2025. "Com 280 quilómetros, esta interconexão elétrica duplicará até 2025 a capacidade de troca entre França e Espanha e aproximará este país da meta de interconexão de 15% fixada pelo Conselho Europeu (em vez do nível atual de 6%), e irá integrar toda a Península Ibérica no mercado interno da eletricidade", anunciou a Comissão Europeia em comunicado.

Além dos fundos europeus, o projeto de interligação no golfo da Biscaia deverá também receber financiamento adicional do Banco Europeu de Investimento, para que possa ser concretizado. Emma Navarro confirmou ontem que já se iniciaram as conversações para chegar ao valor que o BEI contribuirá para este projeto. Na última década, o banco europeu financiou interligações nos três países no valor de 3600 milhões de euros.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.