O caldeirão de Marcelo e quem será o Ideiafix de Costa e de Rio?

A campanha eleitoral está a chegar ao fim. Em plena nova vaga de pandemia, com cada vez mais portugueses a testar positivo à covid-19, a fase final das legislativas de 2022 ficou marcada por episódios invulgares como o protagonismo dos animais de estimação dos líderes dos principais partidos, em vez de séria reflexão sobre o conteúdos dos programas, diálogo construtivo sobre propostas para os problemas dos cidadãos (além de impostos e SNS) e da partilha de quem será a equipa que PS e PSD pensam apresentar para governar o país até 2026.

Até agora, os portugueses desconhecem, por exemplo, qual o modelo e o tamanho do governo idealizado pelos líderes dos maiores partidos, quando parece óbvio que há ministros, secretários de Estado e adjuntos a mais no modelo vigente, sem que disso resulte benefício evidente para o eleitor contribuinte. Perguntei, em editorial, no início da semana: quem serão os nomes que Costa e Rio têm na manga para ministros nas Finanças, Economia, Saúde, Educação ou Defesa e Administração Interna? Como a resposta tem sido a troca de palavras em tom irónico sobre se deve ser ou não pedida maioria absoluta ou se alguém deve sair com dignidade quando as sondagens dão solavancos e empates técnicos, insisto na pergunta que os agentes económicos e sociais gostariam de ver respondida: o próximo governo precisa de cerca de 20 ministros e 50 secretários de Estado?

Para mais eficaz modelo de gestão da máquina do Estado, não fará mais sentido haver menor número de ministérios e maior concentração de pastas? Por exemplo, a Economia integrar áreas como energia, transportes ou até agricultura e mar/pescas, além das áreas económicas já existentes? Na gestão do PRR e da agenda 2030, seria mais eficaz voltar ao modelo de integração do Planeamento nas Finanças? Porquê continuar a separar a Educação do Ensino Superior e Ciência? Faz sentido haver ministérios para Coesão, Cultura e Modernização do Estado ou poderiam estas pastas ser representadas por secretários de Estado adjuntos do primeiro-ministro para ganharem força política, pela sua transversalidade e relevância? Que áreas são prioritárias para os próximos quatro anos e que modelo de governance é o mais adequado e inovador em função dos objetivos estratégicos?

Entende-se que, nesta fase de uma campanha difícil em pandemia, se jogue mais no tom emocional do apelo ao voto, perante o risco de uma elevada abstenção - agravada pela situação das pessoas em isolamento por covid. Mas há temas estratégicos de política externa, de defesa e de planeamento económico, por exemplo, que raramente foram abordados nos debates, como se a campanha sobre o futuro do país se resumisse a umas piadas para os programas humorísticos e umas arruadas em estreitas vielas, para melhor imagem televisiva.

Há alguém que deve estar a jogar em vários tabuleiros de xadrez para gerir os cenários de governação pós 30 de janeiro, se as sondagens confirmarem vitória escassa do PS ou do PSD. No dia 31 de janeiro, é muito provável pressão acrescida para os lados de Belém.

Poucos parecem estar interessados em responder a questões estruturais e preferem referências a animais ou outras imagens. Para usar personagens de uma conhecida banda desenhada sobre uma aldeia gaulesa cercada por romanos, se Marcelo Rebelo de Sousa fosse o druida Panoramix estaria já a misturar os ingredientes e a mexer o caldeirão da poção mágica, com um ar preocupado quanto à eficácia da poção para a defesa e o futuro da aldeia. Perto de si, António Costa pediria, como o bonacheirão Obélix, para beber mais do caldeirão, no qual caiu há vários anos (não apenas os últimos seis, lembrará o druida). Magro e de rápida piada irónica qual Astérix, Rui Rio diria que é a sua vez de beber a poção, pois, acredita, será ele agora a defender a aldeia, enquanto sugere a Obélix para se afastar do caminho "com dignidade". Nesta tira de banda desenhada (talvez já demasiado clássica e em choque com os fáceis tweets e momentos Instagram), falta o cão Ideiafix. E, na verdade, este animal sempre perspicaz pode fazer a diferença a partir de segunda-feira, desta vez numa aldeia lusitana na Ibéria. Entre os líderes partidários à esquerda ou à direita, quem será o Ideiafix que ficará ao colo de Obélix ou de Astérix? E o que fará Panoramix?

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