A pandemia tem as costas largas

Em crise, não há esquerda e direita, há demasiadas vezes miséria política, uma insensibilidade que funciona como terapia para que os governantes possam dormir melhor.

Em 2014, estava a troika de tenda montada em Portugal, dei conta, aqui mesmo no DN, da minha indignação depois de ver uma reportagem na RTP em que eram relatados vários casos de recusa de ajuda a famílias carenciadas com filhos em idade escolar e com necessidades especiais. O país vivia uma crise profunda, tinha mais de 300 mil desempregados sem qualquer rendimento ou subsídio do Estado, o que tornava evidente que deixar pessoas para trás e sem qualquer apoio era uma opção política que alguns consideravam válida. Mas incluir crianças e jovens, que tiveram a dupla infelicidade de nascer com deficiência e em famílias sem capacidade financeira para lhes atenuar as dificuldades, já não é apenas uma questão de políticas governamentais, é uma questão civilizacional.

Seis anos depois, voltamos a ter uma crise e pessoas que ficam para trás como opção política que todas as maiorias de ocasião parecem aceitar. Ainda mais grave, os incivilizados que, com malha fina, levam de arrasto crianças que deviam ser a prioridade de toda a sociedade continuam a poder ocupar lugares-chave nos ministérios, nas autarquias e na administração pública. Ontem, ouvi na TSF o testemunho da mãe do Gonçalo, de 17 anos, que precisa de ajuda para tudo, desde comer até simples idas à casa de banho. O filho de Joaquina Teixeira tem síndrome de Angelman, uma doença genética que afeta a fala e o equilíbrio e que pode potenciar a epilepsia e o estrabismo. Gonçalo ainda não vai às aulas porque não tem transporte.

Joaquina é uma de muitas mães que têm filhos com necessidades especiais, seja por dificuldades cognitivas ou deficiência física, a quem o Estado parece não ser capaz de oferecer mais do que cuidados paliativos. Dá a sensação de que o Estado, e nós pela indiferença generalizada, desistiu de permitir a estas crianças uma igualdade de oportunidades assente na diferença que cada uma delas carrega. Se os milhares de milhões que a Europa nos envia a cada quadro comunitário de apoio ou os milhares de milhões de euros que todos os anos pagamos de impostos não servem para ajudar estas pessoas a atalhar caminho, servem para quê?

O concurso público para garantir o transporte ao filho de Joaquina e a mais umas dezenas de alunos ainda está a decorrer. Sim, leu bem, desde o final do ano letivo anterior que sabemos que neste ano arrancaria com aulas presenciais, mas alguém se esqueceu, ou não teve tempo, de resolver esta questão. De qualquer forma, em Julho, "80% dos contratos públicos da pandemia tinham sido por ajuste direto", mas este caso a requerer urgência absoluta está à procura de uma boleia da maior transparência que oferecem os concursos públicos.

A pandemia que serve para justificar uma percentagem muito suspeita de ajustes diretos, e que levou já o líder da oposição a solicitar ao Ministério Público uma atenção especial ao caminho que está a ser seguido, também serve para justificar a falta de transporte para o Gonçalo. Mudaram as regras do transporte escolar, é verdade, mas a forma e o tempo para resolver este problema não são uma inevitabilidade, são uma opção, o que é muito pior do que incompetência.

Defender a democracia tem de começar por ser a defesa de um Estado que cumpre primeiro com os mais frágeis, para não dar argumentos aos que defendem que o Estado não é preciso para nada.

Jornalista

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